Emendas de bolsonaristas bancam ’Dark Horse’
Destinação de verbas públicas a entidades ligadas ao filme sobre Jair Bolsonaro amplia debate sobre uso político das emendas parlamentares e entra na mira do STF e da Polícia Federal
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Não foi só o dinheiro de Daniel Vorcaro a financiar “Dark Horse”, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro. Investigações revelam que milhões de reais em emendas parlamentares foram destinadas por deputados bolsonaristas à entidades ligadas à produção – em mais um flagrante uso político de recursos públicos, que acendeu alertas no Supremo Tribunal Federal (STF) e na Polícia Federal (PF). O caso envolve mecanismos pouco transparentes de repasse de verbas e suspeitas de que dinheiro público possa ter servido, direta ou indiretamente, para impulsionar um produto audiovisual centrado na imagem de um político inelegível e ainda influente na extrema direita brasileira.
As investigações miram ao menos R$ 4,6 milhões em emendas federais e outros R$ 700 mil em emendas estaduais destinados a entidades controladas por Karina Ferreira da Gama, empresária ligada à produtora GoUp Entertainment, responsável pelo longa-metragem. Embora os parlamentares envolvidos neguem qualquer irregularidade ou vínculo direto entre os repasses e o filme, o caso passou a ser analisado dentro do inquérito sobre transparência e rastreabilidade das emendas parlamentares conduzido pelo ministro Flávio Dino.
A controvérsia ocorre num contexto em que Bolsonaro está inelegível até 2030 por decisão do Tribunal Superior Eleitoral, após condenação por abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação. Ainda assim, o ex-presidente segue como principal liderança da direita brasileira e centro de uma estratégia permanente de mobilização política e eleitoral. Nesse cenário, críticos apontam que um filme construído para exaltar sua trajetória política pode funcionar, na prática, como instrumento de propaganda ideológica financiado indiretamente com dinheiro público.
A principal preocupação levantada por parlamentares de oposição e por especialistas em transparência pública é o risco de desvio de finalidade das emendas. Oficialmente, os recursos foram destinados a projetos culturais, esportivos, documentais e educacionais conduzidos pelo Instituto Conhecer Brasil (ICB) e pela Academia Nacional de Cultura (ANC), organizações controladas pela sócia da produtora do filme. No entanto, a coincidência entre os repasses e a estrutura empresarial ligada à cinebiografia de Bolsonaro levantou suspeitas sobre eventual triangulação de recursos.
O caso ganhou maior gravidade porque parte do dinheiro foi enviada por meio das chamadas “emendas Pix”, modalidade criada para acelerar transferências diretas e que se tornou alvo frequente de críticas por reduzir mecanismos de fiscalização. O próprio STF vem impondo restrições ao modelo desde 2024, exigindo maior rastreabilidade e transparência sobre a destinação final das verbas.
Foi nesse contexto que Flávio Dino abriu um procedimento específico para apurar os repasses. A investigação ocorre no âmbito da ADPF 854, ação que discute justamente a constitucionalidade e os critérios de transparência das emendas parlamentares. O ministro determinou que deputados explicassem detalhadamente os envios de recursos às entidades ligadas à produtora do filme.
Entre os parlamentares citados estão Mario Frias, Bia Kicis, Alexandre Ramagem, Carla Zambelli e Marcos Pollon. Parte deles destinou verbas para uma série documental intitulada “Heróis Nacionais – Filhos do Brasil que não se rende”, produção que também estaria vinculada às empresas investigadas.
O caso de Mario Frias chama atenção por uma sobreposição particularmente sensível: além de enviar R$ 2 milhões em emendas ao Instituto Conhecer Brasil, o deputado participa do elenco e assina o roteiro de “Dark Horse”. Para críticos, a situação cria um evidente conflito político e ético, já que um parlamentar estaria ajudando financeiramente entidades ligadas a um projeto audiovisual do qual ele próprio faz parte.
Os envolvidos negam irregularidades. Bia Kicis afirmou ao STF que “não existe qualquer conexão” entre sua emenda e o filme sobre Bolsonaro. Já a assessoria de Mario Frias sustentou que todos os procedimentos seguiram a legislação e apresentou documentos da Câmara que atestariam a regularidade formal dos repasses. Marcos Pollon, por sua vez, pediu o cancelamento de uma das emendas após o avanço das investigações e solicitou que os recursos fossem redirecionados para um hospital em Barretos.
Mesmo assim, as suspeitas persistem porque as entidades beneficiadas possuem ligação direta com a produtora do longa e compartilham estrutura administrativa semelhante. Ambas estão registradas em um conjunto comercial na Avenida Paulista, em São Paulo. Além disso, parte dos projetos financiados enfrentou problemas documentais, bloqueios técnicos e suspensão de pagamentos.
O governo de São Paulo confirmou que interrompeu a execução de recursos destinados à Academia Nacional de Cultura devido a “restrições técnicas e pendências documentais”. O STF também enfrenta dificuldades para avançar em algumas diligências. Um oficial de Justiça tentou intimar Mario Frias em diferentes ocasiões desde março, sem sucesso.
O episódio amplia o debate sobre a transformação das emendas parlamentares em instrumentos de fortalecimento político e ideológico. Nos últimos anos, especialistas em orçamento público vêm alertando que a pulverização de verbas sem mecanismos rigorosos de controle favorece redes clientelistas, promoção pessoal de parlamentares e uso político de recursos públicos.
Também pesa o fato de que Dark Horse é apresentado por aliados bolsonaristas como uma resposta cultural àquilo que chamam de “hegemonia da esquerda” no cinema brasileiro. O longa vem sendo tratado, nos círculos da direita, não apenas como obra artística, mas como peça estratégica de disputa narrativa e reabilitação política da imagem de Bolsonaro.
A controvérsia ainda se conecta a outras investigações envolvendo o entorno bolsonarista. Recentemente, vieram à tona informações sobre movimentações financeiras relacionadas ao financiamento do projeto audiovisual, incluindo transferências associadas ao empresário Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. Reportagens revelaram áudios em que o senador Flávio Bolsonaro cobraria pagamentos ligados ao projeto.
Embora ainda não haja comprovação de ilegalidade na destinação das emendas, o caso se tornou símbolo de um debate mais amplo sobre transparência, prioridades orçamentárias e instrumentalização política do Estado. Em um país marcado por cortes em áreas sociais, dificuldades no financiamento da cultura independente e carência estrutural em serviços públicos, a possibilidade de recursos parlamentares abastecerem, mesmo indiretamente, uma produção voltada à glorificação política de um ex-presidente investigado e inelegível intensifica as críticas sobre o uso privado da máquina pública.