“O Poço” e as lutas de classes no cinema atual
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“O Poço” e as lutas de classes no cinema atual

Gustavo Rego analisa o filme “O Poço” (2020), de Galder Gaztelu-Urrutia.

Gustavo Rego 2 abr 2020, 11:13

“O Poço” (2020), de Galder Gaztelu-Urrutia, tem estado há alguns dias entre os filmes mais vistos da Netflix no Brasil e tem sido muito comentado nas redes sociais. O filme se passa em um presídio vertical dividido em andares/celas com dois ocupantes cada e um fosso por onde passa um elevador com comida todos os dias. Os prisioneiros dos andares superiores podem se esbaldar com o banquete. Os dos andares inferiores comem as sobras – quando há sobras.

Ok, a alegoria política e social do filme é bem óbvia e nada sutil. Mas, para mim, metáfora não é charada. A metáfora boa não é aquela difícil de entender que faz os sabichões se sentirem mais inteligentes por terem decifrado. Mas é aquela que faz a gente experimentar uma coisa de uma forma diferente da que estamos acostumados na realidade. Tudo bem, qualquer um sabe que esse filme está tratando de luta de classes (o que tem sido feito com frequência maior desde o ano passado), mas ver a imagem de privilegiados pisando nos restos de comida que os outros irão comer nos faz entrar em contato com esse problema de uma forma nova. 

Aliás, esse para mim é o primeiro mérito do filme: muito se comenta sobre seus significados e alegorias, mas ele é acima de tudo um filme muito bem dirigido. As cores dessaturadas, o cenário, as atuações, a edição que transita bem entre momentos mais dinâmicos e mais lentos, a trilha sonora, etc. compõem um filme de terror excelente, do tipo que eu gosto. 

Voltando aos seus significados (e aqui começam os spoilers), o filme vai além de simplesmente dizer que a desigualdade é má. Ele mostra que ela é consequência de como o regime está materialmente estruturado, que esse regime leva ao individualismo, à barbárie e ao desprezo dos de cima pelos de baixo. Mais ainda, que a desigualdade é consequência de um sistema anárquico, em que prevalece o individualismo e a “liberdade” dos de cima se aproveitarem dos de baixo. Me lembra bastante a crítica de Marx à aparência de liberdade e igualdade do mercado contra sua essência exploradora e irracional. 

São interessantes também a forma como alguns personagens tentam superar esse estado de coisas. A mulher que fazia parte da administração é uma reformista: acredita que pode convencer os de cima a terem um olhar mais humano para os debaixo e não busca revolucionar a estrutura em que está. O protagonista começa como um socialista utópico, depois torna-se um “blanquista” (acreditando que pode fazer a revolução de assalto) e por fim vira um marxista, que sabe a necessidade de combinar discurso e violência na sua estratégia. 

A única coisa que não gostei nesse filme foi o final. Tudo bem um final ficar em aberto. Outra coisa é simplesmente não ter final. Essa é a impressão que me causou. As ideias do roteirista acabaram e o final “em aberto” é uma desculpa para um filme inconcluso. 

Mas sabe que até isso é interessante de ser analisado? Para explicar, preciso fazer uma digressão. O Poço está entre os vários filmes lançados desde o ano passado que possuem um subtexto mais ou menos direto sobre luta de classes e desigualdade. Outros exemplos são Parasita, Nós, Coringa, Bacurau, Farol e Entre Facas e Segredos. Mas a preocupação com esse tema não é um fenômeno restrito ao cinema. Desde o início desta década, o problema da desigualdade reapareceu com força. O movimento Occupy Wall Street e os indignados da Espanha já confrontavam os interesses dos 99% contra o 1%. As principais lideranças políticas de esquerda dos países desenvolvidos hoje, como Sanders, Corbyn e Ocasio-Cortez, tem o enfrentamento contra os bilionários como sua prioridade. Esse movimento político é apoiado por pesquisas científicas como as realizadas pela Oxfam e Thomas Piketty. Além disso, pode-se afirmar com segurança que os filmes citados acima não teriam recebido o destaque que receberam se seu tema não estivesse conectado a uma preocupação disseminada entre o público. Nesse sentido, é possível ir além: mais do que a politização dos filmes em si, o que alguém poderia afirmar que sempre existiu, o que mais chama atenção é a recepção politizada do público. Isso tudo é muito interessante pois, nos anos 90, se disseminou a ideia de que conceitos como luta de classes estavam superados. Todo esse movimento político e cultural mostra, todavia, que enquanto existirem classes haverá luta de classes. Mas a diferença é que, depois da derrota sofrida pela classe trabalhadora no neoliberalismo, esta classe luta sem a consciência e a organização de que dispunha quando ainda havia grandes partidos revolucionários, o socialismo não era demonizado e o marxismo não era ignorado. Mais uma vez, esses filmes retratam bem isso. Neles a reação dos oprimidos é sempre irracional, violenta, caótica, incapaz de forjar uma nova sociedade, utópica. Além disso, esses oprimidos não entram em conflito apenas com os opressores mas também entre si. Não deixa de ser um reflexo da real situação da luta de classes atualmente, certo? 

Pois bem, o mesmo se repete em O Poço. É sintomático que esse filme vá muito bem na constatação de que desigualdade e luta de classes existem, mas se perca justamente quando seria o momento de apresentar a alternativa, ou ainda, como aquele mundo poderia ser revolucionado (ou começar a ser revolucionado, pelo menos). Por isso, acho que O Poço é um filme que vale muito a pena ser visto até levando em conta os seus defeitos.


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

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