Áudio de Flávio com banqueiro preso amplia pressão por CPMI do Caso Master
Revelação de pedido de R$ 134 milhões a Daniel Vorcaro aprofunda crise da família Bolsonaro, impulsiona cobrança pela instalação da CPMI e leva deputadas do PSOL a pedirem investigação e prisão preventiva do senador
Foto: Beto Barata/Agência Senado
A divulgação do áudio em que o senador Flávio Bolsonaro cobra do banqueiro Daniel Vorcaro o repasse de R$ 134 milhões para financiar um filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro provocou uma nova explosão política em Brasília e recolocou no centro do debate a instalação imediata da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do Banco Master.
O caso, revelado pelo portal Intercept Brasil e confirmado por outros veículos de imprensa, expôs contradições nas declarações públicas do senador, que vinha tentando minimizar sua relação com Vorcaro – preso pela Polícia Federal sob acusação de comandar um esquema bilionário de fraudes financeiras que pode alcançar R$ 12 bilhões, segundo investigadores. A revelação do telefonema também atingiu diretamente o entorno político do bolsonarismo e lançou suspeitas sobre a estrutura de financiamento político da extrema direita brasileira.
No áudio enviado a Vorcaro em setembro de 2025, Flávio Bolsonaro chama o banqueiro de “irmão” e cobra rapidez na liberação dos recursos. Em tom de intimidade, afirma que “os irmãozinhos não podem vacilar”, frase posteriormente citada em plenário pela deputada federal Fernanda Melchionna (PSOL-RS). A gravação desmonta a narrativa sustentada anteriormente pelo senador de que não possuía vínculos relevantes com o empresário.
Segundo as denúncias divulgadas até agora, parte dos recursos teria sido destinada à produção de um filme biográfico sobre Jair Bolsonaro. Parlamentares da base governista e da esquerda afirmam, porém, que o projeto audiovisual funcionaria, na prática, como uma engrenagem de propaganda eleitoral antecipada para reorganizar politicamente o bolsonarismo após os desgastes provocados pelas investigações golpistas e pelos escândalos financeiros envolvendo aliados do ex-presidente.
A crise também alcançou o senador Ciro Nogueira, apontado nos bastidores como possível candidato a vice em uma futura chapa apoiada por Flávio Bolsonaro. O nome do dirigente do Progressistas passou a circular no contexto das articulações relacionadas ao escândalo, aprofundando o desgaste político do campo bolsonarista no Congresso.
Sâmia pede preventiva
Diante da repercussão, a deputada federal Sâmia Bomfim (PSOL-SP) acionou o Supremo Tribunal Federal pedindo a prisão preventiva de Flávio Bolsonaro, além da quebra de sigilo e da investigação completa das relações do senador com o Banco Master e Daniel Vorcaro.
“Acabei de acionar o STF para prisão preventiva de Flávio Bolsonaro, bem como a quebra de sigilo e investigação de toda sua relação com o caso Master. A familícia está afundada em fraudes, corrupções e bandidagens!”, declarou a parlamentar.
O pedido elevou ainda mais a temperatura política em Brasília e consolidou o Caso Master como uma das maiores crises recentes envolvendo o núcleo bolsonarista. Nas redes sociais, cresceram as cobranças por investigação ampla, responsabilização criminal e instalação imediata da CPMI.
A principal voz na pressão pela comissão tem sido a deputada Fernanda Melchionna, que articulou ao lado de Heloísa Helena a coleta das assinaturas necessárias para criar o colegiado. O requerimento protocolado em fevereiro reuniu 280 assinaturas – 238 deputados e 42 senadores – número muito acima do mínimo exigido pelo regimento do Congresso Nacional.
Mesmo assim, o presidente do Congresso, Davi Alcolumbre, ainda não leu oficialmente o pedido em sessão conjunta, impedindo a instalação formal da comissão. A decisão provocou acusações de manobra política e “acordão” entre setores do Centrão, oposição bolsonarista e parte do Congresso.
Em discurso contundente no plenário, Melchionna afirmou:
“Maracutaia! Não tem outro nome. Imaginem vocês um filme meio nebuloso de empresas duvidosas, três vezes mais caro que ‘O Agente Secreto’. R$ 134 milhões negociados, porque os irmãozinhos não podem vacilar. Quem são os irmãozinhos? Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro.”
A parlamentar também associou o caso à tentativa de reorganização eleitoral da extrema direita.
“Esse dinheiro, em dólares, US$ 4 milhões, metade foi pago para financiar o tal desse filme que, vamos combinar, está muito mais com o cheiro de campanha eleitoral do Bolsonaro Filho”, afirmou.
Na mesma fala, a deputada pressionou diretamente Alcolumbre pela instalação imediata da comissão:
“É hora de instalar nossa CPMI, deputada Heloísa Helena. Foram meses coletando a assinatura, desde novembro, eu e a senhora. Questão de ordem aqui ao senador Davi Alcolumbre, presidente do Congresso Nacional: não cabe a ele escolher ou não. O Artigo 21 é claro: tem que ser instalada.”
Melchionna ainda afirmou que o objetivo da investigação é expor as relações entre o sistema financeiro e a extrema direita brasileira:
“Nós vamos enfrentar, vamos lutar porque nós queremos investigar, doa a quem doer. Quem é podre que se quebre e nós sabemos que essa extrema direita é muito podre.”
Alcolumbre e o ‘acordão’
A resistência de Alcolumbre em instalar a CPMI tem sido alvo de críticas de parlamentares governistas e da oposição. Segundo deputados da base, houve um acordo político para evitar o avanço da investigação em troca da derrubada de vetos relacionados à chamada “lei da dosimetria”, projeto que pode beneficiar investigados e condenados pelos atos golpistas de 8 de janeiro. O deputado Helder Salomão (PT-ES) acusou diretamente a existência de um pacto para enterrar as investigações.
“Nós queremos, sim, a instalação da CPMI do Banco Master. Agora, eles fizeram um grande acordão para derrubar o Messias, para aprovar a dosimetria e, acima de tudo, para enterrar a CPMI do Banco Master”, declarou.
Mesmo sob pressão, Flávio Bolsonaro tenta inverter a narrativa e passou a defender publicamente a própria instalação da CPMI. O movimento é visto por adversários como uma tentativa de antecipar danos políticos e tentar controlar os rumos da investigação.
Enquanto isso, o Caso Master amplia o desgaste da família Bolsonaro num momento em que o ex-presidente já enfrenta múltiplas investigações relacionadas à tentativa de golpe de Estado, à disseminação de desinformação e ao uso político de estruturas empresariais e financeiras.
A possível abertura da CPMI ameaça transformar o Congresso Nacional num novo palco de exposição das conexões entre operadores financeiros, empresários e dirigentes da extrema direita brasileira – justamente no momento em que o bolsonarismo tenta reorganizar sua estratégia eleitoral para 2026.