Petro vence primeira batalha, mas a guerra continua
Foto: campanha Gustavo Petro.

Petro vence primeira batalha, mas a guerra continua

Gustavo Petro e Francia Marquez vencem a primeira etapa das eleições e avançam ao segundo turno. A vitória da coalização Petro-Francia pode abrir um caminho para liquidar o regime político mais reacionário do continente.

Israel Dutra 30 maio 2022, 20:34

A Colômbia realizou neste final de semana a primeira parte da eleição mais importante de sua recente história. No domingo, dia 29 de maio, os colombianos foram às urnas para definir quem será o novo presidente do país. Petro venceu a primeira etapa da eleição: passou com 40,3% para o segundo turno, onde disputará com Rodolfo Hernandez, que teve 28% dos votos.

A campanha está polarizada, com uma luta aberta, uma verdadeira guerra suja. A tal ponto que a campanha chegou a ser interrompida no começo de maio, após ameaças de morte a Gustavo Petro. A partir da retomada dos comícios, não foram poucas concentrações de público em que Petro e Francia utilizaram escudos policiais no palco para se proteger.

A alegria que tomou conta das ruas das cidades da Colômbia, na maior votação de uma candidatura de esquerda da história do país, contabilizando tantos milhões de votos, contrasta com a apreensão acerca da nova etapa que começa.

Estamos acompanhando a luta na Colômbia com muita atenção há bastante tempo. O avanço da campanha de Petro, a participação da Colombia nas revoltas latino-americanas, e os dilemas que o país já apontava em sua essência. A repressão intensa do governo Duque, uma marca dos últimos anos, teve sua resposta nas ruas e nas urnas: o urubismo foi derrotado nessa eleição. Uma das principais características do primeiro turno é exatamente essa: a derrota do setor uribista, com o voto pela mudança e a preparação para uma luta duríssima no segundo turno. 

Os resultados do primeiro turno

Foi a eleição mais polarizada da história colombiana. Os resultados do primeiro turno evidenciam isso. Petro ficou com 40,03% e disputará, como já dito anteriormente, com o “azarão” Rodolfo Hernandez, ex-prefeito de Bucaramanga. Ficou para trás o candidato do uribismo, Frederico Guterrez, que teve 23,91% dos votos.

O candidato do “centro”, Sergio Fajardo, apoiado por grupos provenientes do maoísmo como MOIR, teve 4,20%.

O voto principal foi pela mudança – depois de vinte anos do uribismo dominando a política colombiana, o povo rechaçou e exigiu profundas transformações.

Houveram acusações de fraude. No dia da eleição, Petro denunciou que as urnas não foram apuradas suficientemente. Em nota divulgada em suas redes sociais, a chapa afirmou que foi impedida de uma auditoria das urnas, e por isso a verificação feita pelos órgãos locais era insuficiente, sem ampla participação das chapas. A situação não é nova: nas eleições parlamentares de março, Gustavo denunciou que cerca de quatrocentos mil votos da esquerda não foram contabilizados. Ainda assim, a chapa obteve um aumento de três assentos no Parlamento, chegando a 45, passando a ser a maior força política, empatada com os liberais.

Outra marca da importância dessa eleição é o ciclo geral de eleições pelas quais o mundo passa esse ano – com os olhos do mundo virados para América Latina. Outras eleições expressam a polarização social da segunda metade do século, mas os processos de estalidos do Chile, Bolívia, Peru, Argentina, e agora Colômbia, trouxeram resultados à esquerda nas eleições. O próximo será o Brasil. O que está colocado como essencial na avaliação preliminar do resultado do primeiro turno: a eleição de 2022, que já é a mais polarizada da história da Colômbia, tende a se polarizar ainda mais no segundo turno.

A eleição: entre o signo da revolta e de um giro ainda mais reacionário

Depois de quase 20 anos de regimes com traços autoritários, o último, seguramente, o mais atrasado da região, a Colômbia conheceu um levante popular histórico, há exatamente um ano. Depois das explosões de Equador e Chile em 2019 – que resultou em séria derrota para a direita, nas eleições constituintes -, da resistência ao golpe no Peru em 2020, e do levante paraguaio em março de 2020 – contra a incompetência governamental no trato com a saúde – em 2021 foi a vez da Colômbia. Um processo inédito. O “Paro Nacional” colombiano de 28-29 de abril de 2021 fez retroceder a reforma tributária no país. A mobilização chegou a derrubar o ministro da Economia.

O apoio de Petro às mobilizações – senador colombiano à época – foi determinante para a formação do Pacto Histórico. Sua denúncia constante das reformas de Duque, que atacavam diretamente à sobrevivência do povo colombiano – seja pelas altas dos preços, seja pela forma como lidou com a pandemia – aproximou diversos setores afastados da política ao Pacto. O número de votos de jovens cresceu, e a participação de pessoas de 18 a 24 anos nessa eleição atingiu um número histórico. Ainda que tenha vencido nas mesmas regiões – Atlántico, Cauca, Chocó, Córdoba, La Guajira, Nariño, Putumayo, Sucre e Vaupés foram as áreas do país onde Gustavo Petro venceu no primeiro turno das eleições presidenciais de 2018, as mesmas regiões onde ele obteve a maioria dos votos no último domingo – os quase nove milhões de votos que Petro conquistou expressam a melhor performance eleitoral dos movimentos sociais e da esquerda. Se pode afirmar que tal patamar, explicado pela polarização intensa- que é internacional-  só foi possível graças ao levante de 2021, ao fim da política guerrilheira que hegemonizou a ação de massas por longos anos, tendo as FARC como sua direção e o cenário regional que colocou desde 2019 as massas em ação. 

Como o regime colombiano é alicerçado no peso no imperialismo estadunidense, presente de forma ostensiva desde o final dos 80, sob a justificativa da Guerra às Drogas, para derrotar tais pilares é preciso ir além de derrotar o uribismo.  É preciso desmontar o regime e seu aparelho de repressão, responsável pela violência política e pelo terrorismo de Estado que marcam o período de Uribe e seus sucessores.

Como a burguesia não entregará facilmente seus privilégios, recorreram à uma das suas últimas cartadas: a figura populista de Rodolfo Hernandez, angariando a confusão e bronca com o regime, com seu discurso anticorrupção e sua forma histriônica que lembra líderes da extrema-direita mundial como Trump e outros. Não por acaso, o nome de sua fórmula era “Liga de combate à corrupção”. Não sendo a opção preferencial da burguesia, sobretudo a de Medellin, entrincheirada na candidatura de Fico, Rodolfo passa ao segundo turno com a missão de impedir a vitória eleitoral de Petro e Francia. 

O peso das Forças Armadas e dos setores mais reacionários não pode ser descartado. Todas as suas armas serão utilizadas na guerra suja que se acelera: fakenews, violência política, ameaças às lideranças. A estratégia de choque da direita colombiana será organizar os setores mais reacionários que se assustaram com o levante popular e o empoderamento dos oprimidos da cidade e do campo e desferir algum tipo de golpe que leve a um governo mais reacionário e preserve os aspectos mais atrasados do regime uribista. 

Francia Marquez, uma novidade ‘desde abajo’

Francia é uma militante ambiental e ativista antirracista. É a primeira vez que uma mulher negra concorre a vice na Colômbia, tornando-se também a primeira vez que o debate sobre racismo está tão em voga. A ativista, que também concorreu às primárias, se uniu a Petro após acabar em segundo lugar.

Francia vem de uma área com forte interesse extrativista, a cidade de Suárez, e sua participação também traz à tona a “lucha dos Nadies”, os ninguéns da Colômbia. Seu grupo “Soy porque somos”, busca inspiração nos processos de negritude brasileira, fazendo menção à Marielle Franco e outras militantes negras brasileiras.

A votação nas prévias, chegando perto de 1 milhão de votos, surpreendeu e gerou um importante engajamento: sem dúvidas, Francia Marquez faz uma campanha em movimento. 

Parte de seu programa está diretamente ligado as demandas do levante de 2021, como vale lembrar que foi escrito à época pela senadora Piedad Cordoba.

“A rebelião social generalizada contra esta crise também se rebela contra as formas tradicionais de fazer política na Colômbia, mas não contra a política. É uma rebelião política, de classe, geracional e étnica, expressa nos principais pontos de resistência. Por isso, o desafio histórico que temos nas mãos é fazer com que a greve passe de subversão a Poder. pare de governar No entanto, não vejo que isso seja possível sem transformar fundamentalmente muitas coisas, da mesma forma, tenho claro que as reivindicações da greve não se encaixam nos atuais canais institucionais, nem podem ser incluídas sem uma profunda renovação do chamado classe política e as mesmas instituições estatais.

Em 27 de julho, a Comissão Nacional do Desemprego, com o apoio da bancada da oposição, apresentou dez projetos de lei no Congresso para tramitar na última legislatura do mandato. Do pacote legislativo proposto por um setor dos manifestantes, destacam-se a Lei de Renda Básica, a Reforma Policial, o Estatuto de Garantias do Direito de Protesto, a Lei de Matrícula Zero, a Lei de Reativação Econômica de PMEs e Geração de Emprego. Cada uma dessas normas representaria passos muito importantes para a democratização integral do país, que merece um amplo debate nacional. A partir de agora ofereço esta coluna para aprofundar os projetos criados pela mobilização popular, bem como os que ainda faltam[1].”

A esquerda socialista e o “processo colombiano” : os próximos quinze dias que valem por anos

Não há dúvidas: o segundo turno será difícil. E é justamente por isso que o papel da esquerda socialista agora é rodear de solidariedade o segundo turno colombiano. A denúncia das possíveis fraudes do processo precisa rodar o mundo, assim como o projeto de governo de Rodolfo, aliado ao neoliberalismo mundial, que “resolve” as demandas da população com isenções para os ricos e arrocho para os pobres. 

A tarefa primeira é cercar de solidariedade o processo. A coalizão Petro-Francia deve buscar os votos nulos e consolidar um amplo movimento de massas capaz de deter a ofensiva da guerra suja da extrema-direita e garantir a maioria social nas urnas. 

Se deve destacar os aspectos programáticos mais avançados e com audiência nas camadas populares como romper a aliança entre o crime organizado, a casta estatal e os paramilitares e milicianos de toda ordem; mudar a matriz energética, interrompendo a mineração e a exploração das riquezas naturais do país, dando peso para uma reforma agrária e um outro modelo de país; condenando os modelos autoritários como Bolsonaro, mas sem deixar de denunciar a ditadura de Ortega na Nicarágua. 

Uma vitória seria abrir um caminho para liquidar o regime mais reacionário do continente; seria um recado aos povos do mundo de que é possível lutar e conquistar, e sobretudo, uma recado para a extrema-direita, Jair Bolsonaro, Elon Musk e seus asseclas: “vocês serão derrotados”. 

O PSOL precisa ser parte desse processo. No primeiro turno, uma delegação do partido viajou para o país. O mesmo deve acontecer no segundo. Porque, nas palavras do próprio Gustavo Petro, nós já ganhamos duas vezes: nas primárias de 13 de março e no primeiro turno de 29 de maio. Vamos lutar até 19 de junho.


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

   

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