Federação com o PT, o papel do ministro Guilherme Boulos e o futuro estratégico do PSOL 
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Federação com o PT, o papel do ministro Guilherme Boulos e o futuro estratégico do PSOL 

Entre a unidade contra a extrema direita e o risco de subordinação estratégica ao PT, o PSOL enfrenta um debate decisivo sobre seu futuro e o lugar ocupado por Guilherme Boulos

Secretariado Nacional do MES 17 fev 2026, 15:23

Foto: Reprodução

O PSOL vive um momento muito importante, que pode ser determinante para o futuro do partido. Há dois processos em curso que deram um salto, ganharam outro patamar no ano que se inicia: o debate sobre a federação do PSOL com o PT e a possibilidade cada vez mais visível da saída do atual ministro Guilherme Boulos do partido. 

O primeiro expõe uma encruzilhada profunda: independência de classe ou dissolução no campo da conciliação e integração completa do partido no regime político. A proposta de federação apresentada pelo PT para o PSOL a ser concretizada em 2026 tem sido defendida no PSOL apenas pela Revolução Solidária, setor do partido liderado por Guilherme Boulos. Felizmente, todas as tendências políticas do PSOL, entre as quais a Primavera e a Resistência, aliadas de Boulos e integrantes do chamado PTL, campo que tem sustentado a liderança de Boulos no partido, discordam da proposta da federação e se mostram firmes em manter o PSOL independente. Até parcelas da Revolução Solidária não se sentem confortáveis com a política do ministro. Assim, as chances de essa proposta ser aprovada são mínimas. Caso seja aprovada, significaria, a médio prazo, o fim do PSOL ou sua transformação num pequeno satélite do PT, o que praticamente significa a mesma coisa. É o que vamos demonstrar neste texto.

É essencial que a militância compreenda a dimensão do que está colocado. O PSOL é hoje um instrumento político necessário em um cenário de avanço da extrema direita e de esgotamento das fórmulas tradicionais da centro-esquerda. Defender sua existência com independência não é um detalhe organizativo, é uma tarefa histórica.

A federação, nesse sentido, é apenas a expressão institucional de um debate mais profundo: queremos um partido com independência de classe e estratégia socialista ou aceitaremos ser absorvidos pelo projeto de centro esquerda que governa nos marcos do capitalismo brasileiro?

Federação não é unidade, é subordinação estratégica

Compor uma federação partidária não é o mesmo que participar de uma frente eleitoral. Não se trata de uma aliança tática para enfrentar um pleito específico. A federação implica constituição de uma estrutura comum por vários anos, com programa unificado, direção compartilhada e disciplina política obrigatória.

Na prática, isso significaria abrir mão da autonomia estratégica que permite ao PSOL afirmar diferenças diante de um partido que governa dentro da lógica da conciliação com o grande capital, com o agronegócio e com o sistema financeiro.

O PSOL nasceu justamente da crítica a essa lógica. A tradição socialista — de Marx, Rosa Luxemburgo, Gramsci — sempre defendeu que a classe trabalhadora precisa de organizações políticas independentes para disputar hegemonia e apresentar um projeto próprio de sociedade. Quando essa autonomia é abandonada, o risco é claro: a esquerda deixa de tensionar os limites do sistema e passa a administrá-lo.

A história mostra que governos de colaboração de classes podem promover avanços pontuais, mas não enfrentam o núcleo estruturante da desigualdade. Os ganhos são precários e se perdem no primeiro cenário de crise econômica. E quando as expectativas criadas não encontram respostas consistentes, cresce a frustração popular. É nesse terreno que a extrema direita se reorganiza e avança.

O cenário brasileiro demonstra isso claramente. As demandas surgidas nas mobilização de junho de 2013 – transporte decente, saúde, educação, combate à corrupção – não tiveram uma resposta do então governo Dilma. O resultado foi a captura da insatisfação pela extrema direita, o impeachment e a vitória de Bolsonaro nas eleições de 2018.

Unidade contra a extrema direita é necessária. Subordinação estratégica, não.

As lições da ascensão do nazismo mostraram a necessidade da frente única entre os comunistas e a social-democracia. Leon Trotsky denunciou a linha de Stálin por se recusar a defender a unidade ao adotar a orientação que denunciava a social-democracia como social-fascismo. Apesar da social-democracia sustentar o regime político alemão e, inclusive, aplicar e apoiar muitos planos de ajuste levados adiante pelos governos da República de Weimar, Trotsky insistia na necessidade de um chamado à unidade contra o fascismo. Trotsky, porém, nunca aceitou a diluição e a ausência de críticas. E justamente essa posição acritica que tem marcado o PSOL nos últimos anos. 

De 2018 até hoje, fortaleceu-se no PSOL uma orientação que defende a adaptação estratégica ao PT e ao lulismo. Guilherme Boulos se tornou a principal referência dessa linha. Mas, felizmente, tal orientação nunca deixou de ter resistência interna. Por isso mesmo, a bancada votou contra o arcabouço fiscal, por exemplo.

Mas Boulos quer agora dobrar a aposta. Não se trata apenas de diver retóricas. Sua orientação se expressou em decisões políticas concretas. Apesar de o partido ter deliberado que não participaria formalmente do governo, Boulos aceitou assumir um ministério. Também abriu mão de concorrer a deputado e a ajudar o PSOL na batalha contra a cláusula de barreira. Isso tudo sem nenhum debate no interior do partido. Neste caso, aliás, não se trata do abandono de pretensões eleitorais. Ao contrário. Não ser candidato a deputado foi condição do acordo para que assumisse o ministério com seus cargos de confiança e proximidade com Lula. Assim, acredita ter mais chances de se tornar o herdeiro do presidente. Ocorre que tal busca de atalhos nunca poderá ser bem-sucedida porque falta a Boulos o trabalho de base, a força da classe trabalhadora que fez de Lula a liderança que é. Líderes não se improvisam, e atalhos, nesse caso, não levam a bons caminhos. 

Tanto é assim que Boulos já assumiu posicionamentos que entram em choque com lutas históricas dos movimentos indígenas e ecossocialistas, como no caso dos povos do Baixo Tapajós e das mobilizações contra o decreto 12.600/2025, de privatização dos rios Madeira, Tocantins e Tapajós, nas quais prevaleceu uma postura de conciliação com grandes corporações em vez da defesa das posições do próprio partido. Fato que culminou na combativa e legítima ocupação do terminal da Cargill por parte do movimento indígena.

Além disso, esse setor passou a sustentar que a defesa de um programa anticapitalista seria incompatível com a luta por melhorias imediatas. Essa oposição é artificial. A tradição socialista sempre combinou a luta por reformas concretas com a construção de um horizonte de transformação estrutural. Ainda no início do século XX, Rosa Luxemburgo travou esse debate no interior do partido da social-democracia alemã, enfrentando Eduard Bernstein com seu brilhante texto “Reforma ou Revolução?”. Rosa e sua política revolucionária acabaram derrotadas no interior do partido, e o resultado foi a ascensão do nazismo. Essa experiência histórica é analisada com maior profundidade por Luciana Genro no livro A Alemanha da Revolução ao Nazismo – Reflexões para a atualidade (Ed. Movimento, 2024).

A experiência internacional contemporânea também oferece alertas importantes. A social-democracia europeia, ao abandonar a perspectiva socialista, tornou-se gestora do neoliberalismo e perdeu parte expressiva de sua base social, abrindo caminho para o crescimento de alternativas neofascistas. O Syriza, na Grécia, ao se submeter às imposições do capital financeiro internacional, aplicou políticas de austeridade que contradiziam seu programa original e abriu espaço para o fortalecimento da direita. No Brasil, o lulismo ampliou políticas sociais relevantes, mas não enfrentou os fundamentos da estrutura de poder do capital — e o vazio deixado por essa limitação foi ocupado pelo bolsonarismo.

Sem um polo político independente da classe trabalhadora, a política tende a se reduzir à gestão do possível. E a frustração que decorre dessa limitação é terreno fértil para projetos autoritários.

As consequências práticas da federação

Uma federação teria impactos imediatos. O PSOL passaria a estar vinculado a alianças e candidaturas que contradizem nossa identidade política, inviabilizando sua afirmação como alternativa de esquerda consequente. A federação teria consequências políticas nefastas.

1) Aliança com Eduardo Paes no Rio de Janeiro

O PT apoia Eduardo Paes (PSD) no Rio, um político ligado ao grande empresariado, às empreiteiras, à lógica das PPPs e da privatização de serviços urbanos.

Paes representa um modelo de gestão neoliberal urbano, com forte relação com o mercado imobiliário e políticas de remoção e gentrificação — exatamente o oposto da tradição do PSOL no Rio que sempre se colocou ao lado das favelas, dos movimentos de moradia e contra a privatização da cidade.

Em uma federação, o PSOL seria obrigado a estar formalmente associado a esse projeto.

2) Alianças com o centrão no Congresso: Pacheco, Lira, Alcolumbre, Hugo motta e companhia

O PT governa hoje em aliança com Alcolumbre (União Brasil) no Senado e já governou com Arthur Lira (PP) na Câmara.

Esses são representantes clássicos do centrão fisiológico, com vínculos com oligarquias regionais, grandes empresários, latifundiários e, em vários casos, com agendas conservadoras nos costumes e na economia.

Para o PSOL, que nasceu combatendo o centrão e o presidencialismo de coalizão, essa aliança é estruturalmente contraditória.

3) Alianças com partidos conservadores nos Estados

O PT hoje governa e faz alianças com partidos como:

MDB (oligarquias regionais, agronegócio, caciques políticos)

PSD (base empresarial e municipalista conservadora)

PP e Republicanos (base bolsonarista em vários estados)

Em vários estados, o PT compõe com setores ligados ao agronegócio predatório, mineração e privatizações, inclusive com histórico de conflito com povos indígenas e quilombolas.

Quando existe uma federação, diante de divergências, é o partido maior que impõe sua orientação. A federação transformaria o PSOL num puxadinho real e oficial do PT.

Diante dessas questões, nossa expectativa é que a direção do partido rejeite a federação. Tal recusa mostrará o enorme vigor do PSOL. Será uma vitória da unidade do partido. Boulos e seu setor serão a exceção. Como liderança que entrou no partido apenas em 2018, Boulos, desde que entrou, moveu-se por projetos individuais ou de seu próprio grupo. Sempre se recusou à construção coletiva das instâncias do PSOL. Como dissemos, o salto de qualidade foi sua entrada no ministério, que teve como contrapartida, ao que tudo indica, sua filiação ao PT no curto ou médio prazo. Assim que não será nenhuma supresa para nós, que temos indicado essa dinâmica desde o início do governo.

Unidade para enfrentar a extrema direita, sim. Mas com projeto próprio

O PSOL deve atuar pela unidade na luta contra a extrema direita. A convocação da I Conferência Antifascista em Porto Alegre, feita em conjunto com PT, PCdoB, sindicatos e organizações populares como o MST é um exemplo de como construir a unidade na prática. Mas, dentro dessa unidade, é preciso existir um polo de esquerda com independência de classe, capaz de apresentar um programa de transição que dialogue com as necessidades do povo e aponte para uma estratégia de mobilização e de enfrentamento ao capital.

Sem um projeto próprio, governos de conciliação seguirão produzindo expectativas que não conseguem cumprir integralmente — e a extrema direita continuará explorando esse descompasso.

Defender o PSOL hoje é defender a existência de uma esquerda anticapitalista enraizada nas lutas populares.

Este debate vai além da federação. Ele diz respeito ao futuro de um instrumento político construído com enorme esforço militante e que, diante do cenário atual, é mais necessário do que nunca.


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