Feminicídio e “red pill”: a organização da misoginia na barbárie do capital
O Brasil continua sendo um país perigoso para as mulheres. Todos os dias, mulheres são assassinadas, inclusive dentro de suas próprias casas, por homens que se julgam donos de suas vidas, seus corpos e suas escolhas
O feminicídio e a violência contra as mulheres não são fenômenos novos, mas tornaram-se mais notórios com a repercussão dos inumeros casos recentes que chamaram a tenção por sua brutalidade. Buscamos aqui refletir, para além da comoção do momento, sobre porque os diversos índices de violência contra a mulher estão alarmantes.
O Brasil continua sendo um país perigoso para as mulheres. Todos os dias, mulheres são assassinadas, inclusive dentro de suas próprias casas, por homens que se julgam donos de suas vidas, seus corpos e suas escolhas. Longe de ser uma tragédia isolada, o feminicídio é a expressão mais brutal de uma sociedade marcada pelo patriarcado e pela desigualdade de gênero. Em um contexto de avanço da extrema-direita, de discursos antifeministas e de banalização da violência, esses crimes revelam também uma disputa política profunda sobre o lugar das mulheres na sociedade.
Em 2025, o país registrou 1.568 feminicídios, o maior número desta década. Isso significa que quase quatro mulheres são assassinadas por dia simplesmente por serem mulheres. Quando se soma com as tentativas de feminicídio, o número de vítimas ultrapassa 6.900 casos no ano, evidenciando a dimensão estrutural da violência de gênero no país. Esses números revelam a permanência de uma estrutura social marcada pela desigualdade e pela naturalização da violência contra as mulheres.
O perfil das vítimas também evidencia o caráter estrutural desse fenômeno. No Brasil, mais de 60% das vítimas de feminicídio são mulheres negras, o que revela como racismo, desigualdade social e patriarcado operam de forma combinada. A maioria dos crimes ocorre dentro de casa e é cometida por parceiros ou ex-parceiros. Ou seja, o espaço que deveria representar proteção é para milhares de mulheres um dos lugares mais perigosos.
A extrema-direita como organizadora da misoginia
O avanço da extrema-direita favorece um ambiente político que contribui para normalizar discursos que reforçam hierarquias de gênero e legitimam a ideia de que os homens devem exercer controle sobre as mulheres. No Brasil, esse setor tem se consolidado com o bolsonarismo. Nos últimos anos, isso ficou cada vez mais visível nas redes sociais. Comunidades masculinistas organizadas em fóruns, plataformas de vídeo e grupos online passaram a difundir discursos antifeministas e misóginos, frequentemente associados à ideologia conhecida como “Red Pill”.
Esses grupos propagam a ideia de que os homens estariam vivendo uma suposta “crise da masculinidade”, causada pelo avanço do feminismo e pela maior autonomia das mulheres. A narrativa construída nesses espaços apresenta os homens como vítimas de um sistema que, segundo essa perspectiva, favoreceria as mulheres.
Essas comunidades funcionam também como espaços de recrutamento e radicalização. Homens jovens ingressam nesses ambientes e passam a consumir conteúdos cada vez mais violentos, que naturalizam a misoginia e culpabilizam mulheres pela violência que sofrem.
O crescimento desse discurso não pode ser separado do contexto político mais amplo, no qual a extrema-direita internacional tem se apropriado do antifeminismo como parte de seu projeto de poder, mobilizando através do medo da perda de privilégios masculinos e transformando o feminismo em inimigo político. Por isso não tratamos aqui o feminicídio apenas como um problema de segurança pública, pois ele é consequência de um projeto político que disputa a consciência de forma reacionária.
Neoliberalismo e extrema-direita: o pacto contra a vida das mulheres
Contudo, outro elemento fundamental para compreender a escalada da misoginia reside no descaso histórico com as políticas de enfrentamento à violência contra as mulheres. No Brasil, a Lei Maria da Penha constitui uma conquista histórica, ao tipificar diversas formas de violência e prever ações de prevenção, além da articulação de uma rede ampla de atendimento às vítimas. Entretanto, não foram asseguradas as condições políticas e orçamentárias necessárias para a sua efetiva implementação.
O recente pacto “Todos por todas” lançado por Lula é uma iniciativa salutar por envolver os três poderes e a sociedade no combate a violência e ao feminicídio, mas ainda muito aquém no que diz respeito à destinação orçamentária de recursos e capacidade de execução de políticas públicas capazes de fortalecer o trabalho preventivo e de acolhimento imediato.
É nesta seara econômica, em que a suposta necessidade de reduzir o orçamento público para políticas sociais, inclusive as de combate a violência contra a mulher, que o neoliberalismo ( mesmo quando trajado com algum progressismo) e a extrema-direita parecem dar as mãos.
A violência como ferramenta da reprodução social
A violência de gênero não pode ser compreendida apenas como resultado de conflitos individuais ou restrita ao âmbito das relações privadas. Ela se articula à própria forma de organização da sociedade capitalista, que depende de uma divisão sexual do trabalho na qual as mulheres são historicamente responsabilizadas pela reprodução social e pelo cuidado com a força de trabalho. Nesse sentido, o patriarcado e a divisão sexual do trabalho não se reduzem a meras expressões de uma cultura machista, mas constituem dimensões estruturais das relações de poder que atravessam a política, a economia e a vida cotidiana, garantindo a reprodução do capital.
Isto porque o capitalismo é, sobretudo, um sistema que depende das opressões como as de gênero, raça e classe, entre outras, para estabelecer quem são aqueles e aquelas que ocuparão os piores empregos, receberão salários mais baixos e desempenharão determinadas funções sociais desvalorizadas. Nesse contexto, as mulheres são historicamente responsabilizadas pelo cuidado da casa, dos filhos, da alimentação e dos enfermos, além de assumirem, muitas vezes, o trabalho afetivo: acolhem, consolam e sustentam emocionalmente parceiros, filhos e demais familiares em situações de insegurança ou conflito.
Este trabalho não remunerado é central para a reprodução da força de trabalho, pois possibilita que aqueles que vivem do trabalho recomponham suas condições físicas e emocionais para um novo ciclo de produção, garantindo, assim, a continuidade da acumulação capitalista.
A crise do cuidado, definida por Nancy Fraser como uma contradição estrutural do capitalismo, manifesta-se em condições de trabalho exaustivas, como a escala 6×1, que reduzem o tempo disponível para a reprodução da vida. Nesse cenário, o sistema depende do cuidado, mas mina suas condições de realização, intensificando a sobrecarga e a precarização, sobretudo para as mulheres
Essa contradição criada pelo Capitalismo é insolúvel dentro da sua lógica econômica de busca incessante por lucro e acumulação. Dessa forma o Capital continua sem poder prescindir do trabalho não pago das mulheres ao mesmo tempo que, usando mais vez Nancy Fraser, canibaliza a própria reprodução social explorando com cada vez mais voracidade o trabalho produtivo dessas mesmas mulheres e pressionando a privatização e destruição dos serviços públicos como a Saúde Pública (SUS) e a Assistência Social Pública (SUAS).
Nesse contexto, a ideologia conservadora cumpre uma função fundamental para o capital, pois, ao mesmo tempo em que oculta a crescente exploração das mulheres no mundo do trabalho, reforça a hierarquia de gênero. Dessa forma, o ideal do “bela, recatada e do lar” configura-se como um projeto político baseado na premissa do homem como provedor material e da mulher como sustentáculo da vida familiar, supostamente dotada de habilidades naturais para os serviços domésticos e o cuidado com os familiares. Nesse sentido, a violência opera como um instrumento de imposição da divisão sexual do trabalho e de manutenção da subordinação das mulheres aos maridos e a outros homens da família.
A misoginia que corre nas veias do capitalismo encontra na extrema-direita agentes para torná-la cada vez mais pública, seja pelas redes sociais, por meio de influenciadores, seja como prática política de seus representantes. Esses discursos certamente funcionam como combustível para que o ódio se materialize em violência no cotidiano.
Nem uma a menos!
Diante do avanço da violência, da exploração e da ofensiva fascista, não há apenas recuo, há também resistência. Enquanto a extrema-direita tenta difundir ideologias reacionárias, como a chamada “red pill”, que naturalizam a dominação masculina e organizam o ódio contra as mulheres, afirmamos uma “purple pill”: uma consciência feminista que desvela essas relações de poder, rompe com a submissão e se constrói na luta coletiva.
A recente onda feminista, marcada pelas lutas contra o assédio, pelo fim do feminicídio e pelos direitos reprodutivos, em especial a legalização do aborto, e pela resistência à extrema-direita, levou milhares de mulheres às ruas em todo o mundo. Trata-se de um cenário que certamente desagrada aqueles que preferem vender ilusões enquanto sustentam uma realidade adversa à classe trabalhadora.
Nesse processo, mulheres passam a questionar os papéis que lhes foram historicamente impostos, a violência naturalizada e seus próprios vínculos afetivos, rompendo com as estruturas que sustentam seus algozes. Em resposta, setores conservadores intensificam seus esforços para reorganizar os homens em torno de uma suposta volta ao passado, na qual a submissão feminina é naturalizada e a violência é justificada. É no terreno da luta de classes e da disputa ideológica que o feminismo se afirma como força capaz de enfrentar não apenas os efeitos, mas as raízes dessa violência.