Derrota de Orbán põe fim a 16 anos de hegemonia da extrema direita na Hungria
Vitória de partido de centro-direita, com participação recorde, encerra ciclo “iliberal” e impõe revés à articulação global ultraconservadora
Foto: PBS/Reprodução
A derrota de Viktor Orbán nas eleições parlamentares deste domingo (12) marca o fim de um ciclo de 16 anos de hegemonia da extrema direita no país e representa um revés significativo para esse campo político em escala global. A vitória do partido Tisza, de centro-direita, liderado por Péter Magyar, não configura uma solução automática para os problemas estruturais da Hungria, mas rompe com um modelo de poder altamente concentrado que se consolidou ao longo de mais de uma década.
Com 95,63% das urnas apuradas, o Tisza conquistou 137 das 199 cadeiras do Parlamento, garantindo uma supermaioria que permite, inclusive, alterações na Constituição. A votação foi marcada por participação recorde, com mais de 77% dos eleitores comparecendo às urnas — um indicativo de forte mobilização social diante do desgaste do governo.
Orbán reconheceu a derrota ainda na noite da eleição. “O resultado das eleições ainda não é definitivo, mas é compreensível e claro. O resultado é doloroso para nós”, afirmou. Em paralelo, Magyar relatou ter recebido um telefonema do premiê: “O primeiro-ministro Viktor Orbán acabou de ligar para nos felicitar pela nossa vitória”.
Ex-integrante do partido governista Fidesz, Magyar rompeu com o grupo em 2024 e construiu sua campanha explorando a insatisfação popular com a economia, o aumento do custo de vida e denúncias de corrupção. Embora conservador, ele prometeu desmontar “tijolo por tijolo” o sistema político estruturado por Orbán — um arranjo frequentemente descrito pelo próprio premiê como “democracia iliberal”.
Esse modelo foi alvo recorrente de críticas da União Europeia, que acusava o governo húngaro de enfraquecer instituições democráticas, restringir a liberdade de imprensa e comprometer a independência do Judiciário. A derrota, portanto, não apenas encerra um ciclo interno, mas também sinaliza uma inflexão nas relações do país com o bloco europeu.
A repercussão internacional foi imediata. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, declarou que “o coração da Europa bate mais forte na Hungria” e que o país “retoma seu caminho europeu”. O presidente francês Emmanuel Macron afirmou que a França celebra a “adesão do povo húngaro aos valores da União Europeia”.
O resultado também tem implicações geopolíticas relevantes. Orbán era um dos principais aliados do presidente russo Vladimir Putin dentro da União Europeia e mantinha proximidade com Donald Trump, que chegou a prometer apoio econômico à Hungria em caso de reeleição do aliado. Na semana anterior ao pleito, o vice-presidente dos EUA, J. D. Vance, participou de um comício ao lado de Orbán em Budapeste.
Ainda assim, o apoio internacional não foi suficiente para evitar a derrota — e, segundo análises políticas, pode ter contribuído para mobilizar o campo opositor. A mudança de governo pode destravar cerca de 90 bilhões de euros em recursos europeus e reduzir a influência russa dentro do bloco.
No Brasil, a derrota de Orbán reverbera diretamente. O premiê húngaro era uma referência central para o bolsonarismo e mantinha علاقة próxima com Jair Bolsonaro, a quem chamou de “meu irmão” em 2022. Em novembro do ano passado, declarou estar “firmemente ao lado dos Bolsonaros nestes tempos difíceis”. O resultado, portanto, é interpretado como um abalo na rede internacional da extrema direita.
Monitoramentos de redes e grupos de mensagens indicam que a derrota foi associada ao enfraquecimento dessa articulação global. Entre setores progressistas, ganhou força a leitura de que alta participação eleitoral pode superar estruturas políticas consolidadas. Já em grupos alinhados à extrema direita, circularam narrativas que atribuem o resultado a interferências externas, com mensagens como “A Organização Soros se apossou da Hungria”, numa tentativa de reinterpretar o revés.
Mesmo com a vitória de um partido de centro-direita, o resultado representa uma quebra importante na continuidade de um projeto político que servia de referência para setores ultraconservadores em diferentes países. Mais do que uma mudança de governo, trata-se de uma derrota simbólica e estratégica para a extrema direita internacional.