Irã, um novo capítulo na situação mundial: trégua intermitente e o isolamento crescente de Trump
Os desdobramentos da agressão imperialista ao Irã ainda estão começando
O desfecho da agressão imperialista no Irã ainda é imprevisível. Nesse exato momento se arrastam negociações, com ameaças mútuas sobre o controle do Estreito de Ormuz. Há uma trégua- provisória e precária- em curso. A ação genocida de Israel no Líbano provocou diversos crimes de guerra e milhares de mortos e feridos nos últimos dias. A negociação inclui um cessar-fogo, que Netanyahu tenta manobrar e evitar a todo custo.
Na noite de 7 de abril, por volta das 21h (horário de Brasília), foi anunciado um cessar-fogo — inicialmente previsto para duas semanas — entre Estados Unidos e Irã. Mediado pelo Paquistão, o acordo provisório foi firmado poucas horas após novas ameaças de Donald Trump. Em sua rede social, em tom ainda mais tresloucado que o habitual, Trump chegou a ameaçar destruir a civilização persa “em uma única noite”, em uma declaração que beira a apologia de crimes de guerra. A dita trégua, contudo, ainda é ameaçada pelo fato de que Israel ainda não aceitou retroceder na frente libanesa. E nos últimos dias e horas intensificou as atrocidades por todo Líbano, matando centenas de pessoas.
As reuniões iniciais sediadas no Paquistão, durante os dias 13 e 14, com presença de JD Vance e o do presidente do parlamento iraniano, acabaram sem acordo. Os dois pontos principais de discórdia dizem respeito ao direito do Irã de possuir arsenal nuclear e ao futuro da circulação marítima na região, especialmente ao regime de tráfego em Ormuz.
A repercussão foi imediata e ampla. No Irã, houve manifestações espontâneas de alívio e resistência. No plano internacional, líderes políticos e religiosos condenaram a escalada verbal de Trump, enquanto até setores tradicionalmente alinhados ao trumpismo passaram a tomar distância.
Ainda há um processo negociador inconcluso, com as negociações diretas entre Irã e Estados Unidos encerradas ontem em Islamabad sem acordo. A proposta de acordo envolvia, ao que tudo indica, cerca de dez pontos, incluindo garantias de passagem pelo Estreito de Ormuz e o respeito à soberania iraniana. A porta-voz do Ministério de Relações Exteriores do Irã afirmou que dois ou três pontos de discordância impediram a assinatura do acordo, enquanto JD Vance aludiu diretamente aos desacordos em relação ao programa nuclear iraniano. Essa questão central, isto é, o enriquecimento de urânio e as capacidades nucleares do país, segue em aberto.
Apesar de ambos os lados apresentarem o cessar-fogo como uma vitória, a dinâmica internacional mudou de forma brusca. Mesmo diante da superioridade militar dos Estados Unidos, o resultado — ainda provisório — aponta para três tendências: maior isolamento de Trump, resiliência do Irã e aprofundamento do declínio da hegemonia imperialista norte-americana.
Tudo indica que o Irã manteve controle efetivo sobre o Estreito de Ormuz, inclusive com a possibilidade de impor condições ao tráfego marítimo. O que significou até o momento um resultado político significativo, que desmoraliza os objetivos estratégicos da maior potência do planeta. Isso, combinado ao fato do Irã não ter aceitado as condições impostas pelo acordo proposto pelos Estados Unidos, levou Trump a anunciar o bloqueio naval do Estreito de Ormuz, “dobrando a aposta” ao atacar a principal receita iraniana, mas também pressionar ainda mais a inflação global e estadunidense.
Trump sai mais isolado da guerra contra o Irã
Trump lançou-se em uma guerra ilegal, atropelando não apenas o já frágil ordenamento internacional do pós-guerra, mas também seus próprios aliados europeus e os limites institucionais internos dos Estados Unidos.
É difícil não lembrar figuras decadentes de impérios em crise. A ofensiva — impulsionada em articulação com Netanyahu — começou com ataques brutais contra alvos civis, incluindo o bombardeio de uma escola que matou centenas de crianças, e terminou esta fase sob crescente contestação interna.
Com mais de 2 mil vítimas e centenas de ataques contra infraestrutura civil, Trump sai politicamente desgastado. O movimento “No Kings” organizou uma das maiores mobilizações da história recente dos Estados Unidos, reunindo entre 6 e 8 milhões de pessoas em cerca de 3 mil cidades. Diferentemente de guerras anteriores, como Afeganistão e Iraque, esta intervenção já nasceu com ampla rejeição da opinião pública.
Trump não logrou seus objetivos nas duas frentes: perdeu em Minnepaolis que expulsou a milicia ICE e agora encara uma derrota em curso no Irã.
A resistência iraniana mostrou-se mais sólida do que o previsto. A expectativa de uma operação rápida — nos moldes de tentativas anteriores em outros países — não se confirmou. Mesmo com a eliminação de dirigentes, o regime manteve sua capacidade de funcionamento, demonstrando ser uma estrutura complexa, com múltiplos centros de poder.
A isso se somam perdas militares, desgaste de recursos e impactos econômicos, como a alta do petróleo, que pressiona a economia norte-americana e contribui para a queda da popularidade de Trump em um ano eleitoral.
O alívio momentâneo dos mercados com o cessar-fogo é insuficiente para reverter tendências mais profundas, como o risco de estagflação e o aumento global do custo de vida.
A posição do Papa foi importante. Sendo Leão XIV o primeiro Papa americano da história tal conflito debilita ainda mais Trump e separa-o de Meloni; a italiana teve que se separar de Trump, outra fissura no campo da extrema direita mundial.
Uma derrota estratégica?
Trump agora enfrenta o desafio de administrar as consequências políticas do cessar-fogo. A disputa de narrativas será central: trata-se de evitar que o recuo militar se converta em crise de governabilidade.
Pressionado pelas eleições de meio de mandato, por escândalos internos e por fissuras no aparato estatal, Trump vê crescer a oposição. Há sinais de desgaste inclusive dentro das Forças Armadas e do establishment político.
Do ponto de vista estratégico, os objetivos centrais da guerra ainda não foram alcançados: não houve mudança de regime no Irã, nem controle total do Estreito de Ormuz, tampouco domínio sobre os recursos energéticos ou interrupção decisiva do programa nuclear iraniano. Pelo contrário, Irã mostrou ter uma arma estratégica superior a bombas: o fechamento do Estreito de Ormuz.
A superioridade militar dos EUA chocou-se com uma estratégia iraniana baseada na prolongação do conflito e no impacto econômico global — especialmente via petróleo. Enquanto o Irã operou com relativa coerência, a política norte-americana foi marcada pela improvisação e volatilidade de Trump.
O Irã não foi uma Venezuela
É necessário ter uma posição clara entre o regime e o país. O regime iraniano é repressivo e responsável por ataques a movimentos democráticos, em especial contra mulheres, e essas lutas tiveram e merecem todo o apoio.
No entanto, isso não altera o caráter do conflito atual. Trata-se de uma agressão imperialista que precisa ser derrotada. Nesse sentido, a posição consequente é estar no campo militar do Irã — o que não significa apoio político ao regime.
Como formulou Trotsky, em conflitos entre uma nação oprimida e uma potência imperialista, os revolucionários se colocam ao lado da nação oprimida, independentemente do caráter de seu governo. A experiência histórica confirma essa abordagem.
O Irã não pode derrotar militarmente os Estados Unidos, mas pode impedir seus objetivos e forçar seu recuo. E isso, ao que tudo indica, foi alcançado.
A estratégia iraniana combinou guerra de desgaste, uso intensivo de drones e articulação com forças regionais. Além disso, não houve a esperada rebelião interna pró-intervenção, demonstrando que amplos setores da população rejeitam uma mudança de regime imposta por potências estrangeiras.
Dinâmica e perspectivas: economia e mobilização
O desgaste de Trump se combina com o crescimento das mobilizações. O movimento “No Kings” expressa a escalada de massas que possui a resistência democrática e a oposição ao autoritarismo de Trump nos Estados Unidos, resultando na unidade de ação de diversos e amplos setores.
Ao mesmo tempo, a crise econômica global tende a se aprofundar. Organismos internacionais já revisam para baixo as projeções de crescimento, enquanto a inflação e o custo de vida pressionam países como Índia e Brasil.
Segundo reportagem da Agência Brasil, com os dados divulgados no dia 14 de abril:
“O Fundo Monetário Internacional (FMI) reduziu a projeção de crescimento da economia global para 2026 e alertou para o risco de recessão caso a guerra no Oriente Médio se prolongue. Ao mesmo tempo, a instituição elevou a estimativa para o Brasil, impulsionado pela alta das commodities energéticas.
Segundo o relatório Perspectiva Econômica Mundial, o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) global foi revisado de 3,3% para 3,1% em 2026. A mudança reflete os impactos do conflito envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã sobre preços de energia, cadeias produtivas e confiança dos mercados.”
O cenário aponta para uma combinação de instabilidade política e tensões sociais crescentes, como bem reporta Michael Roberts em recente artigo
“Isso significa duas coisas. No curto prazo, a inflação global vai aumentar. Se o conflito durar mais, então o aumento da inflação será acompanhado por uma queda no crescimento econômico e pela probabilidade de que até mesmo algumas das principais economias entrem em recessão. A estagflação se torna assim um evento certo, tornando uma derrubada geral um evento possível” Se as instalações de petróleo e gás forem permanentemente danificadas ou ficarem fora de operação por muito tempo, os preços do petróleo subirão ainda mais, — quase três vezes os níveis pré-guerra — e os preços do gás natural disparariam para €120 MWh, ou quatro vezes a taxa pré-guerra. Tal aumento seria comparável ao choque global de oferta do final dos anos 1970, que contribuiu para a alta inflação e a recessão global.”
Podemos afirmar que, em que pese as primeiras consequências já estarem sendo expostas, os desdobramentos da agressão imperialista ao Irã ainda estão nos seus começos.
Mobilizar contra a guerra e contra Trump
Nesse contexto, iniciativas como a Conferência Antifascista realizada em Porto Alegre ganham importância. Ao reunir organizações de dezenas de países, expressam a emergência de uma articulação internacional contra o imperialismo, a guerra e a extrema direita.
As mobilizações recentes em vários países indicam o início de um novo ciclo de lutas. O desgaste de Trump e Netanyahu não se limita aos seus países: é um fenômeno global.
Sobre essa base, é possível derrotar essa ofensiva. Uma derrota de Trump representaria um golpe na extrema direita internacional e abriria espaço para o avanço das lutas populares.
Para isso, é fundamental fortalecer a mobilização contra a guerra, defender a autodeterminação dos povos e lutar para que o cessar-fogo se consolide e avance em direção a uma paz duradoura.
E isso terá impacto diretamente nos próximos passos: Trump coloca seus olhos e intervenção na América Latina, sobretudo em Cuba, mas também nas eleições colombianas e brasileiras. Em poucos meses, contudo, seu prestígio é bem menor e está em retrocesso, o que pode custar caro até para seus discípulos como Flávio Bolsonaro. A luta pela soberania vai ganhar força. Recente pesquisa Datafolha trouxe um dado relevante: cerca de 70% dos brasileiros estão contra a agressão de Trump no Irã.
A derrota no Irã- a depender de como se consolidar- pode ser um ponto de inflexão para a derrota da extrema direita em todo mundo, a começar pelo seu chefe maior, Trump. Por isso somamos solidariedade à Palestina, a Global Summud Flotilha, e aos povos do mundo que resistem.