Depois do grande ato do 24 de março

Depois do grande ato do 24 de março

Há uma nova dinâmica aberta na Argentina após a grande manifestação do dia 24 de março

Israel Dutra e Vitor Cesario 19 abr 2026, 12:27

Queremos aqui trazer de forma breve, mais que um relato, apontamentos sobre a dinâmica que se abre na Argentina após a grande manifestação do dia 24 de março.

A situação do nosso país vizinho é importante, ainda mais tendo em vista acabamos de sair uma vitoriosa conferência antifascista em Porto Alegre, onde não só os argentinos contavam com a maior delegação estrangeira – com cerca de 200 pessoas – como estão trabalhando para realizar uma nova conferência em seu país.

O sentido do 24 de Março

O último 24 de março marcou uma das maiores jornadas políticas e simbólicas da Argentina dos últimos anos. No aniversário de cinquenta anos do golpe de Estado de 1976, mais de um milhão de pessoas voltaram a ocupar as ruas de Buenos Aires e das principais cidades do país para reivindicar a memória, a verdade e a justiça. Todo o microcentro portenho ficou completamente tomado durante horas Cidades como Mendoza, Rosário, Córdoba, Mar del Plata também foram palco de marchas multitudinárias.

Mais do que uma marcha, o 24M deste ano assumiu uma ideia de jornada e observamos quase uma semana de ações variadas, em distintos setores da sociedade que culminou em uma grande marcha unitária no dia vinte e quatro. Para concretizar exemplos a respeito dessa semana de atividades podemos citar: intervenções em praças, jornada de conscientização nos colégios, promoção da memória ativa pelos clubes de futebol que lembraram seus torcedores e jogadores desaparecidos pela ditadura militar, por via das redes sociais ou em suas sedes e estádios. Quase todos os clubes grandes argentinos se posicionaram condenando a última ditadura militar e reclamando memória, verdade e justiça. Também é válido ressaltar que muitas associações de bairros fizeram “pré-marchas” em seus territórios, as tradicionais marchas de las antorchas, mas que, neste ano, estavam especialmente cheias e que organizações e centros culturais fizeram vigílias na madrugada anterior ao grande ato que contaram com apresentações artísticas diversas.

Além disso, o 24 de março deste ano assumiu um sentido profundamente político. Em um contexto no qual o governo nacional e amplos setores de sua base política buscam relativizar os crimes da ditadura, questionar o número de desaparecidos e reabilitar discursos revisionistas sobre o terrorismo de Estado, a jornada converteu-se também em uma enorme demonstração de repúdio ao governo Milei e ao conjunto de seu projeto político. O grito de “son 30 mil” não apareceu apenas como memória histórica, mas como palavra de ordem de enfrentamento direto a um governo que, desde sua chegada ao poder, busca reabilitar muitos dos aspectos mais reacionários da tradição política argentina.

E isso não é casual. O golpe de 1976 foi uma ruptura institucional conduzida por militares autoritários, mas apoiada por burgueses argentinos e pelo imperialismo estadunidense. Representou um projeto de reorganização da sociedade argentina, impulsionado para destruir o ascenso operário e popular que havia marcado os anos anteriores e refundar o país sobre novas bases econômicas e sociais. A ditadura significou repressão, censura, tortura e o desaparecimento de milhares de militantes, trabalhadores e estudantes. No terreno da economia e do desenvolvimento nacional, o golpe de 76 foi a imposição de um novo modelo econômico baseado na financeirização, na fuga de capitais, no endividamento externo, na abertura subordinada ao capital internacional e no início da destruição sistemática do aparato produtivo nacional.

Por isso, a memória do 24 de março trata de rememorar todos aqueles que foram presos, torturados e/ou desaparecidos pela ditadura militar e também de recordar que a ditadura foi o instrumento utilizado para impor um projeto econômico que viabiliza o andar de cima e massacra trabalhadores. Recordar os cinquenta anos do golpe é, portanto, recordar também a origem de muitas das mazelas estruturais que continuam condicionando o presente argentino.

Milei: subordinado e atado ao destino de Trump e Netanyahu

Se a marcha deste ano teve tamanho peso político, isso se deve também ao fato de que a Argentina segue sendo talvez o país latino-americano mais profundamente condicionado pela conjuntura internacional. Historicamente dependente de crédito externo, vulnerável às oscilações dos mercados globais e submetida a uma inserção profundamente subordinada na economia mundial, poucas realidades nacionais estão tão diretamente ligadas às dinâmicas internacionais quanto a argentina, onde o cidadão-comum acompanha diariamente as variações do mercado e sempre sabe dizer o valor diário do dólar.

Sob Milei, esta dependência assumiu inclusive uma dimensão ideológica e geopolítica mais explícita. Desde o início de seu mandato, o presidente buscou posicionar-se como um aliado incondicional do bloco político internacional liderado por Donald Trump e Benjamin Netanyahu, convertendo a política externa argentina em uma espécie de extensão caricatural do trumpismo global. Milei tirou a Argentina dos BRICS, decidiu sair da Organização Mundial da Saúde, abraçou o lobby e afirmou que ‘a Argentina é o país mais sionista do mundo’. A posição do governo diante da escalada militar entre Estados Unidos, Israel e Irã também é a expressão da subordinação de Milei a Trump e a Netanyahu já que o presidente argentino abandona qualquer pretensão de equilíbrio diplomático e assume um alinhamento automático com Washington e Tel Aviv, sem pensar nas consequências geopolíticas e econômicas de suas declarações.

Em um cenário internacional cada vez mais marcado por instabilidade financeira, tensões militares e volatilidade nos preços energéticos, a Argentina torna-se ainda mais vulnerável às turbulências externas. E isso se soma ao fato de que o governo segue preso à chantagem permanente do Fundo Monetário Internacional, cuja tutela continua condicionando toda a política econômica nacional.

Chamo a atenção para um perigo iminente a todo território latino-americano e quiçá a todo o globo terrestre. Hoje, a Argentina é um laboratório de testes do projeto ultraliberal que se vê referenciado na figura de Javier Milei.

É verdade que Milei conseguiu reduzir significativamente os índices inflacionários em relação ao caos herdado do último período do governo Fernández-Massa. Mas de forma alguma isso é um logro da classe trabalhadora. A queda da inflação é resultado da recessão econômica, brutal compressão salarial, retração do consumo popular e deterioração generalizada das condições de vida da maioria da população. A “estabilização” econômica do governo foi o resultado de um forte empobrecimento social. Ainda que os indicadores macroeconômicos tenham apresentado alguma melhora relativa, a sensação cotidiana da maioria dos trabalhadores segue sendo de deterioração, precarização e perda constante do poder de compra.

Milei esvaziado

Essa contradição ajuda a explicar por que Milei ainda conserva algum nível de apoio social. Mas, as pioras nas condições de vida de um amplo setor da sociedade somada à crise universitária, pressão do movimento sindical e a movimentos democráticos como o expressado na marcha federal antifascista começam a jogar luz em algumas feridas e ajudam no processo de desgaste político do governo.

Diversas pesquisas recentes já apontam queda consistente na imagem presidencial e aumento gradual de sua rejeição. Os recentes escândalos envolvendo figuras centrais do governo, como Karina Milei – irmã e conselheira do presidente – e Manuel Adorni – porta-voz do governo -, também começaram a corroer um dos principais pilares simbólicos sobre os quais o mileísmo construiu sua legitimidade: a ideia de que representaria uma alternativa “anti-casta” frente à corrupção do regime tradicional. Cada nova denúncia de favorecimento, enriquecimento suspeito ou uso indevido de recursos públicos expõe o caráter farsesco de um governo que prometeu combater privilégios, mas na verdade enriquece ilegal e sistematicamente suas principais figuras.

Todavia, não podemos afirmar que Milei se encontra em colapso iminente. O governo conserva uma base de apoio importante, sustentada principalmente por dois fatores. Por um lado, pela extrema debilidade e fragmentação das oposições tradicionais, em especial de um peronismo que, para além das mãos sujas, segue vivendo uma crise de referentes, é incapaz de se unificar em torno de um projeto, liderança ou horizonte político minimamente claros e possui uma de suas maiores lideranças injustamente presa em um regime de prisão domiciliar. Por outro, porque parte importante da população ainda percebe que houve alguma melhora relativa nos indicadores econômicos frente ao caos dos últimos meses do governo anterior.

O problema central é que os números positivos exibidos pelo governo convivem com uma realidade social muito mais contraditória. Se por um lado alguns indicadores macroeconômicos mostram estabilização e até certa recuperação, por outro o poder de compra da população se arrasta no chão, o desemprego cresce, a informalidade avança e o consumo cai permanentemente.

Dinâmica de luta e novos processos em aberto

Desde a perspectiva política institucional, o governo teve um grande êxito ao ganhar as eleições legislativas no ano passado. Isso lhe deu fôlego e sustentação no congresso para avançar com projetos-chave como a reforma trabalhista e a lei de glaciares. Do outro lado, desde o social há uma demarcação do terreno e disponibilidade para lutar.

A última semana, por exemplo, foi marcada por novas ações do movimento piqueteiros, que segue expressando focos importantes de resistência organizada entre os setores mais precarizados da classe trabalhadora. Também ocorreram mobilizações relevantes contra a reforma da Lei de Glaciares, aprovada pelo Congresso apesar da ampla resistência de movimentos ambientalistas, organizações sociais e setores da esquerda. A aprovação da medida representa uma importante vitória do lobby minerador e do governo, ao flexibilizar proteções ambientais históricas em benefício da expansão extrativista.

Ao mesmo tempo, a paralisação dos ônibus na capital Buenos Aires voltou a demonstrar o crescente mal-estar existente em amplos setores do mundo do trabalho. Ainda não estamos diante de um ascenso nacional consolidado ou de um processo aberto de radicalização de massas. Seria um erro de análise afirmar isso. Porém, começam a aparecer lentamente os primeiros sintomas de uma nova dinâmica de luta social.

Sempre é válido lembrar a história e a tradição da luta popular na Argentina, o peso político e social dos sindicatos, as assembleias de bairro, o papel social dos clubes, o argentinazo e outros grandes eventos históricos que demonstram a disposição peleadora do povo argentino. Apesar, da tentativa de criminalização da política sindical, piqueteira e das dificuldades impostas aos partidos de esquerda e, às vezes, ao progressismo, é fundamental dizer que o povo argentino nunca fugiu à luta e que toda conquista do governo – e consequentemente um ataque aos trabalhadores – só foi possível porque o Estado preparou todo seu aparato repressivo e abraçado a ideologia militar dos anos 70 e 80 reprimiu brutalmente a todos aqueles que pisaram as ruas e as praças para se defender das atrocidades impostas pelo projeto ultraliberal de Milei.

Nesse cenário, também chama atenção a manutenção de um espaço político importante para a esquerda. Figuras como Myriam Bregman seguem conservando níveis consideráveis de simpatia popular e projeção pública, especialmente entre a juventude, setores sindicalizados, trabalhadores urbanos e a vanguarda politizada. Ainda que isso esteja longe de significar uma tradução automática em hegemonia de massas, demonstra que a esquerda revolucionária argentina continua ocupando um espaço político importante e que, mesmo que dispersa, há uma base social grande de esquerda na Argentina.

A Frente de Izquierda de los Trabajadores – Unidad (FITU) possui em suas mãos algumas tarefas chaves: disputar a consciência da classe e aproveitar-se da crise no peronismo para avançar institucionalmente. Para isso é fundamental a maturidade política, a unidade de ação, inclusive com setores do peronismo ou do radicalismo, e um programa que consiga sintetizar os anseios da classe trabalhadora. Muitos setores que compõem a FITU pecam ao cair em tentações sectárias e puristas, discussões internas que desgastam a frente e não a permitem alçar voos mais altos e priorizam a autoconstrução à responsabilidade política.

Por outro lado, a coordenação das forças políticas que estiveram envolvidas na organização da delegação argentina para a Conferência Antifascista foi um bom exemplo do que pode ser feito. Ali confluem diferentes setores, como Vientos del Pueblo( da qual faz parte Marabunta, que compõe a seção argentina da IV), Libres do Sur, MST (parte da FITU) e Unidade Popular.

Por fim, a história argentina demonstra que seus processos políticos raramente se desenvolvem de maneira linear. Quando as contradições amadurecem, os tempos históricos podem acelerar-se rapidamente. Não há automatismos, tampouco inevitabilidades. Mas tudo indica que o país começa a entrar em uma nova etapa: mais instável, mais contraditória e potencialmente mais conflitiva.

Cabe agora à esquerda revolucionária, aos movimentos sociais e ao conjunto da vanguarda organizada compreender as características desse novo momento e preparar-se para os enfrentamentos que inevitavelmente virão.


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