Pazolini e Ferraço disputam o governo do ES. Mas o projeto muda?
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Pazolini e Ferraço disputam o governo do ES. Mas o projeto muda?

As diferenças entre os dois candidatos capixabas aparecem muito mais na forma de exercício do poder do que em seu conteúdo social

Ricardo Nespoli 20 maio 2026, 15:18

Foto: Ricardo Ferraço (MDB), vice-governador do Espírito Santo, e Lorenzo Pazolini (Republicanos), prefeito de Vitória. (Reprodução)

À primeira vista, a eleição de 2026 no Espírito Santo parece desenhar um confronto entre dois projetos distintos de direita. De um lado, Ricardo Ferraço (MDB), representante clássico da política institucional capixaba e herdeiro da continuidade do ciclo de Renato Casagrande (PSB). Do outro, Lorenzo Pazolini (Republicanos), delegado eleito na esteira do discurso “anti-sistema”, apoiado por setores conservadores e tentando consolidar uma aliança mais orgânica com o bolsonarismo.

Mas talvez a melhor imagem para entender essa disputa não seja a de dois caminhos opostos. Talvez seja a de duas entradas diferentes para o mesmo condomínio.

A própria construção da candidatura de Pazolini ajuda a entender isso. Apesar de hoje se aproximar cada vez mais do campo bolsonarista, o ex-prefeito de Vitória nunca foi exatamente um bolsonarista clássico. Durante seus seis anos à frente da prefeitura, evitou associar sua imagem diretamente a Jair Bolsonaro (PL) de forma permanente, preservando uma ambiguidade que lhe permitiu dialogar com setores mais amplos da direita capixaba.

Essa ambiguidade segue presente agora. O Republicanos trabalha para construir um acordo com o PL no Espírito Santo, tendo como eixo um apoio de Pazolini à candidatura de Maguinha Malta (PL) ao Senado, enquanto o PL apoiaria Pazolini ao governo do estado. A negociação avançou nas últimas semanas, inclusive com reuniões em Brasília, mas ainda enfrenta resistência de setores mais ideológicos e orgânicos do bolsonarismo capixaba, que defendem candidatura própria do PL ao governo.

Ainda assim, Pazolini vem sinalizando claramente para esse campo. Recentemente, durante a internação de Bolsonaro, pediu publicamente orações ao “presidente Bolsonaro”, movimento calculado para fortalecer essa aproximação sem abandonar completamente a imagem de gestor técnico e independente que construiu em Vitória.

Essa talvez seja uma das características centrais de sua candidatura. Pazolini performa ruptura, mas procura se apresentar como um nome aceitável para o “establishment” econômico do estado. E não por acaso Paulo Hartung, principal símbolo da “modernização” liberal capixaba nas últimas décadas, aparece cada vez mais próximo desse projeto.

A biografia dos dois ajuda a entender melhor a diferença de estilo entre eles.

Ricardo Ferraço vem da velha engenharia política capixaba. Filho de Theodorico Ferraço (PP), construiu sua trajetória ligado às elites econômicas do estado, do empresariado ao agronegócio. Foi deputado, senador, secretário, vice-governador, tanto de Hartung quanto de Casagrande, e agora governador. No Senado, foi relator da Reforma Trabalhista de Michel Temer (MDB), uma das principais derrotas históricas da classe trabalhadora brasileira nas últimas décadas.

Sua política sempre esteve vinculada à estabilidade institucional, às alianças amplas e ao diálogo permanente com os setores econômicos organizados do Espírito Santo. Ricardo representa uma tradição política consolidada no estado desde os anos 1990: responsabilidade fiscal, forte proximidade com o empresariado e uma visão liberal da economia. Não é visto necessariamente como um grande articulador político no sentido clássico, mas como um quadro experiente da direita capixaba, capaz de operar dentro das estruturas institucionais já estabelecidas e de expressar os interesses do Espírito Santo em Ação, organização que reúne alguns dos principais grupos empresariais do estado e que, há décadas, influencia diretamente o debate sobre desenvolvimento econômico, gestão pública e prioridades estratégicas dos sucessivos governos capixabas.

Pazolini surge de outro lugar. Foi eleito deputado estadual em 2018 na onda da crise do sistema político tradicional, do crescimento do antipetismo e do discurso anticorrupção. Aproximou-se de figuras como Damares Alves, ex-ministra bolsonarista da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos e atual senadora pelo Republicanos, consolidando sua imagem pública como um político “de fora” da lógica tradicional da política capixaba.

Mas existe uma ironia importante nisso tudo. Pazolini construiu sua carreira atacando a “velha política”, enquanto Ricardo Ferraço é justamente um de seus representantes mais tradicionais. Só que, na prática, ambos orbitam os mesmos interesses econômicos e compartilham limites semelhantes quando o assunto é projeto de estado.

As diferenças aparecem muito mais na forma de exercício do poder do que em seu conteúdo social.

Ferraço representa a direita tradicional capixaba. Pazolini representa uma direita mais recente, formada no ambiente político pós-2018 e influenciada pelo discurso antipolítica. As diferenças de estilo são reais, mas não escondem que ambos seguem comprometidos com interesses econômicos semelhantes e com projetos situados no mesmo campo da direita no Espírito Santo.

Mas basta observar temas concretos para perceber as convergências.

Na segurança pública, Ricardo Ferraço já demonstrou posições bastante duras, defendendo inclusive o enquadramento de facções criminosas como organizações terroristas. Mas talvez o exemplo mais revelador tenha vindo agora, já no início do governo. Ao transferir da Secretaria de Direitos Humanos para a Secretaria de Segurança Pública a mediação dos conflitos fundiários no Espírito Santo, Ricardo sinalizou de forma muito concreta qual tende a ser sua abordagem para temas ligados à terra, moradia e movimentos sociais. Não se trata apenas de uma mudança administrativa. Existe aí uma escolha política clara de tratar conflitos sociais cada vez mais pela lógica da repressão e menos pela mediação.

Pazolini, por sua vez, governou Vitória com pouco diálogo institucional, em permanente conflito com servidores públicos e promovendo ataques aos direitos do funcionalismo, especialmente dos aposentados, atingidos pelo aumento da contribuição previdenciária muito mais dura que a Reforma da Previdência de Bolsonaro. Sua gestão ficou marcada também por episódios de perseguição política e práticas autoritárias, como a exoneração de integrantes da Guarda Municipal que se recusaram a retirar aposentados da sede da prefeitura durante um protesto.

Ao mesmo tempo, Pazolini transformou a segurança pública em um dos principais instrumentos de construção de sua imagem política. A ROMU e a Guarda Municipal passaram a ocupar papel central na propaganda da prefeitura, reforçando a figura do prefeito delegado, associado ao discurso de ordem, autoridade e combate ao crime. Paralelamente, utilizou uma política de forte ajuste fiscal para ampliar a capacidade de investimento do município, o que lhe garantiu popularidade e uma reeleição em primeiro turno.

Não por acaso, Camila Valadão, deputada estadual do PSOL e uma das principais vozes da esquerda capixaba, questionou recentemente qual seria, afinal, a diferença concreta entre um eventual governo Ricardo Ferraço e um governo Pazolini para os movimentos sociais, os servidores públicos e os setores populares do estado.

A pergunta faz sentido.

Ricardo Ferraço chega à eleição respaldado pela máquina estadual, pela ampla maioria dos prefeitos da Região Metropolitana e do interior e por uma poderosa coalizão institucional. Representa a continuidade do projeto político de Renato Casagrande, mas deslocando-o mais à direita em temas centrais, especialmente segurança pública e direitos humanos.

Pazolini tenta ocupar o lugar de oposição ao sistema político tradicional enquanto se aproxima justamente dos setores econômicos e partidários que organizam esse mesmo sistema há décadas.

É justamente por isso que a esquerda capixaba precisa evitar uma armadilha. A polarização entre Pazolini e Ferraço tende a organizar o debate público como se o Espírito Santo estivesse diante de uma escolha histórica entre dois projetos profundamente antagônicos. Mas, para a classe trabalhadora, para os movimentos populares e para os setores periféricos, as diferenças podem ser muito menores do que parecem.

Isso não significa negar que existam distinções políticas importantes entre eles. Pazolini se aproxima mais diretamente do bolsonarismo e da extrema direita, ainda que tente preservar uma imagem de gestor técnico e menos ideológico. Ricardo Ferraço, por sua vez, representa a continuidade do campo político organizado por Renato Casagrande (PSB), sustentado por alianças amplas e pelos setores tradicionais do poder econômico capixaba.

O problema é que, quando o debate sai da estética política e chega ao conteúdo concreto dos projetos, as convergências aparecem cada vez mais.

Na prática, ambos se aproximam em temas centrais: política econômica liberal, prioridade aos interesses empresariais, endurecimento na segurança pública, pouco espaço para participação popular e baixa disposição de enfrentar os conflitos sociais do estado a partir da ótica dos trabalhadores e dos movimentos sociais.

E é justamente por enxergar esse limite que o PSOL decidiu apoiar a candidatura de Helder Salomão (PT) ao governo do estado. A construção de uma alternativa de esquerda ao Palácio Anchieta parte da compreensão de que as diferenças entre Ricardo Ferraço e Pazolini existem, mas se tornam cada vez menores quando observamos os interesses sociais e econômicos que ambos representam no Espírito Santo.

A candidatura de Helder cumpre um papel importante nesse cenário. Não apenas porque expressa um campo político distinto de Ferraço e Pazolini, mas porque recoloca no centro temas frequentemente apagados pela polarização conservadora: desigualdade social, reforma agrária, serviços públicos, direitos humanos, desenvolvimento regional e participação popular.

No fundo, o que está em disputa no Espírito Santo não é apenas uma troca de nomes ou estilos de gestão. É a possibilidade de seguir administrando o mesmo modelo econômico com linguagens diferentes ou abrir espaço para outro projeto de estado.

A política capixaba talvez esteja diante de uma disputa em que os candidatos parecem ocupar lados opostos do portão, mas seguem circulando no mesmo condomínio. Mudam o estilo, a linguagem, os aliados prioritários e a forma de se apresentar para a sociedade. Mas, no fundamental, continuam orbitando os mesmos interesses econômicos e os mesmos limites políticos.

A questão é saber se 2026 será apenas uma disputa sobre quem administra melhor o condomínio ou se finalmente haverá espaço para discutir quem construiu seus muros, quem define suas regras e quem continua impedido de entrar.


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