Sobre a eleição andaluz
Foto: ÓSCAR CORRAL

Sobre a eleição andaluz

As boas notícias da Andaluzia carregam esperança no mundo cada vez mais polarizado

Israel Dutra e Júlio Pontes 19 maio 2026, 17:04

No último domingo (17), aconteceram as eleições da Andaluzia. Foi um “superdomingo” eleitoral na maior comunidade autônoma do Estado Espanhol, com aproximadamente 9 milhões de habitantes.  Andaluzia é uma das regiões mais proletarizadas e emblemáticas do Estado Espanhol. Foi um bastião dos socialistas, onde o PSOE governou por 37 anos (de 1982 a 2019); é hoje a mais importante região da direita tradicional do Partido Popular (PP), definida Alberto Núñez Feijóo, presidente nacional do PP e líder da oposição no parlamento do Estado Espanhol, como um “modelo”.

O resultado foi complexo. Muitos perdedores, poucos podem se definir como vitoriosos. O resumo foi uma “derrota na vitória” do PP, que mesmo ganhando com folga, perdeu a maioria absoluta para formar um governo; o PSOE teve “apenas” seu pior resultado histórico. A novidade foi a explosão eleitoral da coalizão anticapitalista “Adelante Andalucia” (AA), que quadruplicou sua presença parlamentar e mais que dobrou sua votação, tornando-se o partido que mais cresceu nestas eleições.

A “noite agridoce” do PP, como classificaram os analistas, explica-se pelo fato do partido ter perdido 5 cadeiras no parlamento andaluz, justamente o que lhe separou das 58 necessárias para alcançar maioria absoluta. O apelo de Juan Manuel Moreno para construir uma maioria suficiente para governar sem a “confusão” que significa depender do Vox não se realizou nas urnas. O PP de Moreno obteve 41,6% dos votos, reduzindo – ainda que com 140 mil votos a mais – aproximadamente 1,5% da sua votação anterior.

O revés na eleição andaluz tem efeito nos debates internos do PP e sobre o papel do partido no próximo ciclo eleitoral por duas razões: a dependência da extrema direita do Vox para governar e, ao não renovar sua maioria absoluta no único lugar onde poderia fazê-lo, a derrota relativa da chamada ala moderada liderada por Moreno.

O Vox, no entanto, não teve um crescimento relevante nas eleições da Andaluzia. Postulou-se como a terceira força, com 13,8%, ampliando apenas 1 cadeira no parlamento, totalizando 15. A desaceleração do crescimento da extrema direita via Vox não só é uma boa notícia como coloca condições para ampliar o debate no conjunto do Estado Espanhol.

O PSOE de Pedro Sánchez, por outro lado, perdeu terreno eleitoral. Na Andaluzia, seu reduto histórico, o PSOE obteve 22,7% dos votos, reduzindo 1,4% em comparação a sua votação anterior e perdendo 2 assentos no parlamento. A derrota na Andaluzia, porém, figura como o pior desempenho do PSOE na região, agora sob a liderança da Ex-Ministra da Economia de Sánchez: Maria Jesús Montero.

Mas, sem dúvidas, o dado mais animador e importante ficou por conta do Adelante Andalucía. Se o PP perdeu 5 cadeiras, o AA ganhou 6 – quadruplicando o resultado anterior. O Adelante concentrou quase 10% dos votos na maior comunidade autônoma do Estado Espanhol, somando mais de 400 mil votos. Elegeu 2 deputados em Cádiz e Sevilla e 1 deputado em Huelva, Málaga, Granada e Córdoba, isto é, em 6 das 8 províncias da Andaluzia, com maioria de 6 mulheres na lista. A ascensão do AA tirou das mãos do PP a maioria absoluta com que contava, demonstrando, como definiu José Ignacio García, candidato do Adelante para o governo, o lugar e a força do nacionalismo andaluz, de uma esquerda que não é “muleta do PSOE” e tem alegria.

O resultado do Adelante também superou os setores da esquerda tradicional agrupados no Por Andalucía (PA), sob a liderança de Antonio Maíllo (Izquierda Unida) e correntes como Podemos e Sumar. O PA somou 6,3% dos votos, perdendo 1,4% em relação a última eleição e mantendo os 5 deputados que possuía. Manteve o número mínimo exigido de deputados para alcançar o estatuto de bancada parlamentar, sem a qual os partidos perdem fontes de financiamento específicas e presença nos principais debates políticos da Andaluzia, como Porta Voz próprio no Conselho de Porta Vozes, pelo qual se pode propor mais iniciativas parlamentares e exercer mais influência nas negociações internas.

A ascensão do Adelante Andalucía, fundado por Tereza Rodríguez em 2021 após ruptura com o Podemos, não era prevista por nenhuma pesquisa. O partido de esquerda melhorou seu resultado em 742 dos 785 municípios da Andaluzia, consolidando-se como uma força de esquerda com presença em toda comunidade autônoma. Em Cádiz e Sevilla, superou o Vox, obtendo neste último seu melhor resultado com mais de 133 mil votos. O AA capitalizou o voto do eleitorado jovem disputado contra a abstenção, o que também explica o aumento na participação da eleição de 56,1% para 64,7%. Esse eleitorado jovem está fortemente conectado a questão nacional e descontente com as condições de vida, como os altos preços de moradia e a insegurança laboral.

O crescimento do AA aconteceu depois de “provações terríveis”, como classificou a fundadora e ex-eurodeputada Tereza Rodríguez. Depois de fundar o partido em 2021, em dezembro de 2022 renunciou ao cargo para cumprir o código de ética que limita os parlamentares ao exercício de três mandatos. Cinco meses depois, o Adelante perdeu a prefeitura de Cádiz, que havia conquistado com Kichi em 2015 ainda sob o Podemos. A própria “Tere” passa agora por uma provação pessoal terrível: o câncer, cuja notícia se tornou pública apenas no dia da votação após ser atacada nas redes pelo uso do kufiya – símbolo da resistência palestina.

A posição do Adelante Andalucía como principal força de esquerda andaluz é um dado importante, que merece ser celebrado, mas também entendido. O Adelante cresceu disputando setores de massas, mobilizando sobretudo uma geração de jovens indignados com as condições de vida, sem renunciar a sua posição independente frente ao PSOE e superando a esquerda tradicional reunida no Por Andalucía. “El Gafa”, como é conhecido García, discursou após os resultados indicando a medida dos desafios “a partir de amanhã”, em que o Adelante deverá estar “em todas as lutas, em todas as greves, em todos os movimentos sociais”, e fazendo um apelo à esquerda por outro horizonte possível.

Os festejos da noite da esquerda independente andaluz nos deixam algumas anotações provocativas

A eleição da Andaluzia demonstra no reduto histórico do PSOE que existe vida para esquerda independente andaluz, assim como em todo Estado Espanhol. Ainda que os resultados da coalização onde se localiza Podemos e IU sejam de estagnação, podemos afirmar também o curso de uma “retomada”, passada e sentida a “experiência” de participação nos governos do PSOE.

A relação de forças, social e política, no Estado Espanhol, está em disputa. Isso tem a ver com a distância tomada por Sánchez de outros setores da social-democracia europeia, como Keir Stamer, confrontando – com limites – a Trump e Netanyahu. Mas também com a revalidação de forças da esquerda, cujas duas listas somadas (AA e PA) na Andaluzia chegam a mais de 16% e superam o Vox, chegando também a superar o PSOE nas grandes cidades da região.

O resultado histórico da coalização anticapitalista do Adelante Andalucía se combina também as forças que articulam temas sociais e soberanistas, como o Bloco Nacional Galego, HB Bildu em Eukazi e as CUP na Cataulha. Essas forças conseguem ter maior capacidade de mobilização e apontam para construir hegemonia ao redor de programa e propostas.

No caso anadaluz, o Adelante mobilizou em especial a juventude em torno de temas concretos, defendendo uma política habitacional com propostas de congelamento de preços dos aluguéis e expropriação dos apartamentos que pertencem à fundos imobiliários. Trata-se de um exemplo que articula força política, social e eleitoral, disputando setores de massa, coisa que parte da esquerda radical deixa de fazer, seja quando se abstém do processo eleitoral, seja quando nega aliança com setores soberanistas de esquerda.

As boas notícias da Andaluzia carregam esperança no mundo cada vez mais polarizado.


TV Movimento

Lançamento do Manifesto por uma Revolução Ecossocialista na Conferência Antifascista

Atividade de Lançamento do Manifesto por uma Revolução Ecossocialista, organizada pela IV Internacional durante a 1ª Conferência Internacional Antifascista, ocorrida em Porto Alegre entre os dias 26 e 29 de março de 2026

Pré-Conferência Antifascista em SP reforça unidade de luta contra o fascismo

Atividade preparatória em São Paulo para a I Conferência Internacional Antifascista pela Soberania dos Povos, que acontecerá entre os dias 26 e 29 de março de 2026, em Porto Alegre

Encontro Nacional do MES-PSOL

Ato de Abertura do Encontro Nacional do MES-PSOL, realizado no último dia 19/09 em São Paulo
Editorial
Israel Dutra | 15 maio 2026

Caso “Bolsomaster” – um filme que muda o roteiro

Pela luta aberta para derrotar Flávio e construir as lutas e paralisações para acabar com a escala 6x1. Esse deve ser nosso roteiro
Caso “Bolsomaster” – um filme que muda o roteiro
Publicações
Capa da última edição da Revista Movimento
Conheça a Revista Retomada!
A Revista Retomada é uma publicação trimestral produzida pelo Movimento Esquerda Socialista (MES-PSOL) em articulação com intelectuais, militantes e artistas
Ler mais

Podcast Em Movimento

Colunistas

Ver todos

Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Ver todos

Podcast Em Movimento

Capa da última edição da Revista Movimento
A Revista Retomada é uma publicação trimestral produzida pelo Movimento Esquerda Socialista (MES-PSOL) em articulação com intelectuais, militantes e artistas

Autores