A política anticapitalista na era do Covid-19
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A política anticapitalista na era do Covid-19

Esboço de interpretação marxista da crise.

David Harvey 10 abr 2020, 16:57

Quando tento interpretar, compreender e analisar o fluxo diário de notícias, tendo a colocar o que acontece no contexto de dois modelos distintos mas relacionados sobre o funcionamento do capitalismo. O primeiro é o mapa das contradições internas da circulação e acumulação do capital à medida que o valor monetário procura o lucro através de diversos “momentos” (como Marx lhes chama) da produção, realização (consumo), distribuição e reinvestimento. Este é o modelo da economia capitalista como uma espiral infinita de expansão e crescimento. Torna-se muito complicado quanto é elaborado, por exemplo, através das lentes das rivalidades geopolíticas, dos desenvolvimentos geográficos desiguais, das instituições financeiras, das políticas públicas, das reconfigurações tecnológicas e das formas sempre mutantes das divisões do trabalho e da relações sociais.

Contudo, concebo este modelo como sendo incrustado num contexto mais amplo de reprodução social (em famílias ou comunidades), numa relação metabólica, sempre em evolução, com a natureza (incluindo a “segunda natureza” da urbanização e do ambiente construído), e de todas as formações sociais culturais, científicas (baseadas no conhecimento), religiosas e contingentes, que a população humana cria tipicamente no espaço e no tempo. Estes últimos “momentos” incorporam a expressão ativa dos desejos e necessidades humanas, a ambição pelo conhecimento e significado e a busca incessante para a satisfação num contexto de mudanças institucionais, contestações políticas, confrontações ideológicas, diversidade cultural, social e política. Este segundo modelo constitui, de facto, a minha interpretação do capitalismo global como uma formação social concreta, enquanto o primeiro trata das contradições dentro da máquina económica que movimenta esta formação social por certos caminhos na sua evolução histórica e geográfica.

Espirais

Quando, em 26 de janeiro de 2020 li pela primeira vez que o coronavírus estava a ganhar terreno na China, pensei imediatamente nas repercussões para a dinâmica global da acumulação de capital. Sabia, a partir dos meus trabalhos sobre o modelo económico, que os bloqueios e disrupções na continuidade do fluxo do capital provocam desvalorizações e que as desvalorizações se generalizam e aprofundam, o que assinala o início das crises. Também sabia que a China é a segunda maior economia no mundo e que foi efetivamente responsável pelo bail-out do capitalismo global depois da crise de 2007-8, de modo que qualquer choque na economia chinesa pode ter consequências graves para a economia global, que já estava em situação precária. O modo existente de acumulação de capital já está, na minha opinião, em consideráveis dificuldades. Os movimentos de protesto ocorrem quase por todo o lado (de Santiago a Beirute) e, em muitos casos, respondem a uma realidade, a de que o modelo económico dominante não funciona bem para a massa da população. Este modelo neoliberal baseia-se cada vez mais no capital fictício e numa grande expansão da oferta de moeda e da criação de dívida. Já está confrontado com o problema da insuficiente procura efetiva, que prejudica a realização dos valores que o capital é capaz de produzir. Então, como é que o modelo dominante, com a sua legitimidade enfraquecida e saúde delicada, pode absorver e sobreviver aos impactos inevitáveis do que pode vir a ser uma pandemia? A resposta depende em grande medida de quanto tempo durará a perturbação e que extensão atingirá, dado que, como Marx assinalava, a desvalorização não ocorre porque as mercadorias não possam ser vendidas mas antes porque não são vendidas a tempo.

Desde sempre, recusei a ideia da natureza como uma “exterioridade”, separada da cultura, da economia e da vida do dia a dia. A minha visão da relação metabólica com a natureza é mais dialética e relacional. O capital modifica as condições ambientais da sua própria reproduçã, mas fá-lo num contexto de consequências indesejadas (como a mudança climática) e contra as forças autónomas e independentes da evolução que reformatam perpetuamente as condições ambientais. Deste ponto de vista, não existe nada que seja verdadeiramente um desastre natural. É certo que os vírus sofrem frequentes mutações. Mas as circunstâncias em que uma mutação ameaça a vida depende das ações humanas.

Há nisto dois aspetos relevantes. Primeiro, as condições ambientais favoráveis aumentam a possibilidade de mutações vigorosas. Por exemplo, é plausível esperar que as cadeias de fornecimento alimentar que são intensivas nos subtrópicos húmidos possam contribuir para isso. Tais sistemas existem em muitos lugares, incluindo a China meridional do Yangtse e sudeste da Ásia. Segundo, as condições que favorecem a transmissão rápida através de corpos hospedeiros variam em grande medida. As populações com alta densidade pareceriam um alvo fácil. É sabido que, por exemplo, as epidemias de sarampo florescem unicamente em centros populacionais de grande dimensão, mas desaparecem rapidamente em regiões esparsamente povoadas. Como os seres humanos interagem uns com os outros, se movimentam, ou se esquecem de lavar as mãos afecta o modo como as doenças são transmitidas. Recentemente, o SARS, a gripe das aves ou suína parecem ter vindo da China ou do sudeste da Ásia. A China também sofreu da febre suína no ano passado, levando a uma chacina dos porcos e à subida do preço da carne. Não refiro isto para culpabilizar a China. Há muitos outros lugares onde os riscos ambientais para uma mutação viral e sua difusão são elevados. A gripe espanhola de 1918 pode ter vindo do Kansas e o HIV/SIDA pode ter sido incubado em África, onde é sabido que começou o Ébola, enquanto o dengue floresce na América Latina. Mas os impactos económicos e demográficos da difusão do vírus dependem de vulnerabilidades e brechas pré-existentes no modelo económico hegemónico.

Não fiquei surpreendido pelo facto de o Covid19 ter sido inicialmente detetado em Wuhan (embora ainda não se saiba qual a sua origem). Os efeitos locais seriam sempre substanciais e, dado que se trata de um importante centro de produção, era provável que houvesse repercussões económicas globais (se bem que não tivesse ideia da magnitude). A grande questão é como é que o contágio e a difusão podem ocorrer e quanto tempo durarão (até que seja criada a vacina). Experiência anterior demonstra que um dos inconvenientes da globalização crescente é que seja impossível parar uma rápida difusão internacional de novas doenças. Vivemos num mundo intensamente conectado em que quase todas as pessoas viajam. As redes humanas para a difusão potencial são vastas e abertas. O perigo (económico e demográfico) será que a perturbação dure um ano ou mais.

Se bem que houve uma imediata queda dos mercados bolsistas mundiais quando surgiram as notícias, seguiu-se um mês ou mais de subida dos mercados até um pico inédito. As notícias pareciam indicar que os negócios continuavam em todo o lado menos na China. Parecia que a expectativa era de que passávamos por uma nova epidemia como a SARS, que foi muito rapidamente contida e que teve pouco impacto global, mesmo que gerasse uma alta taxa de mortalidade e tivesse criado o que (em retrospectiva) foi um pânico desnecessário nos mercados financeiros. Quando o Covid 19 surgiu, a reação dominante foi descrevê-lo como a repetição da SARS, tornando redundante o pânico. O facto de que a epidemia se espalhava na China, que reagiu depressa e brutalmente para conter o seu impacto, também deixou o resto do mundo tratar erradamente o problema como qualquer coisa distante, e portanto fora da vista (tudo acompanhado por alguma perturbante xenofobia anti-Chinesa em algumas partes do mundo). O golpe que o vírus impôs à história triunfante do crescimento chinês foi mesmo saudado em alguns círculos da administração Trump.

Contudo, começaram a circular informações sobre a interrupção de cadeias globais de produção que passavam por Wuhan. Foram em grande medida ignoradas ou tratadas como problemas específicos de algumas linhas de produção ou empresas (como a Apple). Os casos de desvalorização foram locais e específicos e não sistémicos. Os sinais de queda de consumo e de procura foram minimizados, apesar de estas empresas, como a MacDonald’s e a Starbucks, que tinham grandes operações no mercado interno chinês, terem fechado as portas durante um tempo. A sobreposição das festas do Ano Novo chinês com a irrupção do vírus mascarou o impacto ao longo de janeiro. A complacência desta resposta foi gravemente errada.

As notícias iniciais da difusão internacional do vírus foram ocasionais e episódicas, com um sério crescimento da doença na Coreia do Sul e em poucos outros centros, como o Irão. Foi o surto em Itália que provocou a primeira reação violenta. O crash do mercado bolsista, que começou em meados de fevereiro e que oscilou depois, já tinha provocado em meados de março uma desvalorização de cerca de 30% das bolsas no mundo inteiro.

A escalada exponencial das infeções desencadeou um conjunto de respostas frequentemente incoerentes e por vezes de pânico. O presidente Trump fez uma imitação do Rei Canuto perante a maré crescente de doenças e mortes potenciais. Algumas das repostas foram particularmente estranhas. Observar a Reserva Federal a baixar as taxas de juro face ao vírus parece surpreendente, mesmo se se compreende que esta medida pretendia aliviar os impactos no mercado, mais do que evitar o progresso do vírus.

As autoridades públicas e os sistemas de saúde foram apanhados em quase todos os países com graves deficiências. Quarenta anos de neoliberalismo na América do Norte e do Sul e na Europa deixaram a população totalmente exposta e mal preparada face a uma crise de saúde pública deste tipo, mesmo que anteriores surtos de SARS e Ébola foram alertas e lições sobre o que tinha que ser feito. Em muitos lugares do mundo supostamente “civilizado”, os governos e autoridades regionais, que são invariavelmente a linha da frente da defesa da saúde pública e da segurança em emergências deste tipo, estavam subfinanciadas graças a uma política de austeridade destinada a cortar impostos e a financiar subsídios para as empresas e para os ricos.

As grandes empresas farmacêuticas têm tido pouco ou nenhum interesse pela investigação pouco lucrativa acerca de doenças infecciosas (tal como toda a classe de coronavírus que tem sido reconhecida desde os anos 1960). A grande indústria farmacêutica raramente investe na prevenção. Tem pouco interesse em investir na preparação contra uma crise sanitária. A prevenção não cria valor para o accionista. O modelo de negócio aplicado à provisão de saúde pública eliminou as capacidades de reserva que seriam necessárias numa emergência. A prevenção nunca foi um campo apetecível para parcerias público-privado. O presidente Trump cortou os financiamentos do Centro para o Controlo de Doenças e desmantelou o grupo de trabalho sobre as pandemias no Conselho Nacional de Segurança, com a mesma orientação que levou ao corte de todos os fundos para investigação científica, incluindo sobre alterações climáticas. Se quisesse ser antropomórfico e metafórico sobre isto, concluiria que o Covid19 seria a vingança da natureza pelos quarenta anos de desprezo grosseiro e tratamento abusivo às mãos de uma extrativismo neoliberal, violento e desregulado.

É porventura sintomático que os países menos neoliberais, a China e a Coreia do Sul, Taiwan e Singapura, tenham respondido até agora melhor do que a Itália, se bem que o Irão impeça que este argumento seja apresentado como um princípio universal. Enquanto há muita evidência de que a China respondeu muito mal ao SARS, com um processo inicial de negação e de confusão, desta vez o presidente Xi agiu rapidamente para impor transparência tanto na informação como nos testes, como o fez a Coreia do Sul. Mesmo assim, na China foi perdido tempo precioso (poucos dias podem fazer toda a diferença). O que foi notável na China, contudo, foi o confinamento da pandemia à província de Hubei, com Wuhan no seu centro. A epidemia não chegou a Pequim ou ao ocidente da China, ou mais ao sul. Estas medidas para confinar geograficamente o vírus foram draconianas. Mas teriam sido quase impossíveis de replicar noutro país, por razões políticas, económicas e culturais. Relatórios originados na Chins sugerem que as políticas e os tratamentos foram muito para além dos cuidados. Para mais, a China e Singapura usaram os seus poderes de vigilância pessoal a níveis que foram invasivos e autoritários. Mas parecem ter sido extremamente efetivas no conjunto se bem que, se as acções restritivas tivessem sido aplicadas uns dias mais cedo, os modelos sugerem que muitas mortes poderiam ter sido evitadas. Esta é uma informação importante: em qualquer processo de crescimento exponencial há um ponto de inflexão a partir do qual a massa crescente fica completamente fora de controlo (note-se aqui, mais uma vez, a significância da massa em relação à taxa). O facto de Trump ter adiado decisões durante tantas semanas pode vir a ser muito caro em vidas humanas.

Os efeitos económicos estão a evoluir em espiral fora de controlo na China e para além. As disrupções através das cadeias de valor das empresas e de alguns setores económicos revelaram-se mais sistémicas e substanciais do que inicialmente concebido. O efeito de longo prazo pode ser encurtar ou diversificar as cadeias de fornecimento à medida que se deslocam para formas de produção menos trabalho-intensivas (com grandes implicações para o emprego) e promover uma maior utilização de sistemas produtivos baseados na inteligência artificial. A perturbação de cadeias de valor leva ao lay-off de trabalhadores, o que reduz a procura final, enquanto a procura de matérias primas diminui o consumo produtivo. Estes impactos do lado da procura agregada, só por si, provocariam pelo menos uma recessão moderada.

Mas as maiores vulnerabilidades estão noutro lado. Os modos de consumismo que explodiram depois de 2007-8 colapsaram com graves consequências. Estes modos baseavam-se na redução do tempo de rotação do consumo tão próximo tanto quanto possível a zero. O fluxo de investimentos em tais formas de consumismo estava relacionado com a absorção máxima de volumes exponencialmente crescentes de capital que tivesse o tempo mais curto possível. O turismo internacional foi emblemático. As viagens internacionais aumentaram de 800 milhões para 1,4 mil milhões entre 2010 e 2018. Esta forma de consumismo instantâneo exigia investimentos infraestruturais massivos em aeroportos e companhias de transporte, hotéis e restaurantes, parques temáticos e eventos culturais, etc. Este tipo de acumulação de capital morreu: as companhias aéreas estão próximo da bancarrota, os hotéis estão vazios, e o desemprego de massa na indústria hoteleira é iminente. Comer fora deixou de ser uma boa ideia e os restaurantes e bares estão fechados em muitos países. Mesmo o take-away parece arriscado. O enorme exército de trabalhadores na economia do biscate e noutras formas de trabalho precário está a ser dispensado e não tem meios visíveis de vida. Eventos como festivais culturais, campeonatos de futebol e basquetebol, concertos, convenções profissionais e de negócios, e mesmo reuniões políticas para eleições foram canceladas. Esta forma de experiência de consumismo baseada em eventos foi encerrada. Os rendimentos dos governos locais restringiram-se. As universidades e escolas fecharam.

Muito do modelo do consumismo do capitalismo contemporâneo é inoperante nas condições presentes. A tendência para o que André Gorz descreve como o “consumismo compensatório” (em que trabalhadores alienados deveriam recuperar o seu espírito com um pacote de férias numa praia tropical) foi atingida.

Mas as economias capitalistas contemporâneas são movidas pelo consumismo em 70 ou 80%. Ao longo dos últimos quarenta anos, a confiança e o sentimento dos consumidores tornou-se chave para a mobilização da procura efetiva e o capital passou a ser crescentemente conduzido pela procura e pelas necessidades. Esta fonte de energia económica não tem estado sujeita a grandes flutuações (talvez com poucas excepções, como quando um erupção vulcânica na Islândia bloqueou os voos transatlânticos por um par de semanas). Mas o Covid-19 está a provocar não uma flutuação grave mas antes uma tempestade no coração dessa forma de consumismo que domina as economias mais ricas. A forma de espiral da acumulação de capital sem limite está em colapso, a partir de dentro, e vai de uma parte do mundo para todas as outras. A única coisa que o pode salvar é que cada governo financie e inspire o consumismo de massas. Isto exigirá socializar o conjunto da economia dos Estados Unidos, por exemplo, sem lhe chamar socialismo.

As linhas da frente

Existe o mito conveniente de que as doenças infecciosas não conhecem classes ou outras barreiras e fronteiras sociais. Como em muitos outros ditos, há nisto alguma verdade. Na epidemia de cólera do século XIX, a transcendência das barreiras de classe foi suficientemente dramática para suscitar o nasimento do movimento pela saúde pública, que se profissionalizou e durou até aos nossos dias. Que este movimento tenha sido concebido para proteger toda a gente ou unicamente as classes superiores nunca foi claro. Mas hoje os efeitos sociais e de classe, que são diferenciais, contam uma história diferente. Os impactos sociais e económicos são filtrados através de discriminações “tradicionais”, que são evidentes em todo o lado. Para começar, a força de trabalho que deve tomar conta do número crescente de doentes é tipicamente muito genderizada, racializada e etnicizada em muitos lugares do mundo. Espelha a condição de classe da força de trabalho que encontramos, por exemplo, nos aeroportos e em outros setores logísticos.

Esta “nova classe trabalhadora” está na linha da frente e suporta o risco de contrair o vírus nos seus trabalhos, ou de sofrer o lay-off sem recursos, dado o efeito económico provocado pelo vírus. Há, por exemplo, a questão de saber quem pode trabalhar em casa e quem não pode. Isto acentua a divisão, tal como acontece com a questão de saber quem consegue suportar o efeito económico de estar isolado e em quarentena (com ou sem pagamento) no caso de contacto e de infeção. Exatamente no mesmo sentido em que aprendi a chamar aos terramotos da Nicarágua (1973) e da cidade do México (1995) “classe-motos”, assim o progresso do Covid-19 tem todas as características de uma pandemia classista, genderizada e racializada. Ao passo que os esforços para a mitigação são convenientemente recobertos com a retórica de que “estamos todos juntos nisto”, as práticas, particularmente por parte dos governos nacionais, sugerem motivações mais sinistras. A classe trabalhadora dos Estados Unidos dos dias de hoje (que inclui predominantemente Afroamericanxs, Latinxs e mulheres assalariadas) está perante a escolha terrível de contaminação em nome do cuidado ou manter os sistemas de provisão (como as lojas) abertas, ou cair no desemprego sem benefícios (como um cuidado adequado de saúde). O pessoal assalariado (como eu) trabalha em casa e recebe o seu pagamento enquanto os CEO viajam em jatos privados e helicópteros.

A força de trabalho em quase todo o mundo foi socializada desde há muito para se comportar como bons súbditos neoliberais (o que significa auto culpabilizarem-se, ou a Deus, se alguma coisa corre mal, mas nunca sugerir que o capitalismo possa ser o problema). Mas mesmo os bons súbditos neoliberais podem perceber que há alguma coisa errada na forma como se está a responder a esta pandemia.

A grande questão é: quanto tempo é que isto vai durar? Poderia ser mais de um ano e, quanto mais demora, maior a desvalorização, incluindo da força de trabalho. Os níveis de desemprego vão certamente subir para níveis comparáveis aos dos anos 1930, na ausência de intervenções públicas massivas, que iriam contra a preferência neoliberal. As ramificações imediatas para a economia como para a vida social são diversas. Mas não são todas negativas. O grau excessivo do consumismo contemporâneo aproximava-se do que Marx descrevia como “sobreconsumo ou consumo insano, significando, à medida que se aproxima do monstruoso ou do bizarro, a queda” do sistema. A insensatez do sobreconsumo desempenhou um papel fundamental na degradação ambiental. O cancelamento de viagens aéreas e a redução radical dos transportes tem um efeito positivo quanto às emissões de gases com efeito estufa. A qualidade do ar em Wuhan melhorou muito, tal como em muitas cidades dos EUA. Os cisnes voltaram aos canais de Veneza. Na medida em que o consumismo insensato seja reduzido, poderá haver benefícios de longo prazo. Menos mortes no Evereste pode ser uma boa coisa. E, apesar de ninguém o dizer em voz alta, o enviesamento demográfico do vírus pode acabar por afetar a pirâmide etária com efeitos de longo prazo na Segurança Social e no futuro da “indústria do cuidado”. A vida diária desacelerará o que, para algumas pessoas, será uma benção. As regras sugeridas para o distanciamento social poderiam, se a emergência se prolonga, conduzir a mudanças culturais. A única forma de consumismo que quase de certeza vai ampliar-se será a economia “Netflix”, que em todo o caso já se baseia em espectadores compulsivos.

Na frente económica, as respostas têm sido condicionadas pelo modo do êxodo depois do crash de 2007-8. Isto conduziu a uma política monetária ultra -laxista, combinada com o resgate de bancos, suplementado por um aumento dramático no investimento através de uma expansão massiva do investimento infraestrutural na China. Mas este não pode ser repetido à escala necessária. Os programas de resgate de 2008 centravam-se nos bancos mas abrangiam igualmente a nacionalização da General Motors. É talvez significativo que, em face dos trabalhadores descontentes e da queda da procura, as três grandes empresas de automóvel de Detroit fechem, pelo menos provisoriamente.

Se a China não pode repetir o que fez em 2007-8, então o fardo da saída da crise económica desloca-se para os Estados Unidos e aqui está a última das ironias: as únicas decisões que funcionam, tanto económica como politicamente, são muito mais socialistas do que as que Bernie Sanders poderia propor e esses programas de resgate terão que ser iniciados sob a égide de Donald Trump, presumivelmente sob a máscara de Making America Great Again.

Todos os republicanos que eram tão visceralmente opostos ao resgate de 2008 terão agora que desafiar Donald Trump. Este, se for sensato, deveria cancelar as eleições com base na emergência e declarar o início de uma presidência imperial para salvar o capital e o mundo da “revolta e revolução”.

Artigo originalmente publicado na Jacobin. Reprodução da disponibilizada pelo esquerda.net.

Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
“Enquanto os efeitos sanitários e econômicos da Covid-19 seguem fazendo-se sentir, escancarando a crise global do capitalismo, as lutas na América Latina começam a apresentar importantes conquistas no enfrentamento da extrema-direita continental. Na Bolívia, após meses de enfrentamentos e mobilização popular, a contundente vitória da chapa do MAS pôs fim ao governo ilegítimo e reacionário de Jeanine Áñez. No Chile, após as multitudinárias manifestações de 2019, o plebiscito levou a uma vitória esmagadora em favor de uma nova constituição elaborada por assembleia exclusiva. Na campanha eleitoral estadunidense em curso, está em jogo a possibilidade de derrotar o trumpismo, que anima movimentos neofascistas e racistas naquele país e em todo o mundo. Ao mesmo tempo, as eleições municipais brasileiras abrem a possibilidade de construir uma alternativa nas cidades que contribua para isolar e derrotar o bolsonarismo. A décima oitava edição da Revista Movimento debruça-se sobre esses processos de mobilização nas ruas e de enfrentamento eleitoral em curso”.