Disputa por terras raras expõe ofensiva dos EUA sobre riquezas brasileiras
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Disputa por terras raras expõe ofensiva dos EUA sobre riquezas brasileiras

Compra da Serra Verde reacende debate sobre soberania, pressões geopolíticas e impactos socioambientais da mineração no país

Tatiana Py Dutra 23 abr 2026, 15:17

Foto: Divulgação

A venda da mineradora brasileira Serra Verde para a norte-americana USA Rare Earth, por cerca de US$ 2,8 bilhões, colocou o Brasil no centro de uma disputa global por recursos estratégicos e acendeu alertas sobre soberania, modelo econômico e impactos ambientais. O negócio, financiado em parte pelo próprio governo dos Estados Unidos, não é apenas uma transação comercial – é um movimento geopolítico em larga escala.

As chamadas terras raras são um conjunto de 17 elementos químicos, como neodímio, disprósio e térbio, essenciais para tecnologias modernas. Elas estão presentes em veículos elétricos, turbinas eólicas, smartphones e, sobretudo, em equipamentos militares de alta precisão. Apesar do nome, não são exatamente raras, mas sua extração é complexa, cara e altamente poluente.

Hoje, a China domina esse mercado: responde por mais de 90% da produção de ímãs de terras raras e concentra a maior parte das etapas industriais – da extração ao refino. É justamente essa hegemonia que os Estados Unidos buscam quebrar. O ex-presidente Donald Trump já tratou o tema como prioridade estratégica, vinculando diretamente esses minerais à segurança nacional e à indústria bélica.

A riqueza ficará com os gringos

Nesse contexto, o Brasil surge como peça-chave. O país possui uma das maiores reservas globais e, até recentemente, contava com apenas uma operação em escala comercial: a Serra Verde, em Minaçu (GO). Com a aquisição, os EUA garantem acesso direto a uma fonte considerada estratégica – especialmente porque é a única fora da Ásia capaz de produzir, em escala, elementos críticos.

Mas o desenho do negócio escancara uma velha lógica: a exportação de matéria-prima com baixo valor agregado. Segundo os planos anunciados, o Brasil continuará responsável pela etapa inicial – a extração – enquanto o processamento e a industrialização ocorrerão nos Estados Unidos e na Europa. Ou seja, a riqueza maior segue para o Norte Global.

Essa dinâmica não é nova. 

“No Brasil, o discurso dominante é o de que exportar a nossa riqueza traz riqueza para nós. A questão é se realmente essa riqueza é reinvestida nos setores produtivos – normalmente ela não é”, afirmou a pesquisadora Luiza Cerioli, da Universidade de Kassel, em entrevista à Agência Pública. Segundo ela, esse modelo tende a gerar “economias de enclave”, com poucos empregos e baixa integração local.

Parlamentares do PSOL denunciam Caiado à PGR

Além da dimensão econômica, a disputa envolve interesses políticos internos. O governador de Goiás, Ronaldo Caiado, articulou acordos diretos com os EUA para viabilizar investimentos no setor, o que gerou críticas por possível violação de competências da União. Para setores progressistas, trata-se de uma atuação que favorece interesses estrangeiros em detrimento da soberania nacional.

Diante disso, os deputados Sâmia Bomfim, Fernanda Melchionna e Glauber Braga, do PSOL,  protocolaram denúncia na Procuradoria-Geral da República (PGR), pedindo a anulação da venda e a responsabilização de Caiado. Na avaliação dos parlamentares, houve uma espécie de “entrega” de um recurso estratégico nacional com participação direta de agentes públicos estaduais.

O avanço da exploração também coincide com a tramitação, no Congresso, de um projeto que institui a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, com forte ênfase na atração de investimentos privados – inclusive estrangeiros. Para críticos, a proposta pode abrir caminho para ampliar a presença de multinacionais no controle dessas reservas.

Por trás desse lobby, há interesses evidentes: grandes empresas buscam acesso a matérias-primas baratas; políticos alinhados ao mercado defendem a entrada de capital externo como motor de “crescimento”; e potências globais enxergam as terras raras como peças-chave em disputas tecnológicas e militares. Já os interesses menos explícitos envolvem a reprodução de um modelo dependente, que historicamente manteve o Brasil como exportador de recursos naturais.

O preço da extração

A conta ambiental, no entanto, tende a ficar no país. A mineração de terras raras exige a remoção de grandes volumes de solo e o uso intensivo de produtos químicos tóxicos para separar os elementos. O processo gera rejeitos potencialmente radioativos e pode contaminar água, solo e cadeias alimentares.

Estudos e debates acadêmicos recentes apontam que esses minerais apresentam riscos genotóxicos e podem afetar sistemas metabólicos e imunológicos. Em regiões como o Rio Grande do Sul, onde há projetos de exploração, especialistas alertam para o agravamento de cenários já críticos de poluição por metais pesados.

Além disso, experiências passadas com mineração no Brasil, como em Mariana e Brumadinho, reforçam o temor de novos desastres socioambientais. Mesmo assim, segundo relatos de pesquisadores, os impactos ainda são frequentemente subestimados em debates institucionais.

Para o governo de Luiz Inácio Lula da Silva, o desafio é equilibrar exploração econômica e soberania. O presidente tem defendido maior controle estatal e agregação de valor no país.

 “O que nós não vamos permitir mais é que as nossas terras raras sejam exploradas como foi o minério de ferro durante tantos anos. A gente só cava o buraco e manda o minério para fora para depois comprar produtos manufaturados”, afirmou.

O desfecho dessa disputa ainda está em aberto. Mas a venda da Serra Verde já expõe um dilema central: entre aprofundar um modelo extrativista subordinado aos interesses externos ou construir uma política soberana que priorize desenvolvimento interno, proteção ambiental e controle público sobre recursos estratégicos.


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