Fernanda Melchionna: ‘Há um acordão para barrar a CPMI do Master’
Deputada que articulou o requerimento da CPMI afirma que Centrão e extrema direita atuam contra a investigação; apesar da pressão pela comissão, defende que votação do fim da 6×1 no Senado deve ser prioridade
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A instalação da CPMI do Banco Master tornou-se um dos principais pontos de tensão no Congresso Nacional. Embora o requerimento já tenha alcançado o número de assinaturas exigido pela Constituição, a comissão segue sem sair do papel devido à ausência de leitura do pedido pelo presidente do Congresso, Davi Alcolumbre. Entre os parlamentares que mais pressionam pela abertura da investigação está a deputada federal Fernanda Melchionna (PSOL-RS), autora da iniciativa ao lado de Heloísa Helena (Rede-RJ). Foram elas que lideraram a articulação responsável por reunir as assinaturas necessárias na Câmara e no Senado para viabilizar formalmente a comissão.
O objetivo da CPMI é investigar a atuação do banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, e uma série de operações financeiras, relações políticas e possíveis irregularidades envolvendo recursos públicos. Nos últimos meses, o escândalo ganhou novos contornos após a divulgação de mensagens e áudios que apontam a proximidade entre Vorcaro e integrantes da família Bolsonaro. Entre os episódios mais repercutidos está a atuação do senador Flávio Bolsonaro em pedidos de recursos ao banqueiro para financiar um filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro, ampliando as suspeitas sobre a relação entre o empresário e a extrema direita brasileira.
Para Melchionna, a resistência à instalação da comissão não é casual. Na avaliação da parlamentar, existe um entendimento entre setores do Centrão e da extrema direita para impedir que a investigação avance e exponha conexões entre agentes do sistema financeiro, políticos influentes e autoridades públicas. Ela sustenta que uma apuração aprofundada poderia alcançar figuras poderosas em diferentes esferas de poder, incluindo governos estaduais, parlamentares e integrantes do Judiciário.
Ao mesmo tempo, a deputada avalia que o avanço do calendário eleitoral de 2026 impõe novos desafios à pauta. Embora defenda a continuidade da mobilização pela CPMI do Banco Master, Melchionna afirma que a principal batalha política da esquerda no Congresso deve ser a aprovação definitiva do fim da escala 6×1. A proposta, aprovada pela Câmara dos Deputados, ainda depende de análise do Senado e enfrenta resistência de setores empresariais e conservadores. Segundo a parlamentar, garantir a votação da medida antes que o processo eleitoral domine completamente a agenda legislativa é fundamental para assegurar uma conquista concreta para a classe trabalhadora.
Nesta entrevista, Fernanda Melchionna fala sobre os obstáculos à instalação da CPMI, as suspeitas envolvendo Daniel Vorcaro e a família Bolsonaro, as tentativas de instrumentalização política das investigações e os desafios para fazer avançar, simultaneamente, a apuração do escândalo e a luta pela redução da jornada de trabalho no Brasil.
Na sua avaliação, o que explica a resistência política à CPMI? Há hoje um “acordão” suprapartidário para impedir que a comissão avance?
Com certeza existe um “acordão”, uma tentativa, primeiro do Centrão, de se proteger diante de um dos maiores escândalos de corrupção, se não o maior, da nossa história. que mostra os tentáculos criminosos entre o banqueiro corrupto Vorcaro e o sistema político – o sistema político legislativo, o sistema político executivo e também do judiciário. E a gente sabe que embora a extrema direita, de forma demagógica, tenha dito que queria a CPMI, na verdade ela não queria. Queria era endereçar a investigação para enfraquecer o STF, usar como narrativa para tentar ter maioria no STF no processo eleitoral de 2026, mas não querem investigar. Isso porque qualquer investigação séria vai mostrar esses tentáculos do Vorcaro com a própria família Bolsonaro e a extrema direita, vide os últimos áudios, que todos acompanharam, do Flávio Bolsonaro e dos milhões do Vorcaro, que “financiou” o filme. E essa investigação também tem que existir. Nós temos a convicção de que esse dinheiro foi usado para bancar a vida de luxo dos delinquentes da família Bolsonaro e também para a campanha da extrema direita no Brasil.
Então, esse “acordão” é evidente. Inclusive, para votar a derrubada do veto da Anistia, a extrema direita fez esse acordo com o Alcolumbre, de que não teria CPMI e se colocava para votar. Só que eles não esperavam que a gente conseguisse coletar as assinaturas. Pois Heloísa Helena e eu chegamos ao número total de assinaturas na Câmara do Senado justamente no dia da votação do veto da Anistia. E não cabe ao presidente decidir se instala ou não. A CPI é um instrumento de minoria, sempre existiu como tal. Por isso que nós seguimos fazendo essa denúncia política.
O requerimento que você e Heloísa encaminharam fala em investigar possíveis fraudes financeiras, operações suspeitas e prejuízos ao interesse público. Na prática, quais são as perguntas centrais que o Congresso precisa responder sobre o colapso do Banco Master e sobre o papel do banqueiro Daniel Vorcaro nesse escândalo?
Toda a teia de corrupção. Porque, na verdade, existe uma teia anterior, na própria constituição do Master, da questão dos títulos podres que foram adquiridos por governos estaduais – como o caso do Rio de Janeiro, que significa aposentadoria dos servidores no Rio de Janeiro, o fundo de previdência. O próprio escândalo envolvendo o Ibaneis Rocha e a compra, por parte do BRB, desses títulos podres – aliás, muito bem enfrentado pela bancada nossa bancada distrital do PSOL, pelo Fábio Félix -, e que evidentemente tem a ver com o dinheiro público que foi usado para financiar essa rede de corrupção. É uma rede que só existe pelo dinheiro público, pelos tentáculos anteriores que sustentaram o padrão de vida de privilégios, festas, luxo etc, etc. E não só isso, mas também uma estratégia de poder, porque se a gente pega a relação do Vorcaro com o Zettel, e o financiamento do Zettel à candidatura do Jair Bolsonaro em 2022; se a gente pega o financiamento do Vorcaro agora para o suposto filme, mas que a gente sabe que é financiamento da extrema direita; se a gente pega a própria utilização de jatinhos pelo Nikolas Ferreira para fazer campanha, a gente vai ver uma combinação de um projeto político reacionário, mas não só. Não é só a extrema direita que usa esse modus operandi, tem a ver com o sistema de funcionamento dessa institucionalidade, digamos assim, mas também uma lógica de financiamento desses privilégios, desses agentes políticos e dessa rede de corrupção. Então tem muita coisa para investigar, como a atuação de muitos agentes públicos, etc. E eu acho que o tempo da CPMI é muito importante porque é mais rápido que o tempo da justiça.
A extrema direita, especialmente o senador Flávio Bolsonaro, passou a defender a instalação da CPMI depois que vieram à tona as mensagens e áudios envolvendo pedidos de recursos a Daniel Vorcaro para financiar um filme sobre Jair Bolsonaro. Ao mesmo tempo, Flávio tenta transformar a comissão num palco para atacar o presidente Lula e ministros do STF. Como a senhora interpreta essa tentativa de inverter o foco do escândalo e produzir uma narrativa de “todos são iguais”?
Eles tentaram jogar a responsabilidade do escândalo Master para o colo do PT e do Lula, tentando desassociar da extrema direita e do centrão, e focando nos ministros do Supremo Tribunal Federal, como uma forma de desgastar o STF – além de fortalecer a estratégia de eleger gente da extrema direita para que eles tenham dois terços do Senado e assim poder mudar a configuração e a correlação de forças dentro do Supremo para o futuro, aos moldes do que o Trump fez nos Estados Unidos. Então era mais narrativa, era tentar mais botar a ideia da corrupção para o governo e o Supremo, só que evidentemente nós queremos investigar doa a quem doer, custe o que custar. Queremos investigar o Rio de Janeiro, queremos investigar o Distrito Federal, queremos investigar a Bahia, queremos investigar tudo que pode ter financiado as redes, os contratos com o Vorcaro; essas mesadas que ele dava, por exemplo, ao Ciro Nogueira e qualquer agente público. Houve a tentativa de fazer como fizeram no INSS, um escândalo de corrupção no INSS nasceu no governo Bolsonaro. Todas as condições foram dadas no governo Bolsonaro e, na verdade, embora tenha demorado, no governo Lula, para se sanar, o fato é que houve investigação da Polícia Federal, enfim, dos órgãos de controle. Agora essa narrativa cai por terra com a chegada das investigações que colocam Flávio Bolsonaro no centro do debate com o Vorcaro, nas relações, na grana, nessas relações promíscuas.
Parte da direita bolsonarista tem tratado a CPMI quase como uma reedição da Lava Jato, tentando usar a investigação como instrumento eleitoral em 2026. Existe o risco de a extrema direita sequestrar uma comissão legítima de investigação para transformá-la numa operação de espetáculo, desinformação e blindagem dos próprios envolvidos? Como impedir que isso aconteça?
Olha, sempre tem riscos em tudo. Acho que depende sempre da correlação de forças, no sentido da pressão de fora para dentro da Câmara. É importante mostrar que só a esquerda socialista pode ser consequente na luta contra a corrupção, que é endêmica esse modo de exploração e expropriação, que é o capital. O capitalismo não se financiaria sem o dinheiro público. Financiar interesses privados, seja para negócios escusos, seja para roubalheira como a gente vê num país de capitalismo independente como o Brasil. Então eu acho que a gente tem que ser coerente com a nossa própria história, a nossa própria história de enfrentamento aos interesses dos poderosos, do capital, do sistema financeiro. Primeiro isso. Dois: é justamente a mobilização de fora para dentro que pode, sim, determinar que não aconteça isso, que não seja sequestrado, como aconteceu, inclusive, na CPMI do INSS. E três: a gente tem que fazer muita agitação no caso do Bolsomaster, porque isso mostra a característica endêmica da própria extrema direita. Se o capitalismo só se financia com dinheiro público, e a gente sabe dessas características corruptas, também é verdade que a extrema direita é a parte mais podre do capitalismo, com os métodos mais delinquentes de roubo de dinheiro público. Eu sempre disse que os Bolsonaro são “batedores de carteira”, digamos assim – vocês lembram, roubar joia, roubar isso, roubar aquilo, além da relação com milícias. Só que eles querem acabar com as liberdades democráticas para que a gente não possa lutar, se auto-organizar. E a gente quer derrotar a extrema direita para que a gente tenha liberdades democráticas, mas não para dizer que esse sistema está ótimo, e sim para construir um outro sistema. Então, eu acho que é um pouco o desafio do nosso tempo, inclusive no enfrentamento à corrupção, e por isso eu acho que é muito importante seguir lutando pela investigação e denunciando o Bolsomaster.
Caso a CPMI do Banco Master continue sendo bloqueada, quais devem ser as principais frentes de mobilização da esquerda nos próximos meses?
Olha, nós vamos seguir agitando, lutando, etc. É óbvio que uma investigação dessa monta poderia, assim, chegar a poderosos. Se for a fundo, vai chegar em muita gente poderosa. Basta ver a lista de telefone do Vorcaro, com quem no sistema ele se dava, quem não se dava, etc. Nós vamos seguir agitando, denunciando o centrão por não estar lá, o acordão da extrema direita com o centrão para não ter investigação. Mas a gente sabe que daqui a pouco o calendário eleitoral vai se impondo e, ao mesmo tempo, nós temos que exigir que o Senado paute a PEC 6×1. Isso tem que ser o centro da nossa luta política nesse momento, porque a gente sabe que os poderosos, a extrema direita, a burguesia, que não querem direitos para a classe trabalhadora, apostam em trancar o projeto no Senado ou desidratá-lo para que ele não seja votado até a eleição. O fato de ser votado o fim da escala de 6×1 no ano de eleição é que nos dá uma condição de pressionar, de fora para dentro na Câmara, e ter conquistas. Claro, combinado com a mobilização de redes e combinado com as mobilizações de rua. É também importante discutir um dia de mobilização para que a gente possa potencializar a luta para que o Senado enfrente o fim da escala 6×1.