A nova corrente socialista nos EUA e a Convenção do Bread & Roses/DSA
Sobre a Convenção do Bread & Roses, organização interna dos Socialistas Democráticos da América (DSA), e os desafios dos marxistas no país
Foto: Convenção do caucus Bread & Roses do DSA. (Reprodução)
Vivemos uma época marcada pelo perigo do neofascismo e do autoritarismo, que se espalham pelo mundo e têm sua expressão máxima no genocídio em Gaza. Ao mesmo tempo, também assistimos a uma reação que se desenvolve em numerosos países, protagonizada principalmente pela juventude — a geração Z —, mas que abrange também setores populares, mulheres e trabalhadores.
Um dos pontos decisivos dessa situação de polarização encontra-se nos Estados Unidos. É ali que se concentram muitas das contradições do capitalismo mundial e onde também é possível antecipar parte de seu futuro.
Bread and Roses (B&R) é uma corrente do DSA (Democratic Socialists of America) que realizou sua convenção em outubro, da qual participamos. Trata-se de uma expressão desse novo fenômeno político. Não é por acaso que seu documento nacional para a Convenção começa com uma frase que vale a pena recordar diante do futuro imediato. Esses companheiros, marxistas consequentes e construtores de uma corrente interna no DSA, afirmam:
“Estamos vivendo uma década que fortaleceu enormemente a direita reacionária e, ao mesmo tempo, criou uma abertura histórica para uma nova esquerda socialista democrática” (grifo nosso).
Essa abertura histórica já começou a tomar forma na nova onda socialista que se desenvolve no país. Desde o Brasil, acompanhamos a situação dos Estados Unidos há dez anos e meio. No início de 2016, presenciamos a primeira onda socialista, quando Bernie Sanders, senador independente, atraiu com sua candidatura à Presidência nas primárias democratas — sob as palavras de ordem de uma revolução política e da tributação das grandes fortunas — uma multidão de novos apoiadores que começaram a despertar para uma consciência socialista.
Esse fenômeno voltou a se expressar nas primárias de 2020, quando Bernie Sanders apresentou novamente sua candidatura, embora tenha acabado se retirando da disputa e Joe Biden tenha vencido as primárias democratas. Mais uma vez, a bandeira da revolução política esteve presente.
A nova corrente socialista
A situação atual, como aponta acertadamente o documento que citamos, constitui uma “abertura histórica” para o desenvolvimento de uma corrente socialista de massas. Trata-se de um processo muito mais rico do que as ondas anteriores: mais consistente, mais político e com maior desenvolvimento programático.
É o resultado de importantes jornadas de mobilização contra Trump e sua política de perseguição aos imigrantes. Também expressa a resposta dos estudantes por meio dos acampamentos universitários contra a guerra em Gaza e em defesa da Palestina. Soma-se a isso o surgimento de uma nova organização sindical e de importantes experiências de organização dos trabalhadores em empresas como Amazon e Starbucks, entre caminhoneiros, professores e enfermeiros.
A nova onda socialista é a expressão política dessa situação. Desenvolve-se em meio a um importante desgaste de Trump e a um avanço na consciência de setores das massas, que começam a compreender o caráter neofascista de seu governo.
Expressa também a incapacidade do Partido Democrata de oferecer uma resposta. O documento nacional apresentado por B&R aponta que “o Partido Democrata está mergulhado em uma das crises mais graves de sua história”.
Não é por acaso que, em Nova York, uma das cidades mais importantes do mundo, Zohran Mamdani, um socialista democrático de origem muçulmana que defende a causa palestina, o congelamento dos aluguéis e uma série de medidas progressistas contra a oligarquia imobiliária, tenha vencido as eleições.
Trata-se também de um processo politicamente mais rico porque possui um marcado conteúdo anti-imperialista, como consequência da rejeição de um setor importante da sociedade ao apoio de Trump ao genocídio em Gaza.
Por isso, como afirma o documento citado, estamos diante de um processo de “caráter histórico”. Ou seja, não se trata de um fenômeno conjuntural ou episódico, mas de um processo que coloca novas tarefas para o futuro. Uma das principais é a construção de uma nova alternativa operária e socialista de massas. A base para avançar nessa direção é hoje o fortalecimento do DSA como organização independente, em cujo interior atua a corrente marxista Bread and Roses.
A Convenção
Nesse contexto geral, a Convenção de Bread and Roses expressou o entusiasmo de uma organização jovem, em permanente evolução, que se reúne para debater as tarefas colocadas pela nova situação.
B&R conta hoje com cerca de 400 militantes. Vale destacar que, dos 150 delegados presentes, aproximadamente metade são trabalhadores inseridos no trabalho sindical de base (rank and file). A juventude também esteve muito bem representada, com delegados que participaram da linha de frente dos acampamentos pró-Palestina.
Os principais pontos de discussão foram a situação nacional, o trabalho no movimento operário, a intervenção na juventude e a situação internacional.
Vale destacar também a presença do MES-PSOL do Brasil, que teve um papel de destaque como um dos expositores no ponto internacional, assim como a participação do MSP do México e do Marabunta da Argentina. Todas essas organizações integram a IV Internacional.
A candidatura presidencial de Ocasio-Cortez
A discussão nacional abordou a expressão eleitoral dessa nova situação. Depois das eleições de meio de mandato, Trump poderá sair ainda mais enfraquecido, enquanto as eleições presidenciais de 2028 começarão a ocupar um lugar central na agenda política.
A Convenção, levando em conta esse cenário e a crise de representação do Partido Democrata, decidiu pela necessidade de desenvolver uma política ousada, impulsionando desde já a candidatura presidencial de Alexandria Ocasio-Cortez.
A resolução afirma:
“Existe uma oportunidade sem precedentes para a esquerda na rebelião eleitoral contra os dirigentes democratas. Devemos aproveitá-la. (…) Os socialistas democráticos superaram o aparato do Partido Democrata para eleger o prefeito da cidade de Nova York, ampliaram nossa presença no Congresso e conquistaram uma série de cadeiras em legislativos estaduais e câmaras municipais. Em 2027 e 2028, devemos continuar aproveitando ao máximo a crise dentro do Partido Democrata para impulsionar ainda mais nosso projeto eleitoral. Esperamos que isso inclua o apoio a um candidato presidencial nas primárias; e, se a congressista Alexandria Ocasio-Cortez decidir se candidatar, o DSA deve apoiá-la”.
Cabe esclarecer que a resolução foi mais precisa em sua formulação política ao propor impulsionar desde já sua candidatura presidencial, e não se limitar a contemplar essa possibilidade.
Fortalecer o trabalho de base nos sindicatos
Bread and Roses — e nos arriscamos a dizer que o conjunto do DSA — tem uma forte identificação com a classe trabalhadora. Isso se reflete no importante trabalho que vem desenvolvendo nos sindicatos.
Dos delegados presentes na Convenção, aproximadamente 50% estão inseridos nas estruturas sindicais de base (rank and file): participam de oposições sindicais às burocracias, dirigem seções sindicais locais ou trabalham como organizadores sindicais.
Existe uma contradição entre a fragilidade atual dos sindicatos e a simpatia muito mais ampla que existe na sociedade em relação à necessidade de organização sindical.
As intervenções sobre o trabalho sindical foram muito ricas. Os companheiros também participam do Labor Notes, um importante polo de organização e elaboração da esquerda sindical, que defende a organização a partir das bases e a democracia sindical. Em sua última conferência, participaram cerca de 4.000 ativistas. Certamente, sua influência crescerá a partir das conquistas sindicais obtidas nos últimos anos.
Hoje em dia, B&R lidera o Comitê Sindical do DSA. Na Convenção, aprovou-se um extenso documento sobre o tema, reafirmando os princípios sindicais da organização e renovando o comprometimento dela com a construção de oposições sindicais, o Labor Notes e áreas estratégicas para a inserção da militância, como educação, saúde e logística. O documento também situa politicamente a visão sindical do grupo, articulando a intervenção nos sindicatos às disputas políticas e elitorais mais amplas encabeçadas por DSA, seja contra Trump desde já, seja no horizonte de construção de uma greve geral em maio de 2028.
Outro avanço importante: a juventude
A organização juvenil do DSA, YDSA, também cresceu. Bread and Roses conta com dois copresidentes (co-chairs) em sua direção, o que reflete a importância de sua inserção nesse setor.
A juventude é um dos componentes fundamentais da nova corrente socialista e uma das forças que mais dinamismo trazem a esse processo. Na convenção, estiveram representadas universidades importantes do país, como a Universidade de Oregon, que no ano passado abrigou uma histórica greve estudantil. Igualmente as principais universidades identificadas com os acampamentos em apoio à Palestina, como Columbia, CUNY e outras.
A juventude do B&R também se destaca por seu claro internacionalismo, com grande parte dos jovens membros da organização se dedicando a construir laços internacionais, ensinar e aprender em contato com outros ativistas do mundo.
Bread and Roses pratica um internacionalismo ativo
O documento sobre as tarefas internacionais situa B&R em uma política claramente distante do campismo, defendendo a solidariedade com as lutas da América Latina como parte de sua própria luta. Assim como participaram ativamente da Conferência Antifascista de Porto Alegre, agora se propõem a:
“Ajudar no planejamento e na direção da Conferência Regional Antifascista que está prevista para ocorrer no México na primavera de 2027. B&R se reunirá com companheiros envolvidos na direção da Conferência Antifascista, integrará o comitê organizador dessa conferência e organizará o apoio do DSA”.
Ao mesmo tempo, o internacionalismo ativo de B&R tem se confrontado com as tendências campistas existentes na Comissão Internacional do DSA, que no passado sustentou posições de apoio a governos como os de Maduro na Venezuela e Ortega na Nicarágua.
Um dos aspectos mais importantes de sua política internacionalista tem sido o desenvolvimento de relações com outras organizações socialistas. O documento destaca especialmente a relação com o MES-PSOL do Brasil:
“Isso se deu por meio das relações que estabelecemos com outras organizações socialistas. Tomemos como exemplo o MES-PSOL (uma tendência do Partido Socialismo e Liberdade do Brasil). Os organizadores de B&R vêm construindo uma aliança estratégica com o MES para trocar experiências sobre como combater a extrema direita e construir uma alternativa política socialista independente por meio do DSA e do PSOL. Reunir-nos com tendências marxistas e organizações socialistas de todo o mundo, como B&R, é um trabalho essencial e estratégico que nos ajuda a compreender o capitalismo global e os efeitos do imperialismo estadunidense, o que, por sua vez, desenvolve nosso programa político, nossas análises e nossas abordagens organizativas para o trabalho eleitoral, sindical, social e estudantil”.
Embora B&R não tenha um alinhamento orgânico com nenhuma organização internacional, a Convenção autorizou um grupo de seus membros a construir um grupo de Amigos da IV Internacional, que decidiu estabelecer relações com nossa organização internacional para trocar experiências, transmitir seus aprendizados e compartilhar suas análises.
A importância dos Estados Unidos na situação mundial
Os Estados Unidos, apesar de seu declínio hegemônico, continuam sendo a principal potência imperialista do mundo. São também, sob Trump, o centro de irradiação do neofascismo que se espalhou para outros países.
Neste último período, estamos assistindo a uma nova onda de lutas em muitos países, protagonizada essencialmente pela juventude. Essa juventude que, tempos atrás, expressou sua reação antissistema votando em dirigentes de ultradireita — como ocorreu com Milei na Argentina — está começando a mudar sua orientação política.
A situação atual mostra uma guinada à esquerda de setores da juventude, que começam a se apoiar em sua própria mobilização contra esses mesmos governos e levantam novas bandeiras e reivindicações. É o que se observa, por exemplo, nas mobilizações juvenis europeias em defesa da educação, a partir do levante francês. A juventude também tem sido um fator desencadeador de greves gerais e da incorporação dos trabalhadores à luta com suas próprias reivindicações.
Os Estados Unidos são um dos pontos centrais dessa nova situação. Vale a pena retomar uma reflexão de Trotsky, escrita durante seu exílio em Prinkipo, na Turquia, em um texto intitulado Trotsky Discusses World Situation, publicado em 12 de março de 1932. Nele, afirmava:
“Ao impor a ditadura do dólar sobre o mundo inteiro, a classe dominante dos Estados Unidos introduzirá as contradições do mundo inteiro nos próprios fundamentos de sua dominação”.
E continuava:
“A economia e a política dos Estados Unidos dependerão cada vez mais diretamente das crises, das guerras e das revoluções em todas as partes do mundo”.
Guardadas as devidas proporções — porque a crise capitalista atual é mais grave e estrutural do que a de 1932 —, essa análise conserva toda a sua atualidade. Seria necessário acrescentar agora um novo elemento: os Estados Unidos não apenas concentram as contradições da crise mundial, mas também se converteram em um dos principais cenários do movimento internacional que está se gestando contra o neofascismo.
É precisamente isso que ficou claro a partir de nossa visita aos Estados Unidos e de nossa participação na Convenção.
Como reflexão final
O DSA é uma organização socialista ampla e independente, em construção, com um regime interno democrático. Isso não significa que esteja isenta de problemas. Como ocorre em muitas organizações desse tipo, também podem surgir tendências a comportamentos burocráticos e, evidentemente, pressões eleitoralistas.
Mas o essencial, o mais importante, é que se trata de uma organização dinâmica, em construção independente, que ocupa um lugar privilegiado na corrente socialista que avança nos Estados Unidos. Conta com uma militância ativa e possui em seu interior uma corrente importante que se reivindica do marxismo revolucionário.
No país do norte, está se abrindo um espaço político que pode conduzir, no futuro, à construção de um partido independente de massas. O DSA e B&R, como parte desse processo, podem desempenhar um papel importante e contribuir para a construção de uma alternativa de poder.
Se isso acontecer, os trabalhadores dos Estados Unidos — que constituem uma das forças fundamentais da revolução socialista, que será mundial ou não será — ocuparão um lugar privilegiado na luta por um mundo novo.