O projeto Paes no Brasil 247: resposta ao artigo de Marco Damiani
Polêmica com a narrativa que a candidatura do PSOL no RJ prejudica o projeto de Lula
As eleições são um retrato distorcido da realidade e é comum que, em regra, a maioria do povo brasileiro gira seu olhar para a política durante o período eleitoral, sobretudo quando se trata do pleito presidencial. De tal forma, qualquer organização política séria que se propõe disputar o poder no Brasil não pode virar as costas para esse fato. No entanto, para além das eleições, que chegam e passam de dois em dois anos, a luta de classes e a disputa ideológica permanecem sendo pauta cotidiana dos trabalhadores organizados e das esquerdas que não resumem sua existência no loteamento institucional.
Isto posto, vamos começar a limpar o terreno indo para o concreto. O Diretório Nacional do PSOL deliberou que o partido apoiará a candidatura Lula desde o primeiro turno das eleições. Essa posição, sem passar por um debate prévio de candidatura própria em âmbito nacional, é inédita e corresponde à necessidade concreta da construção de um dique de contenção ao avanço da extrema-direita fascista e ultraliberal em nosso continente e no mundo. Portanto, para uma parte robusta do PSOL, o voto em Lula no 1o turno corresponde muito mais a uma negação imediata ao perigo da besta, expressada na candidatura de Flávio Bolsonaro (que conta com o endosso de Trump e com Milei como cabo eleitoral), do que numa convergência de projetos para governar o país sob o guarda-chuva de um futuro quarto governo de colaboração de classes dirigido por Lula.
Ademais, Boulos, tão mencionado no artigo “Candidatura do Psol no Rio prejudica o projeto de Lula, que é Eduardo Paes” (29/07/2026) de Marco Damiani, após seu giro à direita que descrevi no texto “Boulos, o novo Freixo?” [1] e [2], sofreu uma derrota acachapante de 75% a 25% em seu movimento de tentar colocar o PSOL na Federação Brasil da Esperança hegemonizada pelo PT. A razão pela qual Boulos ter adotado essa linha de submissão do PSOL ao lulopetismo já foi fartamente debatida numa longa polêmica pública, com ampla repercussão na vanguarda militante e também na imprensa burguesa. Em todo caso, a conclusão direta dessa política derrotada se traduz no ensaio do iminente deslocamento de Boulos e do que sobrou de sua corrente, Revolução Solidária, para o PT. Contudo, tal travessia ainda não foi concluída. As figuras públicas ligadas à liderança de Guilherme Boulos irão se apresentar nessas eleições pela legenda do PSOL por uma questão meramente legal e de cálculo eleitoral. No entanto, na prática, Boulos e seus correligionários são uma tendência externa do PT, aguardando o momento certo para ingressarem no partido de Lula e no campo à moderado dessa legenda.
Portanto, embora possa parecer real no senso comum, não passa de conversa fiada a narrativa entre a vanguarda militante de que o PSOL possui “ministérios no governo Lula”, além de ter “um homem de confiança do presidente”. Na vida concreta, a coisa é outra, uma vez que a Secretário-geral da Presidência da República e Ministério dos Povos Indígenas estiveram longe das políticas e do programa psolista. Mas não só, a presença de Sônia Guajajara no governo Lula 3 foi uma concessão do partido em nome de uma reivindicação do movimento indígena e a presença de Boulos, por sua vez, não correspondeu a nenhuma deliberação oficial. Quer dizer, Boulos aceitou o convite como parte de um movimento consciente que ele próprio vinha construindo como fração pública de integração orgânica à direção lulopetista e ao projeto de “melhorismo” social-liberal, adaptado sob acordos com frações da burguesia nacional.
Por isso, como um caminho de saída, Boulos jogou todas suas fichas na política liquidacionista da federação que significava diluir o DNA fundacional do PSOL, ou seja, a existência de um projeto partidário anticapitalista como alternativa à experiência de colaboração de classes do PT, em troca de um lugar privilegiado na hierarquia política e de sucessão de Lula. Assim sendo, não foi surpresa a tese oportunista da Revolução Solidária que relativizava o peso negativo das alianças espúrias e das chapas heterodoxias que o PSOL teria que aderir com frações da direita liberal e de oligarquias conservadoras pelo país, com hegemonia da família Barbalho no Pará, dos Calheiros em Alagoas, de Eduardo Paes no Rio de Janeiro, etc.
Esse é o cerne da questão ocultado no artigo de Marco Damiani do Brasil 247. O PSOL só se desenvolveu nacionalmente e chegou na condição de ser o maior partido da esquerda do Rio de Janeiro, porque optou por não sucumbir aos acordos pragmáticos e alianças espúrias que o PT decidiu fazer desde a intervenção de Lula que derrubou a candidatura própria de Vladimir Palmeira em 1998 e que em seu lugar, foi imposta uma composição com Garotinho. Depois disso, ainda vieram Sérgio Cabral e as prefeituras de Paes.
Durante todo esse período, marcado por escandalosos de corrupção e o crescimento vertiginoso das milicias, o PSOL foi ganhando musculatura e lastro social como um projeto próprio e programático, conectado com a defesa do funcionalismo público, além de ter sido parte canalizador da histórica greve dos bombeiros de 2011, protagonista da Primavera Carioca de 2012, soube vocalizar a revolta popular das jornadas de junho de 2013, foi linha de frente no apoio incondicional das greves dos profissionais da educação e dos garis. Tudo isso, sem contar com o prestígio ganho com a CPI das milícias, edificada no primeiro mandato psolista de Marcelo Freixo. Ou seja, o PSOL esteve de um lado e toda esquerda “Realpolitik”, incluindo grande parte do campo lulopetista, do outro. Não à toa, por muitas ocasiões, nosso partido foi taxado como sectário ou divisionista. No entanto, foi com essa política de independência que o PSOL chegou na condição de construir bancadas fortes, representativas e com peso social.
De tal maneira, o artigo “Candidatura do Psol no Rio prejudica o projeto de Lula, que é Eduardo Paes” de Marco Damiani, desmorona como um castelo de cartas em seu principal objetivo aparente, que é a eleição de Lula. Ora, mas se levássemos ao pé da letra as linhas do artigo que estou criticando, deveríamos estar falando de um PCdoB, que aplicou sem cerimônias a política defendida por Damiani e, pelo que parece, tal orientação não fez muito bem aos continuadores de João Amazonas. Porém, o que importa afinal é a seguinte indagação diante de uma demonstração simples: qual partido pode entregar mais votos para Lula no Rio de Janeiro, o PCdoB ou o PSOL? Qualquer pessoa que acompanha a política sabe a resposta. Portanto, cai por terra toda linha argumentativa do editor do Brasil 247 que, esse sim, aparenta estar mais preocupado com o triunfo de Eduardo Paes do que o próprio Lula. Logo, independentemente das pesquisas de intenção de votos, a prega do espantalho sobre a correta candidatura própria da federação PSOL-Rede, representada por William Siri, não passa de um desserviço consciente da infantaria de uma suposta realpolitik na mídia alternativa, que não tolera o lugar ao sol da esquerda que não teme dizer seu nome.