O PT é corrupto? Reflexões marxistas sobre a corrupção
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O PT é corrupto? Reflexões marxistas sobre a corrupção

O debate anticorrupção precisa ser feito pela esquerda radical tanto para disputar a indignação dos trabalhadores como para refletir sobre os perigos da cooptação pela ideologia burguesa

Letícia Chagas 7 jul 2026, 09:32

Imagem: Composição VII. (Vassily Kandinsky)

A população brasileira desconfia da política e dos políticos: 63% dos brasileiros não confia nos partidos políticos (1) e 96% da população não se sente representada pelos políticos eleitos (2). Basta uma conversa de bar, um bate papo no almoço de família ou uma conversa com um motorista de aplicativo para comprovar que essa desconfiança é bastante comum.

Parte dessa desconfiança se dá porque imagina-se que todo político é corrupto. Para 60% da população a corrupção é um dos maiores problemas do país (3), e a rejeição ao PT tem a ver com isso, aliás: uma pesquisa da Atlas Intel deste ano mostrou que o principal motivo da rejeição a Lula é a crença de que ele estaria ligado à corrupção (4).

Nas últimas semanas, a relação entre o PT e corrupção voltaram aos jornais: Jaques Wagner, senador petista e ex-governador da Bahia, foi acusado de ter recebido vantagens financeiras – entre elas, ingressos pra um show da Taylor Swift que custaram mais de R$60 mil (!!!!) – de Augusto Lima, um dos sócios de Daniel Vorcaro (dono do banco Master). Em troca, Wagner teria apresentado projetos de lei que beneficiariam o Banco Master.

Esse tipo de coisa dá munição para que o discurso anticorrupção seja capturado pela extrema direita que, de maneira dissimulada, acusa o PT de todos os infortúnios corruptos, como se a própria direita não fosse corrupta também. Exemplos não faltam: Valdemar Costa Neto, presidente do PL – o partido de Bolsonaro – foi preso no escândalo do mensalão; Flávio Bolsonaro foi acusado de fazer rachadinha, ou seja, usar parte do salário dos assessores de seu gabinete para benefício próprio.

Recentemente, Flávio envolveu-se em outro escândalo após a imprensa noticiar que ele e Daniel Vorcaro mantinham uma relação de proximidade, e Vorcaro teria doado milhões de reais para a gravação do filme de Jair Bolsonaro. Como a própria direita diz, “não existe almoço grátis”: impossível que Vorcaro tenha investido milhões nesse filme sem receber nada em troca, a não ser que ele seja a Madre Teresa de Calcutá.

A corrupção é um problema real, que acomete do petismo à extrema direita. E, se é um problema que incomoda a grande parte da classe trabalhadora, a esquerda revolucionária precisa debatê-lo, caso contrário a extrema direita continuará a cooptar a indignação das pessoas a respeito desse tema. Neste texto, quero propor algumas reflexões sobre a corrupção e a relação dos partidos políticos com ela. Minha intenção não é esgotar o debate, mas demonstrar a importância de fazê-lo.

  1. A corrupção é um problema real

A indignação da classe trabalhadora com casos de corrupção é mais do que justa. Diante da piora da qualidade de vida no Brasil, do endividamento dos trabalhadores, da precarização da saúde e da educação pública, seria estranho se as pessoas não se revoltassem ao ver ricaços e políticos enriquecendo às custas do Estado.

Essa indignação é parte da luta de classes, daí que não faz sentido que a esquerda revolucionária a ignore, ao contrário, é preciso disputar essa indignação. Mas, para fazer essa disputa, é necessário compreender o que é a corrupção e sua relação com o modo de produção capitalista. Só assim será possível refletir sobre o que efetivamente é capaz de acabar com ela.

Como afirma Biondi no texto “Capitalismo, forma jurídica e corrupção estatal” (5), a corrupção é algo intrinsecamente capitalista, ou seja, é algo próprio da forma estado capitalista. Isso porque, para existir corrupção, precisa haver uma separação entre o que é “público” (do estado) e entre o que é “privado”, uma separação que é violada diante de um ato corrupto. Essa separação não é natural, é histórica, e surge com o estado enquanto forma social capitalista. Biondi afirma que “no absolutismo, por exemplo, a fruição de benefícios pessoais em função de uma posição privilegiada no aparato político era a regra (privilégios aristocráticos), de sorte que a própria ideia de corrupção, com seu conteúdo atual, não poderia ter lugar”.

É apenas no capitalismo que o estado passa a ser uma forma social independente, impessoal e autônoma em relação à classe dominante, a burguesia. Lênin, em “O estado e a revolução” (6) explica que o estado se coloca acima das classes sociais, neutro em relação a elas. Mas isso, por si só, demonstra que apesar disso o estado é um órgão de dominação da burguesia, porque ao garantir a igualdade entre todos os “cidadãos”, o estado obscurece as diferenças de classe e age para impedir que a classe trabalhadora se rebele.

Lênin explica que, por esse motivo, o estado capitalista, na forma de uma república democrática, é a maneira mais inteligente de a burguesia assegurar seu poder, porque nela o capital consegue exercer seu poder de maneira indireta, “de modo tão sólido, tão seguro, que nenhuma substituição na república democrática burguesa, nem de pessoas nem de instituições, tampouco de partidos, abala esse poder”.

A dominação da burguesia se dá independente de um burguês estar no poder ou não. Caso contrário, viveríamos hoje em uma ditadura do proletariado, já que o presidente do país, o Lula, é em tese um (ex) metalúrgico. Assim, como explica Flávio Batista, “o Estado é burguês na sua própria condição de máquina estatal, e não no conteúdo direto de suas normas jurídicas ou na classe que efetivamente ocupa os postos de poder” (7).

É exatamente por conta do caráter impessoal do estado que, como afirma Biondi (8), o capitalismo precisa combater e, ao mesmo tempo, reproduzir a corrupção.

Deve-se perceber uma atitude altamente contraditória do capitalismo em relação à corrupção. De um lado, ele a combate, reiterando a separação formal entre as classes dominantes e o aparelho de Estado, consumando um tipo impessoal de dominação de classe por meio da forma jurídica, que projeta o ente estatal como um poder imparcial diante dos cidadãos. E de outro, ele produz corrupção incessantemente, já que os círculos de negócios incessantemente entrecruzam-se com as esferas de intervenção estatal na economia.

Ou seja: a corrupção é um problema pro capitalismo, porque quando ela acontece significa que burgueses individuais obtiveram vantagens do estado, o que incomoda os outros burgueses que não foram beneficiados também. Ao mesmo tempo, a corrupção vai seguir acontecendo, porque a burguesia busca constantemente se utilizar do estado e das relações com membros do poder estatal para garantir vantagens.

Por exemplo: Daniel Vorcaro precisou se aproximar de diversos políticos, dos mais diferentes partidos, para garantir que seus interesses à frente do Banco Master fossem garantidos. Também contratou o escritório da esposa de Alexandre de Moraes, ciente de que com isso ele teria proximidade com o ministro e conseguiria intervir sob o Supremo Tribunal Federal.

Mas não é só o Vorcaro. Muito do que acontece na política brasileira é decidido em jantares entre políticos e representantes da burguesia. Por exemplo: em 2025, o então ministro do STF, Luís Roberto Barroso, foi visto cantando ao lado do presidente do iFood durante um jantar. Outro ministro, Gilmar Mendes, é conhecido por organizar anualmente um congresso, chamado de Fórum de Lisboa ou, como apelidado, o “Gilmarpalooza”. Esse congresso reúne juristas, empresários e políticos e é conhecido por ser um local de lobby, em que integrantes da burguesia conseguem dialogar com entes públicos a respeito de seus interesses.

Ou seja: a corrupção é própria do capitalismo e seguirá existindo enquanto houver diferenças de classe. É preciso, portanto, não apenas disputar a indignação da classe trabalhadora, mas também conduzi-la às últimas consequências: o fim desse modo de produção.

  1. Do petismo à extrema direita: a corrupção nos partidos políticos

Entender a corrupção como um fenômeno próprio do capitalismo significa dizer, portanto, que a corrupção não se trata de um problema ético ou moral, mas sim algo relacionado com as relações de produção capitalistas e a forma estado decorrente daí. Os casos de corrupção no Brasil, que vão do PT ao PL, demonstram que, apesar de suas diferenças, ambos os partidos fazem parte da ordem política burguesa e atuam, ao seu modo, para manter o capitalismo de pé.

Chama a atenção, aliás, que antes de chegar ao governo federal, a luta contra a corrupção era uma das bandeiras do PT. Um cartaz de Lula em 1989 trazia os escritos “contra a corrupção, Lula é a solução”.

Um cartaz mentiroso, sem dúvidas, já que é impossível um indivíduo ser a solução para um problema sistêmico. Mas relembro esse cartaz porque ele me parece mais uma evidência da cooptação do petismo à ideologia burguesa.

Como já afirmado, no capitalismo a burguesia não precisa ser a titular do poder político para garantir que o Estado seja um ente de dominação de classe. Mas, individualmente, os capitalistas buscam obter as melhores vantagens possíveis do aparelho estatal, e para isso precisam ter acesso aos partidos políticos e buscar influenciá-los a garantir seus interesses (9).

Portanto, no capitalismo, o sistema político é um aparelho ideológico de estado, nos termos de Louis Althusser (10). Isso significa que o sistema político reproduz e mantém, pela ideologia, as condições de existência do capitalismo. Daí que, se um partido político tem como prioridade governar, isso significa que precisará se aliar com a burguesia para garantir esse governo.

Por isso, Althusser afirma que um partido político revolucionário – da “esquerda radical”, como dizemos hoje – não pode jamais se limitar a atuação na política institucional:

Seu objetivo [do partido revolucionário] não é limitar sua atuação ao Parlamento, mas estender a luta de classes ao conjunto dos trabalhadores, e da economia à política e à ideologia, mediante formas de ação que lhes são próprias e que desde logo nada têm a ver com depositar uma cédula de voto numa urna, a cada cinco anos. Conduzir a luta de classe operária em todos os terrenos, muito além do Parlamento, essa é a tarefa de um partido comunista. Sua vocação última não é participar do governo, mas derrubar e destruir o poder de Estado burguês. (11)

Se um partido se limita a agir sob os moldes da representação eleitoral (eleições), ele estará disposto a fazer de tudo pra se manter lá e esse “tudo” envolve receber ajuda da burguesia; envolve corrupção. O sistema político eleitoral muitas vezes exige isso para que os partidos mantenham sua hegemonia. Althusser afirma que essa tentativa de cooptação que a burguesia exerce sobre partidos operários é também parte da luta de classes – no caso, a luta que a burguesia enquanto classe exerce para manter sua dominação. A burguesia disputa o PT, e ao que tudo indica, está ganhando, já que o partido parece ter perdido qualquer perspectiva revolucionária e, com isso, atua apenas para melhor gerir o capitalismo brasileiro.

De acordo com Althusser, esse diagnóstico exige dos partidos revolucionários uma outra maneira de atuação, diferente da atuação dos partidos “da ordem”. Assim,

(…) um partido comunista não poderia entrar no governo de um Estado burguês (mesmo se esse governo fosse um governo de esquerda, unitário, decidido a pôr em prática reformas democráticas) para gerir os assuntos de um Estado burguês. Entraria, em todo o caso, para dar maior amplitude à luta de classe e preparar a queda do Estado burguês. (12)

Hoje, é isso que tentamos fazer com o PSOL: garantir que o partido se utilize de seus mandatos e de sua plataforma eleitoral para dar mais peso à luta da classe trabalhadora, para denunciar as contradições desse sistema, para se recusar a negociar a política em jantares com a burguesia, para representar os interesses dos trabalhadores. Considerando que a corrupção não se trata de um problema moral, a cooptação do PSOL pelo sistema político burguês significaria que a corrupção não estaria longe de nós; seria apenas uma questão de tempo.

Deste modo, o debate anticorrupção precisa ser feito pela esquerda radical, tanto como maneira de disputar a indignação dos trabalhadores como para promover uma reflexão contínua a respeito dos perigos da cooptação dos partidos pela ideologia burguesa. Uma crítica radical à corrupção é ainda um antídoto à visão de que o judiciário seria capaz de acabar com ela. Nada mais ilustrativo dessa impossibilidade do que o caso de Sérgio Moro que, ao tentar “acabar com a corrupção”, foi ele próprio corrupto também, esgarçando os limites do papel de um juiz. Para combater a extrema direita, a luta anticorrupção também é necessária.

REFERÊNCIAS

  1. MOLFESE, Laura. Quaest: 6 em cada 10 brasileiros não confiam nos partidos políticos. CNN Brasil, São Paulo, 8 set. 2025. Disponível em: CNN Brasil. Acesso em: 6 jul. 2026.
  2. G1. Brasileiros não se sentem representados por políticos em exercício, aponta pesquisa. G1 Política, 2 fev. 2018. Disponível em: https://g1.globo.com/politica/noticia/brasileiros-nao-se-sentem-representados-por-politicos-em-exercicio-aponta-pesquisa.ghtml. Acesso em: 6 jul. 2026.
  3. SANTOS, Poliana. Atlas: corrupção é principal problema do país para 59,9% dos brasileiros. CNN Brasil, 26 mar. 2026. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/politica/atlas-corrupcao-e-principal-problema-do-pais-para-599-dos-brasileiros/. Acesso em: 6 jul. 2026.
  4. CNN BRASIL. Lembrança de escândalos de corrupção faz eleitor rejeitar PT, diz Arko. CNN Brasil, 1 abr. 2026. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/eleicoes/lembranca-de-escandalos-de-corrupcao-faz-eleitor-rejeitar-pt-diz-arko/. Acesso em: 6 jul. 2026.
  5. BIONDI, Pablo. Capitalismo, forma jurídica e corrupção estatal. Revista Convergência Crítica, Niterói, v. 1, n. 10, p. 145–157, 2016. Disponível em: https://www.periodicos.uff.br/convergenciacritica/article/view/36539. Acesso em: 23 jun. 2026.
  6. LÊNIN, Vladimir Ilitch. O Estado e a revolução. São Paulo: Boitempo, 2017.
  7. BATISTA, Flávio Roberto. Crítica da Tecnologia dos Direitos Sociais. São Paulo: Outras Expressões, 2013, p. 162.
  8. BIONDI, Pablo. Capitalismo, forma jurídica e corrupção estatal. P. 156.
  9. BIONDI, Pablo. Capitalismo, forma jurídica e corrupção estatal. P. 155.
  10. ALTHUSSER, Louis. Aparelhos ideológicos de Estado. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2023.
  11. ALTHUSSER, Louis. Aparelhos ideológicos de Estado, p. 133.
  12. ALTHUSSER, Louis. Aparelhos ideológicos de Estado, p. 134.

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