Duas táticas para enfrentar a extrema direita
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Duas táticas para enfrentar a extrema direita

É preciso apoiar-se nos setores mais dinâmicos, nas bandeiras programáticas, nas lutas em curso e na força das mulheres para conquistar maioria social, buscando uma inflexão na relação de forças e ampliando o espaço para esquerda que luta

Israel Dutra 10 maio 2026, 08:03

Foto: Manifestantes se reúnem em protesto pelo fim da jornada de trabalho 6 x 1, na Cinelândia, Rio de Janeiro. (Tânia Rêgo/Agência Brasil)

No momento em que Lula se reúne com Trump em Washington, o governo avaliza com votos do PT a entrega dos minerais críticos e das terras raras ao mercado internacional. Uma semana depois da derrota acachapante do governo no Congresso, com a recusa no Senado à indicação de Jorge Messias ao STF e a derrubada do veto de Lula ao PL da Dosimetria, o governo continua apostando no mesmo erro.

Não só parece não ter tirado lições, como aqui se confrontam duas táticas bastante diferentes de como lutar contra o inimigo que nos espreita. De um lado, a tática de conciliação do governo, que busca amenizar os conflitos e cede para setores da direita em busca de apoio parlamentar, mas também eleitoral visando a disputa do próximo outubro.

Do outro lado, setores da esquerda anticapitalista têm criticado este método. Se, por um lado, tal mecanismo está longe de resolver os problemas econômicos concretos da população brasileira, de outro, também não resolve o próprio problema do governo, já que são evidentes as chantagens e traições destes setores da direita como Lula busca compor.

Para enfrentar a extrema direita, é preciso descartar tanto as ilusões nos limites destas tentativas de conciliação como também descartar o sectarismo que pode pode surgir desse momento contraditório. Apoiar a frente eleitoral de Lula contra a extrema direita e construir um polo crítico da esquerda independente são duas tarefas combinadas. Este é o desafio do ano político de 2026.

Uma derrota atrás da outra

A derrota do governo no caso Messias, assim como no PL da Dosimetria, é mais recentemente na decisão sobre as terras raras – na qual PSOL e PCdoB foram vozes dissonantes na esquerda parlamentar, demonstram o grau de dificuldades de um governo rendido a una forma de governar que perde cada vez mais sentido e abre espaço para o fascismo canalizar a difusa indignação popular.

E a relação dependente com Estados Unidos, que se expressa especialmente na macroeconomia e na temática ambiental, tende a piorar ainda mais o cenário na medida em que a ação de Trump e de suas aliadas big techs será muito impactante na guerra virtual eleitoral, tal como já sentimos muitos meses antes das eleições. Em meio à agressão ao Irã, a cobertura trumpista ao genocidio de Netanyhu no Líbano, ao ataque contra Cuba, Lula troca juras de amizade com o inimigo público dos povos e da humanidade.

A defesa da soberania nacional, sobre a qual Lula tem movimentos contraditórios, sobretudo retóricos, será essencial também caso consiga caracterizar o entreguismo bolsonarista e se apresentar perante amplos setores de massas de forma objetiva.

E tudo isso ocorre em meio à fraqueza da convocação dos atos de 1º de Maio, contraditoriamente os mais fracos justamente no ano em que o fim da escala 6×1 se coloca como uma possibilidade objetiva de vitória para a classe trabalhadora.

Apoiar-se na maioria social

O problema de convocatória dos atos no 1º de Maio demonstra bem o impasse da situação atual, com possibilidade de mobilização através de pautas concretas, mas também com a letargia do governo e de setores do sindicalismo tradicional. A ausência do ato da Praça da Sé, a falta de convocatórias gerais e a prioridade dada pela CUT e Força Sindical num ato esvaziado no ABC sinalizaram este problema, que não é novo. Vai na contramão dos mais de 70% da população que querem reduzir já a jornada de trabalho. Nas ruas, garagens de ônibus, fábricas, assentamentos, escolas, nas periferias, bairros, por onde se passa, a simpatia pela luta pela derrubada da 6×1 é enorme.

Por outro lado, a convocação do ato pelo movimento VAT e o encontro promovido pelo mandato da deputada Sâmia Bomfim em São Paulo, com diversos sindicatos, foram no sentido contrário do imobilismo e deram um exemplo das possibilidades colocadas.

A pauta pelo fim da jornada de trabalho não é única nessa busca por maioria social. A luta das mulheres contra os feminicídios crescentes associados à chamada mentalidade redpill, assim como as tarefas imediatas da soberania nacional que se expressam em diversos dos temas tocados acima. Não é por acaso que as mulheres enquanto grupo social, especialmente as mulheres jovens, tem como característica um tipo de voto muito mais progressista do que os homens.

Apoio crítico, luta política

A tática do governo é a continuidade de uma estratégia que já condiciona a tática. A esquerda anticapitalista deve ter uma tática que responda a outra estratégia, a saber, de enfrentar os interesses do grande capital e do imperialismo.

Vamos votar em Lula, mas sem apoiar sua estratégia. Tal ação busca construir um muro de contenção ao retorno dos Bolsonaros, mas não resolve nenhum problema estrutural da classe trabalhadora brasileira.

Nossa luta política é outra: apoiar-se nos setores mais dinâmicos, nas bandeiras programáticas, nas lutas em curso e na força das mulheres para conquistar maioria social, buscando uma inflexão na relação de forças e ampliar o espaço para esquerda que luta.

É preciso denunciar fortemente a relação da extrema direita, com Ciro Nogueira e os escândalos do Master – a luta pela CPI se inscreve nessa agitação. Assim como desmascarar entidades como a CNI e parlamentares como Kim Kataguiri, que querem barrar a redução da jornada de trabalho.

As lutas moleculares existem. Em cidades como Belo Horizonte, São Paulo, Florianópolis, Goiânia e Canoas, municipários e professores enfrentam duras lutas. Universidades estão em greve no âmbito federal e nos estados, e a combativa ocupação da reitoria da USP é um emblema desse cenário; metroviários de SP preparam campanha salarial com possibilidade de greve para essa semana.

Precisamos unir essas lutas para que sejam vencedoras. E assumir com força o calendário que as centrais propõem para fazer de maio um mês de lutas contra a escala 6×1, paralisando o país no dia em que está prevista a votação, 27 de maio. Esse é o centro da luta política, ao redor da ala esquerda do PSOL, que luta para que o Partido seja uma expressão independente e anticapitalista.

Em tempo

Enquanto fechamos este editorial, recebemos a notícia da possível deportação de Thiago Ávila, preso e em greve de fome, junto a Saif Abu, nas masmorras dos genocidas. É um sopro de esperança para a agenda dos lutadores e lutadoras de todo o planeta.


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