O mea culpa de O Diabo Veste Prada 2 e o Governo Lula 3
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O mea culpa de O Diabo Veste Prada 2 e o Governo Lula 3

Sobre o lançamento recente do filme e suas analogias com recentes movimentos do governo

Thais Bueno 11 maio 2026, 11:52

Foto: Meryl Streep, atriz protagonista do filme O Diabo Veste Prada 2. (Reprodução)

Em 30 de abril de 2026 estreou no Brasil O Diabo Veste Prada 2. Vinte anos após o filme anterior ter estreado e chocado o público com os bastidores de uma grande revista de moda, Miranda Priestly (Meryl Streep), Andrea Sachs (Anne Hathaway), Emily Charlton (Emily Blunt) e Nigel (Stanley Tucci) novamente se encontram em meio a uma crise na Runway.

A história se inicia com um escândalo que relaciona a Runway a trabalho análogo à escravidão, aparentemente um erro cometido pela revista ao não fiscalizar uma empresa parceira. Isso gera críticas a Miranda e problemas no faturamento da revista.

Andrea volta à Runway neste momento com a missão de limpar a barra da empresa e de sua antiga chefe e passa a escrever textos que fazem o mea culpa da revista em relação ao escândalo recente. Inicialmente, isso comove certas figuras, como os chamados “novos ricos” e “nepobabies”, isto é, jovens bilionários com o frescor da informalidade, praticidade e com o dicionário de ESG na ponta da língua, mas que, no fundo, são como os velhos e só querem mais dinheiro em suas contas, no final do dia, mesmo que isso custe craquelar todo o verniz de sua lataria recém-fabricada.

Diante deste cenário, a escolha de Miranda e Nigel é por seguir agindo como as pessoas do andar de cima que são, isto é, por meio de acordos com seus pares. Eles não expressam qualquer abalo moral pelo escândalo e tampouco pelas reflexões que Andy faz acerca disso nos artigos por ela escritos — também em nome deles.

Nesse enredo, o arco dramático de Andy vai de jornalista defensora de direitos humanos, passando pela função de amortecedor de críticas à Runway, até finalmente se tornar não só uma apoiadora, mas uma das principais promotoras da revista e de tudo o que ela representa econômica e politicamente.

Enquanto isso, no Brasil, um dia antes da estreia do filme, em 29 de abril, ocorreu a sabatina de Jorge Messias — indicado do presidente Lula ao Supremo Tribunal Federal. Dentre os trechos da sessão que mais repercutiram está a frase dita em tom contundente pelo advogado: “Sou totalmente contra o aborto”.

Não são incomuns falas do presidente que demonstram melhor compreensão sobre os direitos das mulheres e as pautas do movimento feminista. No entanto, o “depois” não se sustenta, na medida em que as ações posteriores não confirmam o que foi dito.

Em O Diabo Veste Prada 2, o enredo de Andy conclui a história dos dois filmes da sequência. Ela passa de crítica e vítima da moda, no primeiro, à promotora e cúmplice de tudo aquilo que essa indústria faz, no segundo. O mea culpa é usado como meio para suavizar as impressões do mercado e abrir caminho para que as velhas práticas voltem a ser executadas.

Mas o fato é que as críticas à indústria da moda nunca estiveram tão avançadas e, mesmo que o filme a critique para depois reforçá-la, esse engodo é muito defasado diante do que a consciência coletiva já avançou nesse aspecto. Ou não seriam pautas de maioria a defesa de condições dignas de trabalho para qualquer pessoa e contra o trabalho escravo, por exemplo?

Da mesma forma, o movimento das mulheres no Brasil se mostra parte do que há de mais avançado e arejado dentre os setores progressistas, e isso se prova na medida em que as pautas feministas são as que mais dinamizam pessoas, nas ruas e nas redes. Por isso, um ou muitos mea culpa não irão blindar qualquer um que trabalhar contra os direitos das mulheres. Se, no final de O Diabo Veste Prada 2, Andy pode ser chamada de cúmplice da indústria da moda, então, em relação ao movimento feminista, como Lula poderia ser chamado pela indicação de Messias ao STF?


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