“Eppur si muove” – um mundo em movimento
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“Eppur si muove” – um mundo em movimento

A extrema direita deve ser derrotada e esse deve ser o compromisso do PSOL atuando nas lutas e nas próximas eleições

Israel Dutra 28 jun 2026, 10:35

Foto: Juventude colombiana em protesto contra a extrema direita. (Fernando Vergara/Reprodução)

Estamos diante de mudanças extraordinárias, num embate cada vez mais aberto entre as forças neofascistas e a necessidade de resistência popular. A extrema direita comemora a vitória de Espriella na Colômbia, um novo cenário que aumenta a intervenção imperialista na América Latina.

O vetor das recentes eleições regionais, como Colômbia e Peru, servem de alerta, pelo peso e resiliência da extrema direita; porém, seria um erro apenas indicar o avanço das forças alinhadas com Trump, sem entender a dinâmica que abre mais crise e polarização.

As eleições do Brasil serão marcadas por essas mudanças, onde temas como a soberania, o uso da IA e as ações das big techs estarão na ordem do dia do debate político. Para compreender a natureza de tais mudanças e embates, onde temos a derrota dos Estados Unidos no Irã como vetor principal, devemos estudar a relação entre os processos e a eleição nacional.

A complicada expressão em latim, proferida por Galileu, “Eppur Si Muove”, ilustra o atual estado do mundo. Dramaticamente, a frase pode ser traduzida como “Ainda assim, ela se move”. O mundo em movimento condiciona a batalha política e eleitoral no Brasil.

A derrota estratégica de Trump no Irã

Trump acaba de sofrer uma derrota estratégica na sua malsucedida agressão à nação iraniana. Sua derrota evidente foi anunciada como rendição ou capitulação, a partir da difusão dos termos do memorando de acordo. Seus objetivos eram derrubar o regime, acabar com as condições nucleares do Irã e garantir o controle marítimos dos principais pontos de trafego do Oriente Médio. Perdeu em todos.

A combinação do uso de tecnologias de alta precisão (guerra assimétrica) com o estratégia militar de “pontos de estrangulamento” do Estreito de Ormuz e a unidade nacional foram as chaves para a vitória iraniana. O apoio à guerra nos Estados Unidos foi minoritário e a imagem de Trump nas pesquisa de opinião foi ladeira abaixo. Perdeu votações no congresso e aparece mal para a disputa central que terá nas eleições de novembro.

Seu aliado estratégico, o sionismo de Netanyahu, teve importantes fissuras e está cada vez mais isolado, após sua criminosa incursão no Líbano. Trump é repudiado em todo Planeta, mas Netanyahu e seu governo conseguem ser ainda mais odiados.

O debilitamento do Estado de Israel e a derrota Trumpista trazem inúmeras consequências. A instabilidade diante da disputa com a China, onde a última reunião entre os dois chefes de Estado deixou a interrogante sobre a teoria da “Armadilha de Túciades”, tese que discute a superação de uma potência hegemônica por outra, ainda emergente.

A segunda consequência é colocar o planeta em alerta para uma militarização ainda maior do que a que estava em curso. E a terceira, é o retorno, após a vergonha no Oriente Médio, das armas e olhos de Trump para América Latina.

América Latina, no olho da tormenta

Trump quer seguir sua incursão sobre o continente apostando em duas frentes: a primeira de caráter mais direto, intervindo na Venezuela – agora assolada pela tragédia do terremoto e mirando os canhões para Cuba, onde se fecha o cerco; a segunda, atuando nas eleições e cenários políticos dos países, como já tinha feito ao socorrer Milei em seu pior momento, agora respaldando a fraude eleitoral no Peru e o governo repressivo da Bolívia.

Contudo, sua maior cartada está na disputa da Colômbia, onde Abelardo de la Espriella, que se diz discípulo de Trump, Bukele e Milei, ganhou por menos 1% dos votos em uma apertada disputa eleitoral.

Isso é acende uma alerta para o que virá na eleição brasileira: as big thecs e a extrema direita não vão parar um minuto de conspirar para derrotar Lula. As novas reuniões entre os Bolsonaros e Rubio, com um acordo que Jamil Chade classificou de “traição nacional”, são parte do roteiro, que já incluía a inclusão do PCC e do CV na lista de narcoterroristas e o novo tarifaço.

Está nítido que Trump vai por tudo. Vai lutar para tomar Cuba, interferir no Brasil e disputar a hegemonia com seus agentes diretos na região. De outra parte, o cenário não é simples. As disputas eleitorais foram disputadas, os países estão polarizados e a Bolívia pode ser uma antecipação do nível de radicalidade que setores de massas estão dispostos a ir por seus direitos.

A América Latina está no centro, a extrema direita está fortalecida e à espreita, mas em nenhum país tivemos uma derrota histórica. Por isso será fundamental, vencer a eleição brasileira, ser solidário à Venezuela e defender Cuba com unhas e dentes.

Espaço à esquerda, unidade e polo crítico

O PSOL está experimentando um novo momento, seja pelas disputas internas, seja pelas novas figuras que se filiaram ao partido, mas sobretudo por sua correta localização de apoiar Lula sem subordinar- se ao programa e a estratégia da Frente Ampla. O Partido está se fortalecendo. E está em “movimento”.

A unidade antifascista é um imperativo, nas urnas, nas redes e nas ruas. Porém, a necessidade de um polo crítico mais radical, de uma esquerda independente e anticapitalista começa a ser visibilizada. Exemplos não faltam: a juventude que entrou em cena quase virando a eleição no segundo turno da Colômbia, a radicalização dos “cabildos”, assembleias abertas no processo boliviano, a intenção de votos da Frente de Esquerda na Argentina (próximo a 14%) e incrível votação dos candidatos do DSA na primária democrata em Nova York.

Esse processo deve se expressar, de uma forma outra, também no Brasil.

É nesse espaço que o PSOL deve intervir, para ampliar sua bancada, ajudar a conter o bolsonarismo votando em Lula, apostando em projetos para o futuro. Dando o exemplo e lutando por um programa de medidas estruturais que combine as tarefas de soberania nacional – de caráter antiimperialista -com a necessidade da defesa dos interesses de todo povo.

O mundo está em movimento. Trump pode e deve ser derrotado. Esse deve ser o compromisso do PSOL para entrar de cabeça nas próximas eleições gerais.


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