Eleição entra em nova fase, enquanto 6×1 e STF dominam a política
As campanhas eleitorais começam a tomar as ruas em uma disputa marcada pela polarização e pela necessidade da unidade antifascista
Foto: Lula na sabatina da Globo. (TV Globo/Reprodução)
A política brasileira entrou, nesta semana, em uma nova etapa. A partir desta sexta-feira (28), o horário eleitoral gratuito passou a ocupar rádio e televisão, levando oficialmente a disputa de 2026 para dentro da rotina dos eleitores. Entre os presidenciáveis, apenas Lula (PT), Flávio Bolsonaro (PL), Ronaldo Caiado (PSD) e Augusto Cury (Avante) terão espaço nos blocos da propaganda eleitoral gratuita.
A largada da propaganda ocorre em meio à consolidação de uma polarização que deve organizar boa parte da campanha: de um lado, o presidente Lula, candidato à reeleição; de outro, Flávio Bolsonaro, que tenta coesionar a extrema direita, herdar o capital político do pai e manter o bolsonarismo como principal força de oposição ao governo. A partir de agora, a polarização tende a se ampliar e tomar as ruas, com tentativas de todos os lados para dialogar com problemas concretos da população.
A semana também foi marcada pela rodada de entrevistas dos presidenciáveis no Jornal Nacional. Lula foi entrevistado na quinta-feira (27), depois de Romeu Zema, Ronaldo Caiado e Renan Santos. Flávio Bolsonaro será entrevistado nesta sexta-feira. A Agência Lupa acompanhou a sabatina de Lula com checagem em tempo real, assim como havia feito com os candidatos anteriores.
Durante a entrevista, Lula foi confrontado principalmente com temas envolvendo investigações, o escândalo dos descontos indevidos no INSS e acusações relacionadas a pessoas próximas ao governo. Em determinado momento, afirmou que se sentia “parecendo que estava no Ministério Público” diante das perguntas. Sobre seu filho Fábio Luís Lula da Silva, disse que, caso exista culpa, ele deverá responder perante a Justiça como qualquer cidadão.
A entrevista também reabriu feridas da relação entre Lula e setores da imprensa. Ao falar sobre sua condenação e prisão durante a Lava Jato, o presidente voltou a criticar o chamado “PowerPoint mentiroso” utilizado por Deltan Dallagnol na apresentação de acusações contra ele. César Tralli, por sua vez, reconheceu que a Globo havia se retratado por um PowerPoint equivocado relacionado ao caso Banco Master. O episódio mostra como a campanha de 2026 será atravessada não apenas pela disputa entre posições, mas também entre narrativas sobre fatos relevantes dos últimos anos.
Trabalho entra no centro da disputa
Enquanto os candidatos ocupavam as telas, uma pauta de enorme impacto social avançava no Senado: o fim da escala 6×1.
A PEC 221/2019 chegou à Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado nesta semana e teve o senador Omar Aziz (PSD-AM) designado como relator. O texto aprovado anteriormente pela Câmara reduz a jornada máxima para 40 horas semanais e garante dois dias de repouso semanal remunerado, sem redução salarial.
Na quinta-feira (27), Aziz apresentou seu relatório sem alterar o texto aprovado pela Câmara. Nesta sexta-feira, o senador entregou formalmente o parecer à CCJ, mantendo a proposta que prevê jornada de 40 horas semanais, limite de oito horas diárias e dois dias de folga.
A discussão é muito mais profunda do que uma alteração na jornada de trabalho. A escala 6×1 simboliza um modelo de organização econômica que durante décadas naturalizou a ideia de que trabalhadores devem dedicar praticamente toda a semana ao emprego, muitas vezes em atividades precarizadas e mal remuneradas.
Reduzir a jornada sem reduzir salários significa disputar justamente essa lógica: a riqueza produzida pelo trabalho também deve se transformar em tempo de vida. Mais descanso, convivência familiar, lazer, estudo e participação social não são privilégios — são direitos.
Por isso, o avanço da PEC representa uma das pautas mais importantes da agenda social no período eleitoral. A questão agora é saber se o Senado terá disposição para enfrentar os interesses empresariais que historicamente resistem à redução da jornada. Da mesma forma, é central manter a mobilização pela pauta, aproveitando o tema tanto eleitoralmente quanto como meio para organizar politicamente a insatisfação popular.
STF continua no centro da disputa política
Outro eixo importante da semana foi o Supremo Tribunal Federal. Investigações envolvendo o filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro, e apurações relacionadas a Fábio Luís Lula da Silva colocaram ministros do STF em posições distintas e alimentaram novas disputas políticas em torno da Corte.
No caso do filme, o ministro Flávio Dino autorizou a Polícia Federal a investigar repasses de emendas relacionados à produtora responsável pela obra. O caso também passou a envolver o ministro André Mendonça, que ficou com a relatoria de pedido relacionado à apuração dos pagamentos feitos pelo banqueiro Daniel Vorcaro.
A situação evidencia um problema recorrente da política brasileira: investigações judiciais envolvendo figuras centrais da disputa eleitoral rapidamente passam a ser interpretadas a partir da lógica da própria disputa política. De um lado, setores bolsonaristas denunciam perseguição; de outro, adversários de Bolsonaro enxergam nas investigações a necessidade de responsabilização por eventuais irregularidades.
Nesse sentido, Lula acerta ao ter uma postura distinta de Bolsonaro e defender o avanço das investigações, que devem seguir provas, regras e devido processo legal — independentemente de quem possa ser beneficiado ou prejudicado politicamente por seus resultados.
Uma eleição que começa a falar de vida real
A entrada do horário eleitoral tende a aumentar a temperatura da disputa. Mas, em meio à guerra de narrativas, a sociedade precisa cobrar dos candidatos respostas para questões concretas: salário, emprego, jornada, moradia, saúde, educação, segurança, inflação e proteção ambiental.
A própria tramitação da PEC 6×1 mostra que existe uma agenda social capaz de escapar da polarização superficial. A redução da jornada interessa diretamente a milhões de trabalhadores e recoloca uma pergunta fundamental no debate público: quem deve se beneficiar do aumento da produtividade e da riqueza produzida no país?
Enquanto a direita tende a apresentar soluções baseadas em mais mercado, endurecimento penal e redução do papel do Estado, a esquerda precisa disputar o significado de desenvolvimento a partir dos direitos sociais e da melhoria das condições de vida da maioria da população.
É esse debate que começa a ganhar espaço agora que as campanhas chegaram à televisão.
A eleição de 2026, portanto, não será apenas uma disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro — embora essa polarização seja hoje seu eixo central. Será também uma disputa sobre a soberania nacional, o mundo do trabalho, os direitos sociais e a necessidade de derrota do fascismo dos nossos dias. E, a partir desta semana, cada um desses projetos terá de disputar não apenas as pesquisas, mas também o tempo – cada vez mais valioso – da atenção dos eleitores.