Die Linke ganha em Berlim, CDU derrotada e AfD avança
Esquerda venceu as eleições na capital alemã com campanha centrada em respostas à crise da habitação
Foto: Candidata Elif Eralp (ao centro) festeja a vitória na noite eleitoral do Die Linke em Berlim. (Christoph Rutenkolk/EPA)
Via Esquerda.Net
As eleições nos estados federais de Mecklenburg-Vorpommern e de Berlim do 20 de setembro sacudiram a situação política geral de Alemanha ainda mais do que as eleições na Saxónia-Anhalt há duas semanas.
A CDU sofreu grandes perdas dos votos e ficou fora do parlamento em Mecklenburg-Vorpommern porque não conseguiu superar os 5%, o pior resultado de sempre da CDU. A AfD continua a avançar e tornou-se o partido mais forte no mesmo estado federal. Mas o SPD obteve um resultado surpreendentemente forte, logo atrás da AfD. Em Berlim, porém, foi Die Linke a grande vencedora deste domingo com um resultado consideravelmente acima de todos os outros partidos.
Os resultados concretos em Mecklenburg-Vorpommern são: AfD 38,2%, o SPD 35,5%, Die Linke 6,5%, os Verdes 5,7% e – sem representação no parlamento – a CDU 4,9% e a BSW (Aliança Sahra Wagenknecht) 4,8%. Dado que nenhum partido quer formar uma coligação com a AfD, um governo do SPD, Die Linke e os Verdes parece ser a única opção viável.
O voto popular em Berlim mostra estes resultados: Die Linke 25,7%, CDU 18,8%, AfD 16,2%, os Verdes 14,3%, o SPD 12,1% e a BSW 4,7% que está fora do parlamento. Numericamente Die Linke pode formar um governo numa coligação com os Verdes e o SPD ou também com a CDU. Mas teoricamente também seria possível formar um governo dos três grandes perdedores numa coligação da CDU com o SPD e os Verdes. Isto depende das negociações políticas que vão começar nos próximos dias.
Numa atuação completamente extraordinária, o Chanceler Merz fez uma declaração, anunciando que vai continuar com as chamadas reformas do governo alemão que na sua essência significam um desmantelamento considerável do Estado de bem estar. Pronunciou-se imediatamente depois da primeira publicação dos resultados eleitorais e antes de qualquer outra declaração dos outros líderes políticos. Além disso manifestou que está decidido a continuar a exercer a sua função como chefe de governo e do presidente do seu partido para continuar este caminho alegadamente necessário.
No mesmo discurso lançou um forte ataque contra o vencedor eleitoral Die Linke, colocando-o no mesmo nível político como a AfD e caraterizando-o como força extremista que quer destruir a democracia na Alemanha. Muitos dos comentários mainstream – e também os porta-vozes dos Verdes e da SPD – chamaram Die Linke um partido antissemita por causa da sua crítica da política genocida do governo israelita contra o povo palestiniano.
O êxito eleitoral do Die Linke foi em grande medida o resultado da sua posição a favor de rendas acessíveis e da socialização das grandes grupos imobiliários. Mas o SPD já declarou claramente que não vai apoiar tal projeto político, apesar de já ter havido um referendo que aprovou essa medida em 2021. O êxito relativo do SPD em Mecklenburg-Vorpommern só tem a explicação de que a sua candidata Manuela Schwesig criticou abertamente o corte das pensões e outras medidas antissociais do governo nacional. Mas o SPD não está disposto a apoiar uma intervenção no funcionamento do mercado livre das casas e também declarou que vai manter a sua posição de apoio massivo militar ao governo de Zelenski na Ucrânia.
Die Linke recebeu o seu apoio principal na geração entre 25 e 34 anos de idade e especialmente entre as mulheres jovens. Já é visível que a media mainstream e os partidos tradicionais CDU, SPD e os Verdes vão lançar uma campanha forte contra Die Linke para desviar a atenção pública da forte mensagem social do seu êxito em Berlim. Em vez disso, Die Linke vai ser o alvo de acusações de ser uma força antissemita pela sua solidariedade com o povo palestino, pró-russa pela sua posição a favor de uma solução negociada e pacífica na Ucrânia e antidemocrática pela sua orientação socialista.
Os resultados em Mecklenburg-Vorpommern e Berlim abrem uma porta para uma viragem política nacional e regional na direção menos neoliberal, mais social e mais pacífica. Se os “partidos do centro” não entenderem a mensagem destas eleições e continuarem com a sua política de desmantelamento do Estado de providência para poder financiar a sua política do armamento, é bem possível que a ultradireita da AfD possa avançar no seu caminho de sucessos eleitorais com consequências catastróficas para toda a Alemanha.