Lula leva à ONU reação à ofensiva de Trump sobre a eleição
LULA3

Lula leva à ONU reação à ofensiva de Trump sobre a eleição

Reportagem revela articulação internacional para defender a soberania brasileira e evitar que Trump e aliados bolsonaristas tentem deslegitimar o resultado das urnas

Foto: Ricardo Stuckert/PR

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobe nesta terça-feira (22) à tribuna da Organização das Nações Unidas (ONU) com uma mensagem que ultrapassa os temas tradicionais da diplomacia. A poucos dias do primeiro turno das eleições brasileiras, o presidente deverá defender a soberania nacional, a credibilidade das instituições e o direito de os brasileiros decidirem seu próprio futuro político sem interferência de governos estrangeiros.

As informações são do jornalista Jamil Chade, do ICL Notícias, que revela uma articulação envolvendo integrantes do governo, empresários e organizações da sociedade civil para construir uma rede internacional capaz de garantir o reconhecimento rápido do resultado das eleições de outubro e dificultar eventuais tentativas de deslegitimar as urnas.

O movimento ocorre em um contexto de crescente tensão entre o governo brasileiro e a administração de Donald Trump. O presidente norte-americano será justamente o segundo chefe de Estado a discursar na Assembleia Geral, logo depois de Lula. A expectativa é de que os dois tenham ainda um breve encontro nos bastidores da ONU.

A preocupação brasileira não se limita ao discurso de Trump. Nos últimos meses, autoridades norte-americanas fizeram movimentos que Brasília interpretou como pressão sobre assuntos internos do país. Trump recebeu Flávio Bolsonaro na Casa Branca, enquanto integrantes de sua administração fizeram declarações críticas ao governo Lula e tentativas de interlocução com setores ligados ao processo eleitoral brasileiro foram registradas.

Em entrevista à CNN Internacional, Lula afirmou que Trump “não tem o direito de governar outros países” e criticou a postura do presidente norte-americano:

“O presidente Trump foi eleito para ser o presidente dos EUA. Ele tem o direito de governar. Mas ele não tem o direito de governar outros países.”

O fantasma da contestação das urnas

Segundo Jamil Chade, um dos principais temores entre setores progressistas é a possibilidade de Trump não reconhecer imediatamente uma eventual vitória de Lula. A preocupação ganha dimensão diante do histórico do presidente norte-americano de questionar resultados eleitorais desfavoráveis e das relações políticas construídas com o bolsonarismo.

O cientista político Steven Levitsky, entrevistado pelo próprio Chade, avaliou que existe uma “boa probabilidade” de Trump não aceitar uma eventual vitória de Lula. Levitsky é autor de “Como Morrem as Democracias” e pesquisador de movimentos autoritários.

“Se Lula vencer, há uma boa probabilidade de que Trump não aceite sua vitória”, afirmou.

O cenário descrito na reportagem seria ainda mais grave caso uma eventual contestação começasse no Brasil e recebesse respaldo político ou diplomático dos Estados Unidos. A combinação entre uma denúncia de suposta fraude, pedidos de recontagem, campanhas de desinformação e uma eventual demora de Washington em reconhecer o resultado poderia alimentar uma crise institucional.

A preocupação com esse tipo de interferência ganhou novo elemento nesta terça-feira. Horas antes do discurso de Lula, ativistas projetaram na ponte do Brooklyn e em outros pontos de Nova York imagens de Flávio Bolsonaro entregando uma faixa presidencial a Trump. A manifestação foi organizada pelo grupo Choose Democracy, em parceria com ativistas brasileiros, para denunciar a possibilidade de influência estrangeira sobre a eleição brasileira.

Uma reação internacional ao bolsonarismo e a Trump

A estratégia articulada nos bastidores busca fazer com que uma eventual tentativa de questionamento das eleições encontre uma resposta internacional imediata. Segundo Chade, movimentos da sociedade civil vêm procurando governos e organizações de diferentes regiões para construir uma espécie de “massa crítica” em defesa do reconhecimento do resultado eleitoral brasileiro.

A ideia é simples: se algum governo estrangeiro decidir contestar as urnas brasileiras, a reação predominante da comunidade internacional deverá ser de defesa da soberania e das instituições brasileiras.

No fim de semana, o Instituto Vladimir Herzog entregou à ONU um documento alertando para o risco de interferência externa nas eleições. A entidade defendeu que governos estrangeiros reconheçam o resultado proclamado pelas instituições brasileiras e advertiu que o questionamento coordenado das urnas poderia alimentar campanhas de desinformação.

A articulação também chegou à China. Em reunião realizada em Pequim, o assessor especial da Presidência para Assuntos Internacionais, Celso Amorim, e a diplomacia chinesa concordaram em rejeitar qualquer ingerência externa no processo eleitoral brasileiro, segundo Chade.

Ao mesmo tempo, interlocutores brasileiros buscam diálogo com Reino Unido, Canadá e União Europeia, além de países como México, Índia e África do Sul.

Observadores para enfrentar a narrativa de fraude

A presença de observadores internacionais também ganhou importância nessa estratégia. Para a eleição de 2026, 13 organizações foram credenciadas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para acompanhar o processo. Entre elas está a União Europeia, convidada pela primeira vez para observar uma eleição brasileira. Outro nome considerado estratégico é o Carter Center, organização norte-americana conhecida por sua atuação em observação eleitoral.

A presença de especialistas dos Estados Unidos pode ter um peso particular caso grupos trumpistas tentem disseminar acusações de fraude durante a votação. Segundo Chade, existe a preocupação de que integrantes do movimento MAGA viajem ao Brasil e produzam narrativas sobre supostas irregularidades sem qualquer credenciamento ou comprovação.

A presença de aproximadamente 60 americanos ligados ao movimento MAGA na Colômbia durante o processo eleitoral daquele país teria servido como alerta para os articuladores brasileiros.

Trump, Flávio Bolsonaro e a disputa pela soberania

A questão eleitoral se soma a uma relação cada vez mais politizada entre Trump e o campo bolsonarista.

Na semana passada, o ICL Notícias publicou reportagem de Chade revelando que o governo Trump chegou a exigir, em uma proposta apresentada ao Brasil, que “dissidentes políticos” pudessem participar das eleições de 2026 como uma das condições para reduzir tarifas sobre produtos brasileiros. A proposta foi apresentada em 2025 e, segundo a reportagem, não foi aceita pelo governo Lula.

O episódio reforça, na avaliação do governo brasileiro, a preocupação com a tentativa de Washington de transformar questões políticas internas brasileiras em objeto de negociação diplomática.

Trump também passou a pressionar Brasília em relação ao combate ao crime organizado. Segundo outra reportagem de Chade, a Casa Branca acusou o Brasil de “fracassar” no enfrentamento às organizações criminosas e classificou facções brasileiras como ameaça à segurança internacional. O governo Lula respondeu rejeitando as acusações e defendendo que o combate ao crime organizado seja conduzido de maneira soberana.

O tema ganhou dimensão eleitoral porque Flávio Bolsonaro já declarou que, caso eleito, pretende aprofundar a cooperação militar com os Estados Unidos na região e classificar PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas, em linha com uma demanda apresentada por Trump.

Democratas entram no jogo

A movimentação de Lula em Nova York não se restringiu a contatos com governos estrangeiros. O presidente também se reuniu com representantes do campo progressista norte-americano.

Entre eles está o senador Bernie Sanders, que, segundo a reportagem de Chade, manifestou apoio à autodeterminação do Brasil. Lula também se encontrou com o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, um dos principais nomes da oposição progressista ao governo Trump.

A agenda revela que a disputa em torno da soberania brasileira não se resume à relação entre Brasília e Washington. Dentro dos próprios Estados Unidos há setores políticos, movimentos sociais e autoridades que defendem o respeito à autonomia brasileira.

A eleição brasileira como questão de soberania

É nesse ambiente que Lula chega à ONU. A defesa da democracia brasileira, nesse caso, não se resume à defesa de um candidato. O ponto central da articulação descrita por Jamil Chade é outro: quem tem o direito de decidir o futuro político do Brasil?

A resposta, do ponto de vista da soberania nacional, está nas urnas e nas instituições brasileiras – não na Casa Branca. A preocupação ganha relevância porque a extrema direita brasileira mantém relações políticas com setores do governo Trump e porque o presidente norte-americano já demonstrou disposição para utilizar instrumentos econômicos e diplomáticos como forma de pressionar o Brasil.

O discurso de Lula na ONU, portanto, ocorre em um momento em que a eleição brasileira deixou de ser apenas uma disputa doméstica para se tornar também um tema de interesse internacional.

Ao defender a soberania brasileira diante de Trump, Lula tenta estabelecer uma linha política clara: o resultado das urnas brasileiras deve ser reconhecido e respeitado, independentemente de quem seja o vencedor.

E a articulação revelada por Jamil Chade mostra que, diante do temor de uma eventual tentativa de interferência externa, setores do governo e da sociedade civil decidiram não esperar a crise acontecer para começar a organizar a reação.


TV Movimento

Revista Retomada estreia com debate sobre fascismo

Em entrevista para a TVT, Vladimir Safatle fala sobre a nova revista Retomada, publicada em iniciativa conjunta do MES-PSOL, intelectuais e artistas da esquerda socialista

Lançamento do Manifesto por uma Revolução Ecossocialista na Conferência Antifascista

Atividade de Lançamento do Manifesto por uma Revolução Ecossocialista, organizada pela IV Internacional durante a 1ª Conferência Internacional Antifascista, ocorrida em Porto Alegre entre os dias 26 e 29 de março de 2026

Pré-Conferência Antifascista em SP reforça unidade de luta contra o fascismo

Atividade preparatória em São Paulo para a I Conferência Internacional Antifascista pela Soberania dos Povos, que acontecerá entre os dias 26 e 29 de março de 2026, em Porto Alegre
Editorial
Israel Dutra | 18 set 2026

AntiBolsonaro – a batalha da reta final

Todos os esforços devem estar concentrados para derrotar Flávio Bolsonaro e fazer avançar o PSOL como ferramenta necessária para enfrentar a extrema direita e mudar o Brasil
AntiBolsonaro – a batalha da reta final
Publicações
Capa da última edição da Revista Movimento
Conheça a Revista Retomada!
A Revista Retomada é uma publicação trimestral produzida pelo Movimento Esquerda Socialista (MES-PSOL) em articulação com intelectuais, militantes e artistas
Ler mais

Podcast Em Movimento

Colunistas

Ver todos

Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Ver todos

Podcast Em Movimento

Capa da última edição da Revista Movimento
A Revista Retomada é uma publicação trimestral produzida pelo Movimento Esquerda Socialista (MES-PSOL) em articulação com intelectuais, militantes e artistas

Autores