Semana eleitoral: disputa esquenta, caso Master avança e Meta favorece bolsonarismo
Pesquisas mostram disputa apertada entre Lula e Flávio enquanto novas revelações sobre Vorcaro atingem o candidato do PL. Interferência estrangeira e decisões das plataformas digitais afetam reta final
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A reta final para o primeiro turno das eleições de 2026 foi marcada por uma combinação de disputa presidencial acirrada, novas revelações do caso Banco Master, crise no Supremo Tribunal Federal (STF), denúncias de possível interferência estrangeira, controvérsias envolvendo a Meta e mudanças nas regras para o uso da imagem de Jair Bolsonaro na campanha.
A dez dias da votação, marcada para 4 de outubro, os acontecimentos da semana mostram uma eleição cada vez mais atravessada não apenas pela disputa entre candidaturas, mas também por embates judiciais, atuação das grandes plataformas digitais e investigações que atingem personagens do campo político.
Disputa entre Lula e Flávio se mantém apertada
A pesquisa Quaest divulgada na segunda-feira (21) colocou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) com 37% das intenções de voto no primeiro turno, contra 33% de Flávio Bolsonaro (PL). Augusto Cury apareceu com 6%, Ronaldo Caiado (PSD), com 4%, e Renan Santos (Missão), com 3%.
No segundo turno, entretanto, o cenário mostrou empate técnico: Flávio registrou 42% e Lula, 41%. O levantamento ouviu 2.004 eleitores entre 17 e 20 de setembro, com margem de erro de dois pontos percentuais e nível de confiança de 95%.
Outros levantamentos divulgados na semana também mostraram uma disputa próxima. O Datafolha divulgado nesta quinta-feira (24), por exemplo, apontou Lula com 40% e Flávio com 36% no primeiro turno e 47% a 45% em uma simulação de segundo turno.
Os números não permitem concluir antecipadamente o resultado da eleição, mas evidenciam a importância da reta final da campanha e ajudam a explicar a intensificação dos ataques entre os dois principais concorrentes.
Caso Master amplia pressão sobre Flávio Bolsonaro
O escândalo envolvendo o Banco Master voltou a ocupar espaço central na disputa presidencial. Novas mensagens extraídas do celular de Daniel Vorcaro, fundador do banco, foram divulgadas durante a semana e trouxeram novos elementos sobre seus contatos com Flávio Bolsonaro.
Segundo informações divulgadas pelo Poder360, Flávio utilizou um jato ligado a Vorcaro para retornar dos Estados Unidos a Brasília. Também foram divulgadas informações de que o senador tentou falar com o banqueiro nos dias anteriores à prisão dele.
As revelações ganharam dimensão eleitoral porque Flávio disputa a Presidência e vinha sendo questionado sobre sua relação com Vorcaro. A campanha do candidato do PL, por sua vez, prepara uma ofensiva contra Lula, explorando temas como o STF e acusações contra o PT.
O caso, contudo, não envolve apenas Flávio. Mensagens atribuídas a Vorcaro também revelaram relações com pessoas próximas a integrantes do Judiciário. Uma delas aponta para um contrato do Banco Master com o escritório de Enrique Lewandowski, filho do ex-ministro do STF Ricardo Lewandowski. O escritório afirma que prestava consultoria tributária e que o contrato era regular.
Outra reportagem revelou mensagens nas quais integrantes do Master tratavam a advogada Dalide Corrêa como “sócia” de Gilmar Mendes. O ministro e a advogada negam que exista sociedade entre os dois.
O conjunto das revelações ampliou o debate sobre a extensão das relações de Vorcaro com políticos, advogados e integrantes do sistema de Justiça. As suspeitas são objeto de investigação e não equivalem, por si só, a comprovação de irregularidades por parte de todas as pessoas mencionadas.
Crise no STF se mistura ao caso Master
O caso Master também aprofundou uma disputa interna no STF. Nesta semana, o ministro André Mendonça reagiu às acusações feitas por Alexandre de Moraes e pediu o arquivamento da representação contra ele.
Mendonça afirmou que os relatórios utilizados para embasar as acusações não teriam valor probatório e acusou Moraes de utilizar métodos ilegais para tentar incluí-lo no inquérito das fake news. Também pediu investigação contra Moraes por possíveis crimes de abuso de autoridade e denunciação caluniosa.
Paralelamente, permanece o impasse sobre a condução dos procedimentos relacionados ao Banco Master. A defesa de Vorcaro chegou a ficar em situação indefinida entre os gabinetes de Mendonça e do presidente do STF, Edson Fachin, em meio à discussão sobre quem deve conduzir determinados procedimentos.
A crise é particularmente sensível porque o caso Master passou a envolver, direta ou indiretamente, nomes ligados à própria estrutura do Judiciário. Ao mesmo tempo, decisões do STF e do TSE têm peso crescente sobre uma eleição que entra em sua fase decisiva.
Campanha de Lula denuncia possível interferência dos EUA
Outro episódio relevante foi a decisão da campanha de Lula de recorrer ao STF e ao TSE para pedir investigação sobre uma possível interferência dos Estados Unidos nas eleições brasileiras.
No TSE, o PT questionou a atuação de Flávio Bolsonaro e Eduardo Bolsonaro e alegou abuso de poder político, econômico e dos meios de comunicação em razão de articulações com o governo norte-americano. A ação também pede providências contra os dois políticos.
A iniciativa ocorreu após a divulgação de um relatório reservado da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) sobre ameaças ao processo eleitoral. Segundo a Folha de S.Paulo, o documento classificou a possibilidade de influência ou interferência externa dos EUA como uma ameaça de elevada criticidade.
O tema também apareceu no discurso de Lula na Assembleia Geral da ONU. Sem mencionar diretamente os Estados Unidos, o presidente afirmou que o Brasil “não cabe no quintal de ninguém”.
É importante, porém, distinguir a denúncia apresentada pela campanha e os alertas de inteligência de uma eventual comprovação de interferência ilegal. Essa apuração cabe às instituições responsáveis.
Meta entra no centro da disputa eleitoral
As redes sociais também protagonizaram um dos episódios mais controversos da semana.
A Meta restringiu a conta de anúncios utilizada pela campanha de Lula no Facebook e no Instagram a dez dias do primeiro turno. A empresa informou apenas que “algumas das suas atividades não seguem nossas regras”, sem detalhar publicamente qual regra teria sido violada.
PT e coligação Brasil Pronto pra Mais recorreram da decisão e pediram revisão humana e restabelecimento da conta. Segundo a campanha, a restrição prejudica sua capacidade de veicular propaganda eleitoral justamente na reta final.
O episódio ganhou ainda mais repercussão porque, na mesma semana, a Meta derrubou temporariamente o perfil Revelando Brasil, responsável por uma reportagem apresentada por Fábio Porchat sobre relações envolvendo o Banco Master, a Igreja Batista da Lagoinha e personagens políticos.
Porchat afirmou:
“O vídeo não era campanha, não era calúnia, não era achismo. Era uma lista de fatos, todos eles amplamente reportados pela imprensa e explicados de uma forma acessível pra todo mundo.”
Horas depois, a Meta restaurou o perfil e pediu desculpas, mas não explicou qual regra havia motivado a retirada.
Os dois episódios colocam em evidência o enorme poder das plataformas privadas sobre a circulação de informações políticas. Não há, até o momento, evidência pública de que a Meta tenha deliberadamente atuado para favorecer um candidato, mas a restrição da publicidade de uma candidatura presidencial na reta final da eleição produz efeitos políticos concretos e exige transparência sobre seus critérios.
TSE libera uso da imagem de Bolsonaro
Outro movimento importante ocorreu no TSE. Por maioria, a Corte decidiu nesta quinta-feira (24) autorizar candidatos a utilizar a imagem de Jair Bolsonaro em santinhos e outros materiais de campanha. A decisão derrubou uma liminar anterior da ministra Estela Aranha, que havia proibido a utilização da imagem do ex-presidente.
O julgamento terminou em 4 votos a 2. Nunes Marques abriu a divergência e foi acompanhado por André Mendonça, Dias Toffoli e Ricardo Villas Bôas Cueva. Estela Aranha e Floriano de Azevedo Marques ficaram vencidos.
A discussão envolve uma questão central para a campanha de candidatos ligados ao bolsonarismo: embora Bolsonaro esteja inelegível e não dispute a eleição, sua imagem continua sendo um dos principais símbolos políticos de seu campo.
A decisão também evidencia como a Justiça Eleitoral está sendo chamada a arbitrar, em ritmo acelerado, questões diretamente relacionadas à estratégia das campanhas.
Uma eleição atravessada por disputas além das urnas
O balanço desta semana mostra que a eleição de 2026 não está sendo decidida apenas nos palanques e programas eleitorais. Pesquisas, investigações financeiras, disputas dentro do STF, decisões do TSE, plataformas digitais e acusações de interferência estrangeira passaram a ocupar o centro da disputa.
O caso Master é um exemplo particularmente expressivo dessa sobreposição: ao mesmo tempo em que novas mensagens atingem um dos principais candidatos à Presidência, o escândalo produz conflitos no Supremo e alimenta a propaganda eleitoral de ambos os lados.
Já a atuação da Meta introduz outro elemento: empresas privadas de tecnologia passaram a exercer enorme influência sobre a circulação de publicidade e informação política. A retirada temporária de um perfil jornalístico e a restrição da conta de anúncios de uma candidatura presidencial, ocorridas na mesma semana, reforçam a necessidade de regras transparentes, possibilidade efetiva de recurso e fiscalização pública sobre decisões capazes de afetar o ambiente eleitoral.
Com o primeiro turno marcado para 4 de outubro, os próximos dias devem ser decisivos para as campanhas. E, além da disputa pelo voto, estarão em jogo os limites da atuação das instituições públicas, das plataformas digitais e dos interesses econômicos e internacionais em uma eleição que já entrou em sua fase mais intensa.