As perigosas relações de Nunes Marques
Kássio Nunes Marques

As perigosas relações de Nunes Marques

Mensagens apreendidas pela PF apontam possível encontro do ministro do STF em festa de R$ 27 mil custeada pelo ex-banqueiro; caso se soma a pagamentos suspeitos ao filho do magistrado e a contrato de R$ 427 milhões com advogados de seu entorno

Tatiana Py Dutra 19 out 2026, 09:17

Foto: Fellipe Sampaio/STF

Uma festa privada organizada pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, para o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Kassio Nunes Marques tornou-se o episódio mais constrangedor das revelações sobre as relações entre o sistema financeiro e integrantes do Judiciário. Mensagens encontradas pela Polícia Federal (PF) no celular de Vorcaro, divulgadas pela revista piauí e repercutidas pela Folha de S.Paulo, apontam que o encontro ocorreu em 28 de fevereiro de 2025, em um tríplex de luxo no bairro do Itaim Bibi, em São Paulo, com a presença de garotas de programa.

Segundo a reportagem, Vorcaro teria custeado R$ 27 mil em despesas para uma reunião com 15 convidados. A organização envolveu motoristas, chef de cozinha, mordomo, faxineira, arquiteto e uma intermediária responsável pela contratação das mulheres. As conversas registradas no celular do banqueiro descrevem um encontro que levanta questões sobre a relação entre o empresário e o magistrado.

Por volta das 20h50, um funcionário identificado como Michael escreveu a Vorcaro: “Emprestei quarto do lado para ministro com 5 menina”. Mais tarde, o mesmo interlocutor relatou: “pessoal tudo pelado na piscina. Uma passou mal, vomitou, mas tá bem, já”. Em outra mensagem, afirmou que o ministro não tinha pressa para ir embora e que pretendia renovar o encontro.

Após a saída do convidado, o funcionário enviou fotografias de preservativos usados e de uma peça de lingerie encontrada no quarto.

A reportagem atribui a referência ao ministro a Kassio Nunes Marques, que ocupa uma posição central no STF e preside o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). As mensagens, entretanto, não identificam nominalmente o magistrado em todos os registros, e a associação decorre do conjunto das conversas analisadas pela imprensa.

O episódio ganha gravidade não pelo julgamento moral da vida privada de qualquer pessoa, mas pela possível relação entre uma autoridade judicial e um empresário que se tornou alvo de investigações de grande repercussão. A questão central é esclarecer se houve oferta de benefícios a um ministro, qual era a natureza da relação entre os envolvidos e se existia algum vínculo com interesses econômicos submetidos ao Judiciário.

Ministro nega relação com o banqueiro

Procurado pela Folha de S.Paulo, Nunes Marques negou ter mantido contato com Vorcaro ou solicitado favores. Em nota, afirmou: “O ministro Kassio Nunes Marques nunca votou a favor de Daniel Vorcaro (inclusive deu voto pela manutenção da prisão), nunca trocou mensagens com ele, nem pediu nada ao banqueiro”.

O magistrado também declarou que nunca autorizou terceiros a falar em seu nome e que não pode ser responsabilizado pelas conversas ou ações de outras pessoas. Sobre a repercussão do caso, afirmou que a reportagem faz ilações e tenta relacionar os diálogos à condução da Presidência do TSE.

A negativa não encerra as questões levantadas pelas mensagens. É necessário esclarecer quem organizou o encontro, quem efetivamente participou, quais despesas foram pagas e se houve algum tipo de benefício oferecido ao magistrado. Até que esses pontos sejam esclarecidos, não é possível tratar como comprovado que Nunes Marques tenha participado de todos os episódios descritos ou cometido qualquer irregularidade.

O caso também ocorre em meio a revelações sobre uma rede de prostituição de alcance internacional financiada por Vorcaro. Segundo reportagem do UOL publicada em outubro, o banqueiro teria aplicado ao menos R$ 4,3 milhões nessa estrutura, que envolvia intermediários, uma casa noturna em São Paulo e mulheres de diferentes nacionalidades. Vorcaro negou ter explorado ou desrespeitado mulheres.

A existência dessas denúncias amplia a necessidade de apuração sobre as circunstâncias dos encontros organizados pelo empresário, sem que isso autorize presumir que todas as mulheres envolvidas tenham sido vítimas de exploração ou que a participação em uma festa constitua, por si só, crime.

Contrato milionário e a chamada “Turma do KN”

As revelações sobre a festa não são o único episódio que aproxima o entorno de Nunes Marques dos interesses econômicos de Vorcaro. Em setembro, reportagens do UOL e do Metrópoles divulgaram um contrato de honorários advocatícios de até R$ 427 milhões firmado pelo Banco Master com o escritório Queiroga, Vieira, Queiroz & Ramos Advocacia, do qual faz parte Camilla Ramos, mulher do desembargador federal Newton Ramos, do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1).

O contrato previa honorários equivalentes a 5% dos valores obtidos pelo banco em 12 processos relacionados a indenizações do setor sucroalcooleiro. Os casos poderiam viabilizar o recebimento de até R$ 8,5 bilhões em precatórios – dívidas judiciais do poder público.

Mensagens extraídas do celular de Vorcaro indicam que pessoas ligadas ao banqueiro se referiam ao casal como parte da chamada “Turma do KN”, expressão associada a Nunes Marques. Os registros também mencionam tratativas sobre hospedagens e outros pedidos atribuídos ao ministro.

Em uma das conversas, um pedido de diária no hotel Fasano, em São Paulo, foi atribuído ao magistrado. Vorcaro respondeu: “Pode botar na minha conta”.

O ministro nega ter solicitado qualquer benefício ao empresário. O desembargador Newton Ramos, por sua vez, afirmou que as tratativas relatadas diziam respeito a uma relação pessoal. O contrato milionário, isoladamente, não comprova que Nunes Marques tenha participado das negociações ou recebido parte dos honorários, mas a proximidade entre os envolvidos exige esclarecimentos sobre eventuais conflitos de interesse.

Pagamentos ao filho também aparecem nas mensagens

Outro ponto sensível envolve Kevin Marques, filho do ministro. Em setembro, a colunista Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo, revelou conversas nas quais Luiz Rennó, então diretor jurídico do Banco Master, tratava com Vorcaro de pagamentos associados ao advogado.

Em uma mensagem de julho de 2025, Rennó perguntou se deveria manter um pagamento de “500 mil mês”, acompanhado de uma referência aos contatos de Kevin Marques. Em outra conversa, afirmou que faltava incluir a consultoria Consult Inteligência Tributária entre os “pagamentos essenciais”.

Segundo informações publicadas pelo UOL, Kevin confirmou ter recebido R$ 281,6 mil da Consult por serviços prestados à empresa, mas negou ter recebido dinheiro de Vorcaro ou prestado serviços diretamente ao banqueiro. A assessoria do ministro também afirmou que o filho nunca recebeu recursos do Banco Master.

As mensagens, portanto, levantam dúvidas sobre a natureza dos pagamentos e sobre a relação comercial entre a consultoria, o banco e o advogado. Não demonstram, por si sós, que os valores tenham sido pagos diretamente pelo banqueiro a Kevin ou que tenham servido para comprar decisões judiciais.

Julgamento sobre precatórios aumenta a pressão por explicações

As conversas também ganharam relevância porque Nunes Marques participou de um julgamento relacionado à tese jurídica que poderia beneficiar empresas do setor sucroalcooleiro e abrir caminho para a cobrança de indenizações milionárias.

De acordo com a reportagem de Mônica Bergamo, o ministro inicialmente constava como impedido no julgamento, mas depois pediu a retificação do registro e votou favoravelmente à tese. Mensagens de pessoas ligadas ao Banco Master comemoraram o resultado.

A assessoria de Nunes Marques sustentou que o caso não tratava especificamente do Banco Master, mas de uma tese jurídica de alcance mais amplo, aplicável a diferentes empresas. O ministro também afirmou nunca ter votado em favor de Vorcaro e lembrou que votou pela manutenção da prisão do ex-banqueiro.

A coincidência entre as conversas sobre pagamentos, os negócios envolvendo precatórios e o julgamento não prova que tenha havido negociação de voto. Ainda assim, é legítimo exigir transparência sobre possíveis conflitos de interesse, especialmente quando estão em jogo valores bilionários e a credibilidade da mais alta Corte do país.

Crise de confiança exige investigação independente

A sequência de revelações expõe um problema que vai além da conduta individual de um ministro: a proximidade entre grandes interesses econômicos, redes de influência e autoridades responsáveis por garantir a aplicação imparcial da lei.

Quando mensagens mencionam festas custeadas por um banqueiro, pedidos de hospedagem, contratos milionários e pagamentos associados a familiares de um magistrado, a resposta institucional não pode se limitar a negativas genéricas. É necessário esclarecer os fatos, identificar eventuais responsabilidades e garantir que as investigações ocorram sem privilégios.

A exigência vale para todos os integrantes do poder público, independentemente de suas posições políticas. A independência do Judiciário não significa imunidade à fiscalização; ao contrário, depende de transparência e de mecanismos capazes de impedir que interesses privados se sobreponham ao interesse público.


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