Eleição em transe: Lula e Flávio disputam votos enquanto Judiciário e caso Master dominam a reta final
A três dias do primeiro turno, corrida presidencial é marcada por disputa apertada, guerra de narrativas, decisões judiciais e crise que envolve STF, PGR e Banco Master
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A última semana antes do primeiro turno das eleições de 2026 escancarou uma disputa presidencial cada vez mais atravessada pela guerra de narrativas, pela atuação do Judiciário e por uma crise institucional que tem o Banco Master e Daniel Vorcaro no centro. Com as urnas abertas neste domingo (4), Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) concentram a maior parte das atenções, enquanto o eleitor chega à reta final diante de uma campanha na qual religião, liberdade de expressão, STF, desinformação e relações entre autoridades e o sistema financeiro passaram a ocupar espaço central.
A nova pesquisa Datafolha, divulgada na quinta-feira (1º), mostrou Lula com 45% dos votos válidos no primeiro turno, contra 40% de Flávio. Em votos totais, o presidente aparece com 42% e o senador com 38%. No cenário de segundo turno, são 48% para Lula e 45% para Flávio. O levantamento ouviu 2.506 eleitores entre 28 de setembro e 1º de outubro.
A pesquisa não é uma previsão do resultado. A própria Folha ressalta que o quadro pode ser alterado pela abstenção e por mudanças de última hora. O dado político mais evidente, porém, é que a eleição chega ao seu momento decisivo concentrada em dois nomes e em uma disputa que ganhou intensidade justamente nos últimos dias.
O debate que não aconteceu
Um dos episódios mais emblemáticos da semana foi o cancelamento do debate presidencial da TV Globo, que estava marcado para quinta-feira (1º).
É importante recuperar a cronologia: Lula já havia informado anteriormente que não participaria do programa. A decisão não foi tomada depois das medidas judiciais que alteraram o formato do debate. Na mesma noite, o presidente participou de uma entrevista ao Flow Podcast e criticou o modelo dos confrontos televisivos.
A situação mudou quando a ministra Estela Aranha, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), proibiu a Globo de exibir o púlpito vazio destinado a Lula e também impediu que os demais candidatos direcionassem perguntas ao presidente ausente. A justificativa estava relacionada ao entendimento de que a participação em debates é facultativa e que a ausência não deveria produzir uma consequência eleitoral adicional para o candidato.
Outra decisão judicial determinou a participação de Renan Santos, candidato do Missão, no programa. As regras eleitorais estabelecem critérios para a participação obrigatória de candidatos em debates, relacionados à representação parlamentar, enquanto a emissora pode convidar outros candidatos. O caso de Renan foi levado à Justiça e acabou alterando a composição planejada pela Globo.
Flávio Bolsonaro, que até então pretendia participar mesmo sem Lula, desistiu depois das decisões. Nas redes sociais, classificou as medidas como “censura” e passou a usar o episódio como argumento eleitoral contra o TSE e o STF. A Globo, diante das alterações determinadas pela Justiça e da desistência de Flávio, cancelou o debate.
O resultado foi uma situação inédita na reta final: os dois principais candidatos não se enfrentaram no último debate nacional antes da votação. Para o eleitor, desapareceu justamente no momento decisivo a oportunidade de assistir ao confronto direto entre os dois nomes que lideram a disputa.
Nossa Senhora Aparecida e a guerra contra a desinformação
A religião também virou munição eleitoral na semana. Uma informação falsa segundo a qual Flávio Bolsonaro teria a intenção de retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil ganhou ampla circulação nas redes sociais. O TSE determinou a retirada de publicações que apresentassem como fato essa suposta posição do candidato.
O caso, entretanto, tornou-se mais complexo porque uma das publicações atingidas era do humorista Antonio Tabet. Depois de divergências entre os ministros sobre o alcance da decisão, André Mendonça alterou seu voto e liberou o post de Tabet.
O entendimento consolidado pelo TSE estabeleceu uma distinção importante: devem ser removidos conteúdos que afirmem como fato que Flávio propôs, apoiou ou articulou a retirada do título de padroeira; publicações em que exista dúvida razoável sobre essa associação, como a de Tabet, devem ser preservadas.
O episódio expôs uma das questões mais delicadas da eleição: como combater uma informação falsa sem transformar a Justiça Eleitoral em árbitra do debate político e do humor?
A disputa não é meramente semântica. Em uma eleição, a retirada de uma publicação pode interferir diretamente no alcance de uma narrativa política. Ao mesmo tempo, a circulação de uma afirmação falsa apresentada como fato também pode influenciar o eleitorado. O caso Nossa Senhora Aparecida mostrou, de maneira particularmente evidente, o conflito entre esses dois princípios.
Banco Master mantém o STF sob pressão
Enquanto a campanha presidencial avançava, o caso Banco Master continuou produzindo novos desdobramentos.
A crise envolve mensagens extraídas do celular de Daniel Vorcaro, que fazem referência a ministros do STF e a outras autoridades. Nesta sexta-feira (2), a Polícia Federal pediu uma reunião com o presidente do Supremo, Edson Fachin, para discutir o andamento das investigações e as citações a integrantes da Corte. Entre os ministros mencionados nas conversas estão André Mendonça, Gilmar Mendes, Alexandre de Moraes e Dias Toffoli.
As mensagens e relações citadas estão sendo objeto de apuração; sua existência, por si só, não comprova irregularidades ou crimes por parte das autoridades mencionadas.
A crise também atingiu diretamente o procurador-geral da República, Paulo Gonet. Na semana passada, o Conselho Superior do Ministério Público Federal rejeitou, por 5 votos a 4, a abertura de investigação contra Gonet relacionada à sua relação com Vorcaro. Ao mesmo tempo, o colegiado manteve o procurador-geral responsável pelos processos relacionados ao caso Master.
O episódio alimentou críticas e suspeitas de diferentes setores políticos e voltou a colocar em discussão a independência das instituições responsáveis por investigar autoridades poderosas.
No Congresso, o caso também reabriu o debate sobre o foro privilegiado. Líderes parlamentares passaram a discutir a possibilidade de retomar propostas sobre o tema depois das eleições, em um movimento que se conecta à crescente tensão entre Legislativo e Supremo.
A democracia chega às urnas em meio à guerra de narrativas
A semana termina, portanto, com uma eleição marcada por uma combinação explosiva: uma disputa presidencial concentrada em dois nomes, pesquisas mostrando uma diferença estreita no segundo turno, ausência dos principais candidatos no último debate, decisões judiciais interferindo no ambiente eleitoral, desinformação envolvendo religião e uma crise institucional que alcança STF, PGR e Congresso.
No campo bolsonarista, as decisões judiciais são apresentadas como prova de interferência e censura. No campo governista, o argumento é de que a Justiça precisa atuar contra informações falsas e preservar as regras eleitorais. São interpretações políticas distintas sobre acontecimentos concretos que podem ser verificados nas decisões e nos atos das instituições.
O dado incontornável é que a campanha termina sem que Lula e Flávio tenham se enfrentado no último debate televisivo antes do voto. A disputa, em vez de terminar com um confronto direto de projetos, chega às urnas dominada por pesquisas, redes sociais, religião, Judiciário e acusações cruzadas.
E o eleitor decidirá neste domingo não apenas quem disputará a Presidência, mas também qual Congresso terá nas mãos a tarefa de enfrentar a crise institucional que atravessou a campanha e continuará na agenda do país depois da abertura das urnas.