Espanha em ebulição: moradia, fronteira e a disputa pelo 29 de novembro
O verão espanhol foi de recordes de calor ao mesmo tempo que a extrema direita fez da imigração sua bandeira. Uma grande onda de mobilizações por moradia derrubou a legislatura, enquanto as eleições antecipadas colocam a esquerda em uma encruzilhada
Foto: Acampamento em protesto contra a situação da moradia no Estado Espanhol. (Isabela Bordignon/Esquerda em Movimento)
A Espanha chega ao outono depois de passar pelo verão mais quente já registrado. Segundo a Agencia Estatal de Meteorología (AEMET)1, foram 61 dias sob onda de calor, vinte a mais do que o recorde de 2022, e com temperatura média na península de 24,5 °C 2,4 °C acima da média de referência. O Sistema de Monitorización de la Mortalidad Diaria (MoMo)2 estimou 5.807 mortes atribuíveis ao calor desde meados de maio, sendo 62% pessoas com mais de 85 anos e 60% mulheres.
Morrem de calor, sobretudo, as idosas que vivem sozinhas, os que não têm casa, os que habitam apartamentos que viram verdadeiros fornos e os que trabalham sob o sol. A crise climática não é o pano de fundo da crise social, mas uma de suas formas. A temperatura nos termômetros começa a baixar, mas a conjuntura política só está esquentando.
Entre os dias 30 e 31 de julho, no auge do verão, dezenas de milhares de pessoas atravessaram de Marrocos para Ceuta, a nado e pela fronteira terrestre. A extrema direita fez do episódio a sua bandeira: falou-se em “invasão”, defendeu-se a “remigração” e exigiu-se a militarização da fronteira. Até o fim do verão, a migração e o medo construído em torno dela davam o tom do debate público.
Em 23 de setembro, Maria del Carmen Abascal, a Maricarmen, de 87 anos, foi despejada do apartamento no bairro do Retiro, em Madri, onde vivia desde 1956. O caso tornou-se um símbolo nacional da crise da moradia e, nas semanas seguintes, dezenas de milhares de pessoas foram às ruas, e a Puerta del Sol voltou a ser ocupada por barracas. No Congresso, os decretos de moradia aprovados às pressas pelo governo foram derrubados, e Pedro Sánchez (PSOE) antecipou as eleições gerais para 29 de novembro.
Uma onda de calor, uma travessia em massa, um despejo. A conjuntura espanhola se acelera e se adensa a cada semana. Em cada um desses episódios, porém, a questão de fundo é a mesma: quem pode viver, onde e em que condições. Calor, moradia e fronteira não são crises paralelas, mas expressão de uma mesma crise: a da reprodução da vida sob o capitalismo neoliberal.
O caso Maricarmen
A história de Maricarmen é uma dentre muitas que sofrem com a transformação da moradia em ativo financeiro. Durante anos, pagou cerca de 500 euros entre aluguel e despesas. Em 2018, o imóvel foi comprado pela imobiliária Urbagestión Desarrollo e Inversión S.L., que passou a exigir sua saída numa disputa judicial sobre a validade do contrato. A alternativa oferecida foi um novo aluguel mais caro do que a sua própria pensão. Maricarmen não foi despejada por não pagar, mas porque a imobiliária recusou todas as alternativas.
Vizinhos e o Sindicato de Inquilinas conseguiram barrar três tentativas de despejo. Quando a quarta se concretizou, a derrota virou faísca: dias depois, dezenas de milhares de pessoas marcharam em Madri e a Puerta del Sol, símbolo do 15-M, foi novamente ocupada por barracas, bem como a praça Catalunya, em Barcelona. Sob pressão, a empresa recuou e propôs novo contrato, mas Maricarmen morreu em 7 de outubro, um dia antes de assinar.
Os decretos e a queda da legislatura
A resposta do governo veio sob a forma de dois decretos, batizados de “decretos Maricarmen”. O primeiro amplia a proteção contra despejos de pessoas vulneráveis sem alternativa habitacional, prorroga contratos, regula o aluguel de temporada e de quartos e limita a compra especulativa de moradias por fundos. O segundo, impulsionado pelo Sumar (sócio minoritário do PSOE no governo), a partir da proposta do Sindicato de Inquilinas, estabelece a renovação automática dos contratos de aluguel e uma indenização de pelo menos doze mensalidades caso o proprietário decida não renovar.
Os dois decretos ficavam aquém do que o movimento exige, como o congelamento e a redução dos aluguéis e a expropriação de imóveis vazios. Em 2 de outubro, o Congresso derrubou ambos: PP, Vox e Junts. O voto do Junts, a direita independentista catalã que havia garantido a investidura de Sánchez, diz muito. Na hora de escolher entre inquilinos e proprietários, o partido ficou ao lado de PP e Vox, repetindo o velho argumento rentista de que regular os aluguéis “reduz a oferta”. A questão nacional não dissolve a questão de classe.
Diante da derrota, em 5 de outubro, Pedro Sánchez dissolveu as Cortes nove meses antes do fim da legislatura e convocou eleições para 29 de novembro, em nome de uma “maioria progressista muito mais ampla”. A aposta de Sánchez é clara: converter a indignação das ruas em voto socialista, apresentar-se como defensor dos inquilinos e reduzir a disputa a uma escolha entre o governo e o bloco formado pela direita (PP) e pela extrema direita (Vox).
É preciso dizer com clareza: o PSOE não é o protagonista dessa luta, e sim um governo que, em oito anos, não enfrentou o poder dos fundos e das grandes imobiliárias. A crise da moradia na Espanha vem de doze anos ininterruptos de alta de preços, período em que o partido governou a maior parte do tempo.
A greve geral de 11 de novembro
Se o Parlamento devolveu a moradia ao terreno da disputa eleitoral, as ruas a levaram para o mundo do trabalho. Por proposta do Sindicato de Inquilinas, foi convocada uma greve geral para 11 de novembro, a primeira desde 2012. As reivindicações vão de contratos de aluguel por tempo indeterminado e redução dos preços a um imposto sobre a riqueza para financiar moradia pública e a expropriação de imóveis vazios.
A luta por moradia, normalmente tratada como pauta “de bairro”, chega ao terreno da produção e encontra o conflito entre capital e trabalho: aluguel e salário aparecem como duas faces da mesma espoliação. Vale notar quem puxa quem. A iniciativa partiu do movimento por moradia, enquanto as grandes centrais, historicamente mais inclinadas à negociação com governos do PSOE, vieram a reboque: nem sequer estiveram na entrevista coletiva que anunciou a data. Marcada para 18 dias antes das eleições, a greve será um teste da capacidade do movimento de manter sua autonomia diante do calendário eleitoral.
Ceuta: a fronteira como espetáculo
Se as ruas impuseram a moradia, a extrema direita segue apostando na pauta que construiu desde o verão. Na travessia de 30 e 31 de julho, cerca de 72 mil pessoas, segundo o governo, atravessaram de Marrocos para Ceuta, a maioria pelo mar. Pelo menos 88 morreram e muitas seguem desaparecidas. A travessia foi impulsionada por uma onda de desinformação nas redes dos dois lados do Estreito.
Sobre esse cenário, o Vox montou seu discurso de campanha. Santiago Abascal chamou as travessias de “invasão”, pediu a expulsão de todos os que entraram e chegou a incentivar cidadãos a expulsar migrantes “pelos meios que forem”. O PP preferiu culpar a regularização extraordinária de imigrantes aprovada pelo governo, embora ela só valesse para quem já estava no país antes de 2026. Entre a gestão securitária do governo e o discurso de ódio da extrema direita, a fronteira virou espetáculo eleitoral.
Moradia e migração: a mesma disputa
A extrema direita já entendeu que moradia e migração são a mesma disputa, e as conectou à sua maneira. Abascal propõe a “remigração” e argumenta que ela permitiria “liberar moradias”. O mesmo partido que votou contra a proteção de Maricarmen oferece aos inquilinos o imigrante como bode expiatório. É a velha operação de converter uma contradição de classe em fronteira étnica, deixando intactos os fundos, as imobiliárias e os rentistas que lucram com a escassez.
A realidade é a inversa: os migrantes não são a causa da crise da moradia, mas suas primeiras vítimas. Um estudo da Provivienda3, financiado pelo próprio Ministério da Inclusão, mostrou que 99% das imobiliárias investigadas em Madri e Barcelona aceitaram exigências discriminatórias de proprietários, como “não alugar a estrangeiros”. O racismo imobiliário não é um desvio do mercado, mas uma de suas engrenagens.
O 12 de outubro, Dia da Hispanidade, mostrou isso: no passeig de Gràcia, em Barcelona, uma marcha “por Ceuta”, com apoio de PP e Vox e presença de grupos neofascistas, gritava “España cristiana y no musulmana”. A “Espanha una” que ali se reivindicava é a velha unidade nacional-católica do franquismo, uma nação definida contra o outro. A poucas centenas de metros, a juventude acampada na praça Catalunya reivindica Maricarmen como símbolo da lutra pela moradia e contra o racismo imobiliário.
As pesquisas mostram o tamanho do desafio. A moradia é o tema mais importante para 40% do eleitorado, mas a imigração é a prioridade de dois terços dos eleitores do Vox. A média de pesquisas da RTVE projeta o Vox com 65 cadeiras, o dobro das 33 de 2023, e uma maioria absoluta para PP e Vox juntos.4
A tarefa da esquerda diante do 29 de novembro
À esquerda do PSOE, o cenário é de reorganização apressada. De um lado, o Frente Amplio, que reúne o Movimento Sumar, plataforma da vice-presidenta Yolanda Díaz, a Izquierda Unida, o Más Madrid e os Comuns catalães, chama pela “unidade de todas as esquerdas”, tendo Ada Colau, ex-prefeita de Barcelona, como candidata. De outro está o Podemos, de Irene Montero, que deixou o Sumar em 2023 e hoje condiciona a unidade a que a candidata seja escolhida pelo voto dos simpatizantes, e não por acordo entre as direções.
A unidade importa, mas não basta. Os últimos anos mostram que o governo de Sánchez deixou e continua deixando a desejar: não enfrentou os fundos e os rentistas, isolou a medida mais avançada sobre moradia e, em Ceuta, respondeu com devoluções e desalojamentos. Uma frente ampla que se apresente apenas como muleta de um novo governo Sánchez dificilmente canalizará a energia de Sol e da plaça Catalunya. Diante de uma extrema direita que radicaliza seu programa, a resposta não pode ser a moderação.
O que a conjuntura pede é uma esquerda que se apoie na auto-organização (os sindicatos de inquilinas, as assembleias de bairro, a greve de 11 de novembro) e que tenha um programa à altura: congelamento e redução dos aluguéis, contratos indefinidos, expropriação dos imóveis vazios dos grandes proprietários, um parque público financiado por impostos sobre a riqueza e adaptado a um clima que já mudou.
A Espanha não está sozinha. Na França, a juventude ocupa as ruas desde setembro contra escolas precárias, turmas superlotadas e prédios incapazes de suportar o calor. No Brasil, depois de um primeiro turno em que Flávio Bolsonaro terminou à frente de Lula, a Marcha pela Democracia levou milhares de pessoas às ruas em 11 de outubro em defesa da democracia e pelo fim da escala 6×1.
Em contextos distintos, é a juventude quem aparece na linha de frente, disputando o direito a morar, a estudar, a ter tempo livre e a viver num planeta habitável. Do outro lado, uma extrema direita internacionalmente articulada, que oferece fronteiras, bandeiras e bodes expiatórios no lugar de respostas. A lição de Maricarmen é que é a luta concreta, organizada a partir dos territórios, que muda a agenda política.
Como já apontou Israel Dutra5, a tarefa da esquerda tem duas dimensões inseparáveis. A primeira é derrotar a extrema direita nas urnas: em 25 de outubro, no Brasil, e em 29 de novembro, na Espanha. A segunda é fortalecer a auto-organização que já existe e construir a partir dela uma alternativa anticapitalista, ecossocialista, internacionalista e antirracista, capaz de unir as lutas pela moradia, pela educação, pelo clima e pelos direitos de quem atravessa fronteiras. Depois do verão mais quente, o outono espanhol será de luta.
Notas
- https://www.aemet.es/es/noticias/2026/09/olas_de_calor_2026 ↩︎
- https://momo.isciii.es/panel_momo/#section-momo ↩︎
- https://www.inclusion.gob.es/web/oberaxe/w/estudio-de-provivienda-la-discriminacion-en-el-mercado-del-alquiler-esta-limitando-el-acceso-a-la-vivienda-de-las-personas-migrantes ↩︎
- https://www.rtve.es/noticias/20261005/encuestas-elecciones-generales-29n-pp-vox-diputados/17253873.shtml ↩︎
- https://movimentorevista.com.br/2026/10/cada-voto-importa/ ↩︎