Lula vence debate da Globo
Último encontro antes do segundo turno teve discussões sobre salário mínimo, custo de vida e segurança pública; caso Ana Clara e fala capacitista de Flávio Bolsonaro marcaram a noite
Foto: TV Globo/Divulgação
O último debate entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), realizado pela TV Globo na noite de sexta-feira (23), terminou sem um consenso entre os analistas sobre quem teve o melhor desempenho, mas com avaliações que apontaram vantagem do presidente. A Folha de S.Paulo resumiu sua análise com o título “Em debate civilizado, Lula vence Flávio por pontos”, destacando que o senador se perdeu em momentos importantes, inclusive ao responder sobre segurança pública.
O encontro ocorreu a dois dias do segundo turno, em uma disputa marcada pelo empate técnico nas pesquisas de intenção de voto. Diferentemente do debate da Band, no domingo (18), o formato da Globo impôs regras mais rígidas para a movimentação dos candidatos e contribuiu para reduzir a temperatura do confronto nos primeiros blocos. Na parte final, porém, voltaram as acusações e os ataques pessoais.
Lula demonstrou maior desenvoltura ao defender as políticas de seus governos, enquanto Flávio adotou uma postura inicialmente mais moderada e apresentou propostas sobre economia e serviços públicos. Analistas ouvidos pelo site Terra divergiram: parte deles considerou que o presidente levou vantagem, enquanto outro avaliou que o senador melhorou em relação ao debate anterior.
Salário mínimo e custo de vida no centro do confronto
Flávio Bolsonaro concentrou parte de suas intervenções no custo de vida, nos juros, no endividamento das famílias e nas contas públicas. O senador procurou associar esses temas à gestão econômica do governo Lula e apresentou propostas como o congelamento de dívidas das famílias.
O presidente respondeu defendendo medidas sociais e realizações de seus governos, além de questionar a consistência das propostas do adversário. Em alguns momentos, o debate passou da discussão de políticas públicas para a disputa sobre quem seria o responsável por medidas já existentes ou anunciadas.
Flávio conseguiu pressionar Lula ao abordar a dívida pública e as contas do governo, consideradas um dos pontos mais vulneráveis da gestão petista. O senador apresentou propostas, porém, algumas se aproximavam de medidas já adotadas ou defendidas pelo governo federal.
O desempenho dos candidatos, portanto, teve aspectos distintos: Flávio conseguiu pautar temas econômicos de interesse cotidiano, enquanto Lula procurou associar suas respostas às políticas públicas e à experiência administrativa acumulada.
“Nove dedos”: fala de Flávio provoca reação
Um dos momentos mais comentados ocorreu quando Flávio se referiu a Lula como “nove dedos”, em alusão ao acidente de trabalho que levou à amputação de um dedo da mão esquerda do presidente, quando ele era torneiro mecânico.
A expressão foi criticada por seu caráter capacitista. Flávio pediu desculpas após a repercussão, mas o episódio voltou a colocar em evidência o tom pessoal adotado na campanha. Lula aproveitou a situação para retomar sua trajetória de trabalhador e questionar a postura do adversário.
O episódio foi um dos principais momentos do confronto, que permitiu a Lula explorar politicamente a provocação. A discussão também se conectou ao debate mais amplo sobre o uso de ataques pessoais em vez de propostas concretas.
Caso Ana Clara expõe disputa sobre segurança pública
A discussão sobre segurança pública ganhou destaque quando Lula trouxe ao debate o caso de Ana Clara Gomes Machado, menina de cinco anos morta por um tiro de fuzil durante uma ação policial em Niterói, no Rio de Janeiro, em 2021. A mãe da criança, Cristiane, estava presente no estúdio.
Flávio integrou a defesa do policial militar acusado pelo crime. Ao responder à abordagem de Lula, o senador confundiu o nome da mãe com o da menina, um erro que foi destacado na cobertura da imprensa. O caso tornou-se um dos momentos de maior tensão do debate porque levou a discussão sobre segurança pública para além das declarações genéricas sobre combate ao crime. Lula questionou a atuação de Flávio no processo, enquanto o senador tentou defender sua posição e voltou a criticar o governo.
A mãe de Ana Clara aguarda o julgamento do caso, que foi adiado para maio de 2027. A presença dela no estúdio deu visibilidade à demora judicial e à experiência da família, que virou tema central da disputa eleitoral.
Ataques voltam no bloco final
Depois de uma primeira parte relativamente mais contida, o debate voltou a ter acusações e questionamentos pessoais no bloco final. Lula cobrou respostas de Flávio sobre controvérsias envolvendo seus vínculos e aliados, incluindo questões relacionadas ao Banco Master e ao advogado Willer Tomaz. O senador, por sua vez, voltou a levantar acusações contra o presidente e sua família.
Em um dos momentos, diante da falta de resposta que considerou satisfatória, Lula afirmou:
“Eu sinceramente cansei de fazer perguntas para esse rapaz”.
As trocas de acusações dominaram parte do encerramento e reduziram o espaço para uma discussão mais aprofundada de propostas. Flávio perdeu o rumo em momentos importantes. Ele não respondeu diretamente a algumas perguntas, como sobre a questão sobre uma ilha em Angra dos Reis, que o jogador Richarlison afirma ter sido tomada por Flávio e um sócio. Em vez de esclarecer o caso, o senador mencionou um uísque supostamente dado a Lula pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro.
As acusações sobre Vorcaro e o financiamento de filmes também prejudicaram o encerramento de Fláio. Lula cobrou explicações sobre os R$ 134 milhões que teria solicitado para financiar um filme sobre Jair Bolsonaro. Flávio tentou inverter a acusação, citando um áudio atribuído a Vorcaro sobre recursos para um documentário relacionado a Lula. As trocas de acusações não esclareceram as questões levantadas.
Quem venceu o debate (na avaliação da imprensa)?
A avaliação da Folha foi direta: Lula venceu “por pontos”, expressão que indica uma vantagem no desempenho geral, sem um momento decisivo capaz de encerrar a disputa. O jornal considerou que o presidente conseguiu pressionar o adversário em questões sensíveis, sobretudo no tema da segurança pública, embora também tenha enfrentado dificuldades ao tratar de contas públicas.
O Terra reuniu opiniões diferentes. Parte dos especialistas consultados apontou vantagem de Lula, enquanto outro considerou que Flávio apresentou melhora em relação ao debate da Band, com maior moderação inicial e mais controle de sua apresentação. A Exame também observou que o presidente demonstrou maior desenvoltura ao defender as políticas de seus governos, enquanto o senador procurou dar mais espaço a propostas econômicas.
Lula recebeu avaliações favoráveis em análises que destacaram sua capacidade de confrontar o adversário e explorar os episódios de maior repercussão. Flávio, por sua vez, foi reconhecido por ter ajustado o tom em relação ao primeiro encontro, embora tenha enfrentado críticas por contradições e respostas consideradas insuficientes.
O impacto eleitoral do confronto permanece incerto. Com o segundo turno marcado para domingo (25), não há base suficiente para afirmar que o debate, isoladamente, tenha mudado o cenário da eleição. A disputa será decidida pelos votos nas urnas, e não pelas avaliações de comentaristas ou pela repercussão nas redes sociais.