O futuro depende de nós
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O futuro depende de nós

Uma reflexão inicial sobre os desafios do próximo período

Theo Louzada Lobato 29 out 2026, 17:35

Foto: Estudantes fazem manifestação histórica em Brasília pela campanha de Lula. (@fabiofelixdf)

Fomos vitoriosos. A primeira virada das eleições presidenciais brasileiras foi acompanhada de um dos maiores movimentos de massas da nossa história. O protagonismo tomado pela juventude e pelo movimento estudantil se transformou em uma disputa de ruas que supera em números as jornadas de Junho de 2013.

A fuga de Flávio para os Estados Unidos, como apoio do governo de Trump e suas bravatas golpistas, porém, deixa bem explícito que a disputa política não acabou com as eleições. A batalha travada pelo povo brasileiro teve importância global, exatamente pelo contexto em que se deu. Em meio a uma disputa decisiva de Trump nas eleições de meio termo e após uma ofensiva continental e uma ampliação do desgaste com a guerra no Irã, o enfrentamento e a crise política global e continental estão em uma crescente.

O Tsunami Antifascista brasileiro mostrou um caminho ao mundo e provou para a esquerda brasileira a importância da defesa das mobilizações e da a afirmação aberta de um programa à esquerda. Também demonstrou que, em momentos de crise, nossas disputas têm que ser feitas abertamente e na sociedade, que pouco nos adianta abaixar as bandeiras. Agora é necessário refletir os próximos passos. Como construir um caminho para a esquerda brasileira que consiga se fortalecer a partir dessas conclusões?


O caminho da esquerda precisa seguir nas ruas e na polarização social

A fuga e autodeclaração de Flávio Bolsonaro primeiro como presidente e depois como líder do Brasil, mesmo tendo baixíssimo reconhecimento mesmo entre a extrema-direita brasileira, são reflexos do cenário que o mundo e o Brasil vão seguir vivendo. Ou seja, estamos em um período que não tende a uma normalização ou estabilidade social.

A marca de “Exército” adotada no segundo turno e expressa por Janones no seu canal de WhatsApp, teve apelo por expressar um espírito conectado a um contexto real. Se a vitória eleitoral só foi possível porque mobilizou milhões que se viram como parte ativa de uma guerra, agora é preciso colocar que as eleições foram o fim de uma batalha decisiva, mas não da guerra em si.

A eleição de uma maioria pela extrema-direita no Congresso e o contexto político global de instabilidade, dão espaço para que o próximo período ainda seja marcado por tentativas golpistas ou ofensivas afins. A pior aposta possível da esquerda seria um recuo e uma busca por uma estabilização em um terreno que não permite isso.

Nisso, a indicação do próprio Lula sobre a necessidade de uma nova forma de governar é importante, mas precisa ser posta à prova. O mérito do segundo turno só pode ser compreendido a partir das dificuldades do primeiro. A estratégia de quatro anos de desmobilização social, articulação de um plano econômico neoliberal e cessão constante às pautas e políticas do centrão se mostraram incapazes como modelo de governabilidade e foram refletidos na primeira fase da campanha eleitoral.

Por outro lado, no segundo turno, a rejeição ao bolsonarismo se somou a um contexto internacional marcado pelo levante da Geração Z e permitiu um levante popular protagonizado pelos estudantes capaz de alcançar a vitória. Lula foi certeiro em compreender e abraçar esse movimento, mas este não foi resultado da estratégia de seu último governo e nem do da sua campanha, por mais que a figura referência histórica de Lula também foi também fundamental.

Para manter o governo eleito um freio de contingência contra a extrema-direita, portanto, há uma revisão radical a ser feita pela esquerda. Ou se assume que estamos em um contexto de crise, polarização social e uma disputa de longo prazo com a extrema-direita, ou vamos dar margem para que a reorganização do campo reacionário seja capaz de derrotar os acúmulos do atual movimento. As declarações de Durigan e Tebet reafirmando a necessidade de um ajuste fiscal demonstram a repetição de um caminho que tende à derrota.

A aposta do bolsonarismo e de seus aliados internacionais tem sido o de manter a polarização e defender um projeto reacionário por meio do enfrentamento. Para isso, utilizam seus aparatos multibilionários, mas também a rua e afirmação do seu projeto. Isso não os garante maioria social: a vitória brasileira e as dificuldades que Trump tem enfrentado demonstram isso.

A prioridade das ruas para a esquerda brasileira será, portanto, mais do que nunca necessária. Mas para isso, é preciso que haja motivos concretos para mobilizar a população. A defesa de uma agenda popular, que busque reformas estruturais precisa ser feita, mesmo com minoria congressual. A política, ainda mais no contexto atual, não se dá somente nos termos formais de maioria numérica congressual, mas sim na disputa social. As revoltas da geração Z mostraram isso globalmente e tivemos agora nossa prova no Brasil.

As últimas semanas deram uma lição. Se queremos realmente enfrentar a extrema-direita, a esquerda não pode se diluir e precisa lutar por uma agenda não somente antifascista, mas antineoliberal no país. Isso, porém, também só será possível se, em paralelo a essa disputa, também construirmos uma alternativa de futuro.

A esquerda radical e o PSOL

O Tsunami Antifascista abriu muitas portas e acelerou desenvolvimentos que estavam em curso. Milhões de pessoas, especialmente jovens, que participaram desse processo, estão refletindo ativamente sobre os próximos passos. As milhares de pessoas que se filiaram ao PSOL nos últimos dias são uma expressão explícita de uma busca pela organização coletiva que precisa ser compreendida e dada sentido político.

Nesse processo, também se vê a construção de novas referências na esquerda. Entre elas, a mudança de qualidade de figuras como Sâmia Bomfim, Jones Manoel, Fernanda Melchionna e Fábio Félix, todos representantes da esquerda radical, com mais de 200.000 votos e com visibilidade nacional, demonstram um caminho que não é particular do Brasil.

A renovação de alternativas à esquerda também é uma tendência que tem se fortalecido globalmente nos últimos anos. A reconstrução do Die Linke alemão, elegendo a prefeita de Berlim, a ampliação do DSA nos Estados Unidos, não somente com a eleição de Mamdani, mas o fortalecimento de outras figuras nacionais como Abdul El-Sayed, colocam como a aposta na polarização social e em uma agenda de enfrentamento tem permitido uma reconstrução internacional de um projeto de esquerda que afirme um programa antineoliberal.

A capacidade que o PSOL teve em passar a cláusula de barreira e o isolamento construído pelos setores que vinham atuando para sua diluição no PT e eram contra a sua independência, dão um novo espaço ao partido como uma referência no Brasil. Vale inclusive colocar que enquanto diversas figuras de campos distintos do partido, mas especialmente da esquerda radical, ganharam referência nessas eleições, o principal articulador dessa diluição, Guilherme Boulos, não conseguiu ocupar o papel de protagonista que se propunha.

Esse espaço e referência se dão por questões objetivas. A geração que se movimentou nas ruas vai buscar não somente um projeto de defesa contra a extrema-direita, mas uma saída que aponte um caminho diferente do traçado no último período histórico. Se a polarização é reflexo da crise global e se a luta de classes se amplia, é necessário a construção de um projeto que reflita esses anseios.

Nesse sentido, três objetivos serão fundamentais: apresentar programa, ampliar a referência e, principalmente, construir partido e organização coletiva. A projeção que a esquerda radical teve, é pela afirmação de um programa político. Ele precisa ser cada vez mais abertamente posto na sociedade: fim do arcabouço fiscal/teto de gastos, fim da autonomia do banco central, reestatização de setores estratégicos, reforma agrária e urbana, revogação de reformas antipopulares, valorização do trabalho, reindustrialização, avanço na proteção ambiental, entre tantas outras medidas. E em conjunto a isso, a afirmação que esse projeto se dá pela disputa social tanto de ideias quanto das ruas.

A apresentação aberta dessas ideias, o debate franco com os diversos setores da sociedade sobre nossas reflexões permite um crescimento da referência. Mas o desafio central também está conectado à organização. O salto que a esquerda radical teve em referência precisa e pode ser dado também na construção coletiva, em um campo orgânico e organizado na sociedade.

A ampliação da apresentação do PSOL enquanto alternativa, mas também da definição do seu papel como polarizador da sociedade, por meio de um projeto da esquerda radical, é fundamental. Mas isso só é possível a longo prazo com o fortalecimento dos coletivos, sindicatos e outros trabalhos orgânicos que construímos. Se a ampliação da referência social não se tornar uma ampliação do trabalho orgânico, ela se torna passageira.

As ruas demonstraram que o futuro será disputado de baixo para cima, ou seja, da construção coletiva feita e não somente de uma correlação de forças vista como cristalizada. Ela não é, as últimas semanas explicitaram isso. Mas mostraram também que o recuo das nossas bandeiras significa necessariamente o avanço da extrema-direita.

A disputa do futuro, portanto, precisa ser de um caminho que atue, compreenda e aposte na polarização. Se de alguma forma o governo de Lula partir das conclusões que ele mesmo indicou em suas falas após a vitória, terá mais sucesso do que se repetir a estratégia das últimas gestões petistas. Mas é preciso ir além, existem limites estratégicos da concepção de política da esquerda hegemônica que precisam ser superados na afirmação de uma nova identidade, baseada nos processos políticos brasileiros e internacionais e nas revoltas que vimos no último período.

Para isso, a afirmação de um projeto que aponte um caminho de ruptura é fundamental, mas ainda mais importante será a construção dele por baixo e a disputa desse setor que esteve em movimento e agora busca um novo caminho. Isso precisa ser feito desde já, seguindo preparados para enfrentar qualquer ofensiva da extrema-direita, apresentando abertamente nosso programa e chamando as pessoas para organizar sua indignação.


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