Os sindicatos alemães voltam a apostar no confronto
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Os sindicatos alemães voltam a apostar no confronto

Os ataques das entidades patronais e do governo de direita contra o modelo de cogestão alemão iniciam uma crescente resposta sindical

Thomas Schnee 10 out 2026, 08:00

Foto: Manifestação de trabalhadores automotivos em Stuttgart. (Christoph Schmidt/SWR Aktuell)

Via Viento Sur

Já se sabia que o outono social alemão seria bastante quente, sobretudo no setor automobilístico. Mas ninguém imaginava que a situação chegaria a esse ponto de ebulição. “Parece que os patrões já não querem assumir sua colaboração com os sindicatos. Os anúncios e as denúncias unilaterais de acordos por parte das direções das empresas se sucedem. Há um questionamento cada vez maior, por parte dos empregadores e da direita, da cogestão no mundo do trabalho”, conta Nicole Mayer-Ahuja, professora de sociologia do trabalho na Universidade de Göttingen.

Na Volkswagen, a notícia caiu como uma bomba na semana passada. Na quarta-feira, 30 de setembro, representantes dos trabalhadores e do sindicato IG Metall compareceram a uma “reunião de avaliação”. A pauta inicial se concentrava no andamento dos dois últimos programas de austeridade, que preveem a eliminação de pelo menos 100 mil postos de trabalho, cortes de bilhões de euros e o fechamento de várias fábricas, podendo chegar a quatro. Mas o que receberam foi um discurso que soou como um tapa na cara.

Arne Meiswinkel, diretor de Recursos Humanos da Volkswagen, colocou em dúvida os investimentos prometidos em novos modelos. Exigiu novos cortes e anunciou a rescisão unilateral de dez dos treze acordos coletivos que regulamentam as condições de trabalho dos 130 mil funcionários e funcionárias da marca. O que o executivo chama de “abertura de um espaço de negociação” deveria levar, entre outras coisas, à redução dos salários, ao aumento da jornada de trabalho e à diminuição das férias.

“É uma facada nas costas dos trabalhadores e, mais uma vez, uma tentativa descarada de meter a mão no bolso de quem trabalha. Não vamos aceitar isso”, reagiu Thorsten Gröger, presidente da seção regional da Baixa Saxônia do sindicato IG Metall. Daniela Cavallo, presidente do conselho de trabalhadores da Volkswagen, espera, naturalmente, um “forte confronto no final do ano”.

Na Mercedes, a situação é semelhante. No início de setembro, a “marca da estrela” informou aos representantes dos trabalhadores que pretendia aumentar a jornada semanal de 35 para 40 horas, sem compensação salarial. Se descontarmos os bônus, isso representaria uma redução de 20% nos salários. O grupo acredita que não conseguirá manter sua produção na Alemanha se os custos salariais não forem reduzidos. Seu parâmetro de comparação é a fábrica de Kecskemét, na Hungria, onde os custos de produção seriam 70% inferiores aos da Alemanha.

Uma agenda patronal reacionária

Legalmente, uma solicitação desse tipo deveria ter sido incluída na pauta das grandes negociações salariais do outono, que começam em 7 de outubro. Mas, também nesse caso, o diálogo social foi rompido: “As direções das empresas se comunicam por meio da imprensa, e não mais pelos conselhos de trabalhadores”, observa Nicole Mayer-Ahuja.

As empresas e a Associação Alemã da Indústria Automobilística (VDA) apresentam sua estratégia como uma questão de sobrevivência. Segundo o Departamento Federal de Estatística, a indústria automobilística empregava 834 mil trabalhadores e trabalhadoras em 2019, contra os 691 mil previstos para o final de 2025. De acordo com um estudo recente da consultoria Roland Berger, publicado pela revista Manager Magazin, o setor deverá perder pelo menos outros 200 mil postos de trabalho nos próximos cinco anos.

“As reestruturações em andamento ainda não representam o fim da história”, explica Felix Mogge, coautor do estudo, que analisa detalhadamente o caso da Volkswagen. Antes da pandemia de Covid-19, a empresa era capaz de produzir 15 milhões de carros por ano, tendo registrado um recorde de vendas de 11 milhões de veículos em 2019. Hoje, a meta anual da direção é de apenas 8 milhões de unidades, em um contexto de aumento dos preços da energia e dos materiais e de menor valor agregado dos veículos elétricos.

O estudo também menciona a taxa média de utilização da capacidade das fábricas alemãs: cerca de 60% em 2025, muito abaixo do ponto de equilíbrio financeiro, estimado em 75%.

A Federação Alemã de Empregadores lançou um ataque frontal aos conselhos de trabalhadores.

“Durante muito tempo, o IG Metall baseou sua estratégia na esperança de retomar as negociações tradicionais dentro dos marcos regulatórios existentes. Tudo isso partia da ideia de que a cogestão e as negociações permitem obter resultados melhores do que o conflito e o confronto”, analisa Nicole Mayer-Ahuja. Mas o modelo alemão de parceria social funciona cada vez menos, enquanto se multiplicam os casos de empresas como Tesla e SAP, que combatem abertamente a presença sindical ou a eleição de conselhos de trabalhadores.

Precisamente no início de setembro, a Federação Alemã de Empregadores (BDA) lançou um ataque frontal aos conselhos de trabalhadores. Em um documento recente da organização, esses órgãos são apresentados como excessivamente burocráticos, lentos e prejudiciais à inovação. “A Alemanha precisa ganhar agilidade e eficiência e reduzir sua burocracia”, afirma Rainer Dulger, presidente da BDA. Com esse argumento, a organização propõe restringir as atribuições dos representantes dos trabalhadores.

Entre as medidas propostas estão a redução dos prazos de negociação, a diminuição do tamanho e do orçamento desses órgãos e a limitação de seu direito de opinar sobre uma ampla variedade de temas, como questões ambientais, inteligência artificial, saúde ocupacional e organização da jornada de trabalho. A cereja do bolo para os empresários: a BDA quer permitir que os empregadores adotem medidas provisórias unilaterais em situações de emergência.

O perigo de um sindicalismo de extrema direita

Essas posições ultraliberais e reacionárias encontram eco nos círculos conservadores, mas também — e sobretudo — no partido Alternativa para a Alemanha (AfD). É verdade que o partido de extrema direita não perde a oportunidade de se apresentar como o partido dos trabalhadores desde que pesquisas eleitorais posteriores às eleições indicaram que uma parcela nada desprezível da classe trabalhadora vota nele. No entanto, seu Programa para a Alemanha não menciona sequer uma vez as palavras sindicato ou cogestão.

O deputado federal Hans-Jürgen Goßner, especialista do AfD nessa área, considera os sindicatos alemães poderosos demais, políticos demais e demasiadamente de esquerda. Ele defende uma atuação sindical moderada, restrita ao âmbito das empresas e voltada à defesa dos trabalhadores e trabalhadoras alemães.

Ainda é difícil avaliar com precisão o avanço do AfD no mundo do trabalho. Mas os grandes sindicatos já estão em estado de alerta.

Nas últimas eleições nacionais para representantes dos trabalhadores, realizadas em março, as listas dos chamados sindicatos livres, assim como as do Zentrum, uma associação próxima do AfD, conquistaram apenas uma parcela insignificante das cadeiras. O IG Metall, por sua vez, ficou com 85% das vagas.

Ainda assim, o Zentrum — organização criada em 2009 por Oliver Hilburger, operário mecânico da Mercedes e ex-guitarrista da banda de rock de extrema direita Noie Werte — está presente em cerca de dez fábricas automobilísticas da Mercedes, da BMW, da Porsche e até mesmo da Volkswagen.

Em consonância com as posições do AfD, o Zentrum defende o abandono da mobilidade elétrica e o retorno às fontes de energia fósseis russas baratas como forma de salvar o setor automobilístico alemão. “O domínio exercido durante décadas pelos sindicatos da DGB, a principal central sindical da Alemanha, não trouxe maior participação dos trabalhadores, mas provocou, em muitos lugares, estagnação, ajustes e cortes de empregos”, afirma também um artigo publicado no site da associação.

Por não possuir filiados em número suficiente, o Zentrum não tem o reconhecimento sindical legal e não está autorizado a negociar acordos coletivos. Mesmo assim, o temor de uma mudança de tendência é grande entre os sindicatos tradicionais. Em uma carta interna citada pelo blog Business Insider, representantes dos trabalhadores da Mercedes nas proximidades de Stuttgart pedem uma postura mais combativa e menos concessões à direção sindical.

Para a socióloga Nicole Mayer-Ahuja, a situação e a estratégia do AfD no mundo do trabalho ainda não estão claras:

Em uma empresa do setor automobilístico, onde muitos trabalhadores de origem imigrante também são colegas de trabalho, as linhas de conflito entre os trabalhadores e a direção são claras. No entanto, o AfD costuma ficar do lado dos patrões e defende pequenos sindicatos corporativistas no âmbito das empresas. Por isso, logicamente, as pessoas votam mais no IG Metall, que também dispõe de maior poder de negociação.

Ela ressalva, porém, que essas mesmas pessoas, quando saem da fábrica, são perfeitamente capazes de votar no AfD e apoiar o conceito de remigração de estrangeiros: “Por isso, é fundamental que os sindicatos adotem uma postura combativa e defendam claramente seus filiados nas próximas negociações, para impedir que a balança penda a favor de um sindicalismo de extrema direita.”

No norte da Alemanha, a seção costeira do IG Metall elaborou um verdadeiro documento de combate para interpelar os setores mais hesitantes do sindicato. “Queremos uma reorientação nacional de nossos esforços e recursos para aumentar nossa capacidade de confronto com os empregadores e enfrentar o risco da extrema direita”, explica Dominick Lauck, porta-voz da seção regional. “Para isso, queremos que nossa presença ultrapasse 50% dos trabalhadores e trabalhadoras no maior número possível de empresas.”

A área de atuação sindical dessa seção abrange o estado de Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, onde o AfD acaba de obter 38% dos votos. Mais ao sul, no estado da Saxônia, os riscos de uma mudança de rumo não são menores. Na fábrica da Volkswagen em Zwickau — que, apesar de suas linhas de produção ultramodernas, figura na lista de unidades cuja continuidade está ameaçada —, o cenário é preocupante.

Em caso de fechamento, as alternativas consideradas para essa unidade, que emprega oito mil pessoas e é o motor econômico da região, são a instalação de um grande centro de reciclagem ou a aquisição da fábrica por um fabricante chinês.


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