Tony Stark, a indústria armamentista e a fantasia do poder responsável
Ao transformar um fabricante de armas em super-herói, “Homem de Ferro” absolve o capitalista para não precisar julgar o capital
Foto: Divulgação
Durante três dias de abril de 2007, a Base Aérea de Edwards, no deserto da Califórnia, funcionou como estúdio de cinema. Cerca de 150 militares da Força Aérea e uma dúzia de fuzileiros navais foram escalados como figurantes, alguns dos aviões mais novos do país foram postos diante da câmera, e o diretor Jon Favreau saiu de lá dizendo que não poderia haver cenário melhor. O oficial destacado pelo Departamento de Defesa para acompanhar a produção também gostou do que viu. Em reportagem publicada pela própria Força Aérea, previu que a corporação sairia do filme com imagem de astro de rock. O filme era Homem de Ferro, a história de um fabricante de armas que decide parar de fabricar armas.
Começo por essa cena porque ela contém, em miniatura, tudo o que vem depois. Um filme que critica o comércio de armas é rodado com a colaboração do maior comprador de armas do mundo, e ninguém vê nisso um problema: nem o diretor, nem os militares, nem nós, que anos depois continuamos gostando do filme. Essa falta de atrito é o assunto deste artigo. Interessa menos denunciar Homem de Ferro do que entender como ele consegue ser, ao mesmo tempo, uma crítica sincera e um objeto perfeitamente confortável para aquilo que critica.
A história é conhecida. Tony Stark, herdeiro da Stark Industries, fornecedora de tecnologia militar do governo americano, está no Afeganistão, país então ocupado pelas tropas dos Estados Unidos, demonstrando um míssil novo para uma plateia de generais. Sua teoria sobre a paz, exposta ali mesmo, é que ela pertence a quem tem o porrete maior. Minutos depois, o comboio que o leva de volta é atacado, e a bomba que cai ao seu lado traz estampado o nome da empresa. Ele passa meses numa caverna, onde os sequestradores, armados com produtos Stark, exigem que construa o tal míssil. Fabrica uma armadura, escapa, volta para casa, pede um cheeseburger, convoca a imprensa e, sentado no chão, anuncia que a Stark Industries não fará mais armas.
Parece uma história de redenção, e é. Mas convém perguntar de quem. O filme não acompanha a transformação de uma indústria. Acompanha a crise de consciência de um patrão, que abandona a fabricação de armas sem abandonar a fortuna, a empresa ou a posição que elas lhe garantem. O que muda é a finalidade que ele atribui ao poder que já possuía. Repare-se, desde já, em como essa história fala de mãos: as armas caem em mãos erradas, o poder precisa ficar em boas mãos. Há um terceiro par de mãos de que o filme não fala nunca, e é nele que quero chegar.
As mãos erradas
Antes do sequestro, Tony Stark não tinha nenhum interesse em questionar a indústria bélica. Era seu garoto-propaganda. Convém lembrar também o que ele não era: um inventor que subiu na vida. Tony é herdeiro. Recebeu do pai a empresa, os contratos com o Estado e uma fortuna feita de guerras anteriores, e sua relação com as armas era marcada pela distância confortável que separa quem fabrica de quem morre.
O logotipo na bomba acaba com a distância. Pela primeira vez, Tony experimenta uma violência ligada ao próprio negócio, e o que antes era produto de demonstração vira ameaça apontada para ele. É um belo achado de roteiro, e é também uma confissão involuntária. As armas da Stark Industries já faziam vítimas naquela guerra antes daquele dia. Só se tornam um problema moral quando acertam o dono da fábrica, como se o sofrimento precisasse subir de classe para começar a contar.
Mais sintomática ainda é a natureza do escândalo. Tony não se revolta contra a guerra, nem contra a ocupação de um país pobre por um exército que ele mesmo abastece. Revolta-se ao descobrir suas armas nas mãos erradas, matando soldados americanos. O problema, para o filme, nunca foi o produto. Foi o cliente. A expressão “mãos erradas” carrega o argumento inteiro, porque pressupõe que existam as certas, e o filme não tem dúvida sobre quais sejam. A violência que segue o contrato continua sendo negócio legítimo, e os afegãos aparecem na tela em dois papéis, o de terrorista e o de vítima à espera de resgate, nunca como gente com algo a dizer sobre as bombas que caem em suas aldeias.
Há uma razão de ofício para isso. O cinema narra melhor pessoas do que estruturas, e concentrar o conflito em um personagem que é ao mesmo tempo produtor, proprietário e vítima resolve de uma vez o problema de como filmar a economia política da guerra: não se filma. A crítica nasce de uma experiência individual e, até os créditos finais, não sai dela.
O que fica de fora é quase tudo. Uma corporação daquele tamanho não é a vontade de um dono. É o trabalho de milhares de operários, engenheiros e técnicos, uma rede de fornecedores e investidores, e um casamento antigo com o Estado, que compra o que ela produz com dinheiro público. Depois da coletiva do cheeseburger, isso some. O filme registra a queda das ações e a tentativa do conselho de tirar Tony do comando, mas como contratempos na vida do protagonista. Quem trabalha naquelas fábricas não tem rosto, nem opinião, nem cena.
A parte da empresa que resiste à mudança ganha, essa sim, um rosto. Obadiah Stane, sócio do pai e braço direito do filho, vende armas pelas costas de Tony, articula sua derrubada e termina o filme dentro de uma armadura maior e mais feia, pronto para apanhar. O expediente é antigo e nunca falha. Tudo o que há de podre no negócio fica concentrado em um homem mau, e um homem mau pode ser derrotado em uma luta no terceiro ato. O capital que lucrava com as mesmas vendas, inclusive o de Tony, sai de cena sem ser incomodado. O detalhe está em que Stane só faz às claras o que a lógica do negócio manda, que é vender para quem paga. O filme o pune por excesso de coerência.
Nada disso é defeito de roteiro. É o limite de classe da história. Tony consegue dizer “não faço mais armas” porque é proprietário, e só um proprietário transforma arrependimento pessoal em decisão empresarial. Uma estrutura coletiva passa a ser compreendida a partir da consciência de quem manda nela, e o problema que o filme apresenta é muito maior do que a boa vontade de um empresário.
Quem deu a medida desse problema foi, ironicamente, um general. Na noite de 17 de janeiro de 1961, três dias antes de entregar a Presidência, Dwight Eisenhower fez pelo rádio e pela televisão seu discurso de despedida à nação. O homem que comandara as tropas aliadas na Europa, insuspeito de simpatias de esquerda, usou a ocasião para lembrar que os Estados Unidos haviam passado a depender de uma indústria permanente de defesa, de grandes proporções e cada vez mais próxima das Forças Armadas. Não o preocupava a existência dessa indústria. Preocupava a influência econômica e política que ela poderia adquirir sobre as decisões do governo. É significativo que o aviso tenha vindo de dentro, e mais significativo ainda que não tenha adiantado.
Os números de hoje mostram quem ganhou aquela disputa. Todo ano, o Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI) publica o ranking das cem maiores produtoras de armas e prestadoras de serviços militares do mundo. A edição divulgada em dezembro de 2025 registrou US$ 679 bilhões em receitas com esse negócio em 2024, o maior valor da série, dos quais US$ 334 bilhões ficaram com as 39 empresas americanas da lista. Quatro meses depois, em abril de 2026, o relatório do mesmo instituto sobre gastos militares trouxe outro recorde: US$ 2,887 trilhões no planeta em 2025. Os Estados Unidos, mesmo num ano de queda, responderam por US$ 954 bilhões, cerca de um terço do total. É dinheiro de imposto que entra como orçamento de defesa e sai como lucro privado.
Diante dessa escala, a ideia de mãos erradas perde o sentido. Uma indústria que vive de pesquisa, manutenção, atualização e treinamento, e que continua faturando anos depois da primeira venda, não tem na guerra um acidente infeliz. Tem um mercado, e mercado precisa crescer. A Stark Industries condensa numa corporação imaginária essa relação entre capital privado, tecnologia militar e Estado, e o filme a dissolve no instante em que Tony fecha a divisão de armas. A partir dali, a questão deixa de ser como funciona aquela indústria e passa a ser o que Tony fará com o que acumulou dentro dela. A resposta é a armadura.
As mãos que não aparecem
Tony não abandona a tecnologia. Ele a leva para casa. A primeira armadura, feita de sucata numa caverna, serve para fugir; as seguintes nascem na oficina de sua mansão, cada uma mais sofisticada que a anterior. É ali que o filme passa a morar, e os testes de voo na garagem substituem as demonstrações de mísseis como principal espetáculo do personagem.
Seria ingênuo fingir que essas cenas não funcionam. São as melhores do filme. Acompanhamos cada melhoria, conferimos cada recurso, torcemos para que a coisa voe, e quando voa a satisfação é nossa também. Vale a pena não desviar os olhos desse prazer, porque é nele que o filme faz seu trabalho. A armadura é uma arma, a mais avançada do planeta, e é o objeto mais desejável em cena. O filme condena a arma e vende a armadura, e nós compramos.
O que compramos, exatamente, merece atenção. Tony deixa de fabricar armas para terceiros e constrói uma que só ele controla. É difícil chamar isso de desarmamento. O meio de destruição sai do mercado e vira propriedade particular de um bilionário, e essa passagem do comércio para a posse é apresentada como progresso moral. Para ele, trata-se de uma redenção muito confortável. Não recomeça de baixo nem abre mão da inteligência, da fortuna ou da posição social. Muda o uso que faz delas, e tem dinheiro para montar a oficina, conhecimento para projetar a armadura e liberdade para decidir sozinho o que fará dali em diante.
A fortuna, no filme, não tem passado. A mansão, os carros e os equipamentos aparecem como extensões da personalidade de Tony, não como o que são: décadas de venda de armas e de trabalho alheio. Ele é rico, portanto pode ser independente. É rico, portanto pode construir o que quiser. É rico, portanto pode transformar uma ideia em tecnologia sem prestar contas a ninguém. Em nenhum momento a história cobra dele o que ganhou. A redenção sai de graça, e o capital acumulado com a guerra é lavado pelo heroísmo. A concentração de recursos nunca aparece como obstáculo, porque para o filme o problema jamais foi que um homem tivesse tanto poder. Foi o que ele fazia com esse poder antes do sequestro.
A genialidade completa o serviço. A oficina concentra numa única pessoa conhecimentos que, no mundo real, são produzidos por equipes inteiras de pesquisadores, engenheiros e operários. Eisenhower já sabia disso em 1961: no mesmo discurso de despedida, notou que a pesquisa havia se tornado cara e complexa demais para o inventor solitário e era cada vez mais feita por encomenda do governo. Na oficina de Tony, os únicos colegas de trabalho são braços mecânicos e um mordomo digital, ambos fabricados por ele. A imagem não é inocente. As únicas mãos que trabalham ali, além das do dono, são de máquina.
Chego assim ao terceiro par de mãos, o que o filme não mostra. Marx tem um nome para esse sumiço. No primeiro capítulo de O capital, ele chama de fetichismo da mercadoria a ilusão pela qual o produto aparece pronto, brilhante, dotado de vida própria, enquanto o trabalho que o fez some de vista. A armadura é o fetiche em estado puro: reluz, voa, fala, e nenhuma mão de operário encostou nela. O filme que tanto se preocupa com as mãos em que as armas vão parar não dedica um plano às mãos que as fabricam. Isso brota tanto da tradição dos super-heróis quanto da cartilha ideológica do nosso tempo: a mitologia do empresário salvador que se propõe a sanar, por meio de sua suposta genialidade tecnológica, as crises estruturais que o próprio capitalismo gerou. Elon Musk encarna essa farsa contemporânea, erguendo sua persona pública sobre a promessa messiânica de reinventar o futuro com disrupção. Para heróis e bilionários, a ordem social pode ficar intocada; o que importa é a epifania do indivíduo.
As boas mãos
Falta entender por que tudo isso convence. Antonio Gramsci oferece o melhor instrumento. Nos Cadernos do cárcere, o italiano mostra que uma classe não governa apenas pela força. Governa também pelo consentimento, fazendo com que suas ideias virem senso comum e passem a organizar a percepção que todos têm da realidade. E esse consentimento não brota sozinho. Nas notas reunidas em Os intelectuais e a organização da cultura, Gramsci insiste que ele é trabalho de gente concreta, de quem produz as ideias, as imagens e as histórias com que uma sociedade se explica. Um estúdio de cinema é uma dessas oficinas. Importa o que um filme afirma, e importa mais ainda aquilo que sua narrativa torna familiar, desejável e plausível.
A cena de Edwards volta a fazer sentido aqui. O Departamento de Defesa cedeu caças, helicópteros e até tecido para os uniformes, e em troca opinou sobre cenas e diálogos que retratavam os militares. Está tudo documentado sem constrangimento: o catálogo do American Film Institute registra, entre os agradecimentos dos créditos finais, o Departamento de Defesa e a base aérea. Não houve conspiração, e é isso que a torna instrutiva. Hegemonia é quando o Pentágono e um filme contra as armas trabalham juntos e os dois saem satisfeitos.
Por isso chamar o filme de propaganda seria pouco, e seria também errar o alvo. Propaganda se reconhece e se recusa. O que temos aqui é mais eficiente, e funciona porque a crítica é real: Tony é confrontado com as consequências de seu trabalho, as armas são associadas à violência, a indústria aparece como espaço de interesses capazes de produzir danos graves. O filme não mente sobre o problema. Muda sua escala. A questão inicial é coletiva, e diz respeito a quem produz armas, para quem, com que dinheiro e a serviço de quais interesses. A narrativa a troca por outra, bem menor, que é a de saber o que um indivíduo fará quando perceber as consequências de seu próprio trabalho.
Convém formular a tese com cuidado. O roteiro não transforma a indústria bélica em benfeitora da humanidade, nem a tira de cena. Desloca a corporação do centro do palco e concentra em Tony Stark os atributos de poder que antes pertenciam àquela estrutura anônima. Nada é desmontado: a fortuna, a tecnologia e a capacidade de destruir apenas mudam de fachada. É essa a fantasia do poder responsável. O poder não precisa ser abandonado para se tornar legítimo, precisa estar nas mãos de alguém que saiba usá-lo. Não conheço ideia mais conveniente para uma classe dominante, porque ela dispensa qualquer controle que não seja a consciência do próprio dono. Nada de regulação, nada de controle público, nada de democracia sobre o que se produz. Tony não precisa deixar o mundo do poder para ser herói. Precisa apenas convencer o público de que consegue administrá-lo, e o público, que somos nós, se deixa convencer com gosto.
Daí o interesse do personagem, que é maior do que a leitura simplista do “bilionário que virou herói” faz supor. A transformação oferecida só cabe em seu universo por ser inofensiva: deixa a propriedade onde estava. O que se torna heroico não é a indústria armamentista, mas a possibilidade de possuir individualmente aquilo que ela produz.
Quase vinte anos depois da estreia, o setor de defesa fatura como nunca, e nenhum magnata arrependido apareceu para fechar uma fábrica de armas. Não aparecerá. Tony Stark resolve seu conflito porque a ficção pode suspender as leis que valem fora dela. O capital real não tem crise de consciência; tem acionistas.
O filme termina em outra entrevista coletiva. Tony recebe uma versão pronta para negar qualquer relação com a armadura, começa a recitá-la diante dos jornalistas, desiste no meio e diz que o Homem de Ferro é ele. É a cena mais lembrada do filme, e com razão, porque nela a fantasia se declara. Não se promete um mundo sem armas. Promete-se um mundo em que o poder de destruição continua existindo, agora com nome, rosto e boas intenções. Tony Stark não derrota a indústria armamentista: encontra um jeito de continuar poderoso depois de romper com ela.
O filme trata como resolvida a única questão que interessa. Se o problema está apenas na finalidade dada ao poder, alguém precisa decidir qual é a finalidade correta, e Homem de Ferro entrega essa decisão ao dono. A nossa resposta precisa ser outra, e ela começa por trocar de mãos. Enquanto a discussão for sobre quem merece controlar esse poder, e não sobre como ele é produzido, com o trabalho de quem e a serviço de quem, continuaremos esperando que um bilionário acorde diferente numa caverna. Poder desse tamanho não tem boas mãos. Ou passa ao controle das que o produzem e das que sofrem seus efeitos, ou continua sendo o que sempre foi.