Um início de movimento nunca visto antes

Um início de movimento nunca visto antes

A onda de manifestações secundaristas que tomou a França

Antoine Larrache e Elsa Collonges 7 out 2026, 18:21

A mobilização registrada dia 6 de outubro é excepcional. Com mais de 90% das universidades bloqueadas, segundo a União Estudantil, e 1.800 escolas de ensino médio bloqueadas, segundo a União Sindical dos Alunos do Ensino Médio, o movimento se mostra, desde o início, mais forte do que havia sido o movimento contra o CPE de 2006, o último grande movimento — e vitorioso — da juventude. O futuro desse movimento talvez seja ainda mais importante.

Esse movimento começou nos bairros populares, onde os alunos do ensino médio enfrentam as condições de estudo e de vida mais difíceis do país, com uma falta de recursos — falta de pessoal e das instalações periclitantes — que compromete suas possibilidades de estudar, além de discriminações sociais personificadas, notadamente pelo Parcoursup, associadas a um racismo e a um autoritarismo permanentes. Foi a repressão “sem limites”, nas palavras do ministro do Interior — é preciso entender que a polícia se acha autorizada a mutilar, cegar, torturar, espancar, prender… — que estendeu a mobilização a toda a juventude. Por mais que os aparatos sindicais e políticos tenham se mostrado relutantes, nos últimos anos, em lançar mobilizações, a juventude pode se orgulhar de sua reação solidária. A juventude coloca em primeiro plano a luta social, antirracista e pela Palestina.

Entender a mobilização no seu contexto

Só dá para entender esta mobilização mediante a análise da situação social e dos conflitos políticos e de classe em curso na França. O poder de compra se deteriorou fortemente, sobretudo com os preços dos alimentos e da energia; a qualidade dos serviços públicos está cada vez mais degradada (transporte, moradia, educação, saúde!), enquanto a legitimidade do governo nunca foi tão baixa. Estavam previstas mobilizações em 17 de outubro e 5 de novembro em prol do poder de compra, após um primeiro dia de luta (em 29/09) pela função pública que teve resultados médios.

A violência exercida pelo governo também deve ser entendida nesse contexto: o poder está com medo, compreendeu rapidamente que o movimento poderia se expandir e permitir uma expressão generalizada da raiva social e política. Acreditou que o clima de autoritarismo e racismo lhe permitiria fazer com que essa repressão fosse aceita, e calculou mal sua jogada. Tentou conter a mobilização deste 6 de outubro com proibições em massa de aglomerações em frente às escolas de ensino médio — uma medida totalmente inédita e extremamente autoritária — e, mais uma vez, foi incapaz de fazer com que essa proibição fosse respeitada: a polícia não consegui dar conta tamanha a  magnitude da mobilização. Essa medida demonstra, aliás, mais uma vez, que o perigo ditatorial não provém apenas do RN. É até possível que, para resolver a crise atual, a classe dominante esteja disposta a uma aliança entre a direita e a extrema direita.

E agora? Construir!

Um movimento excepcional precisa se consolidar e – sem dúvida alguma – vai se consolidar. A tentativa do governo de reservar horários para debates nas escolas de ensino médio nos próximos dias fracassará lamentavelmente, pois não atende à necessidade da juventude de se expressar livremente, sem o jugo institucional, e porque o movimento já ultrapassa amplamente os limites das escolas de ensino médio.

Para esta consolidação, vários pontos são essenciais:

• As reivindicações. O movimento deve tentar adotar uma plataforma de reivindicações com, em primeiro plano, um pacote orçamentário que permita sair da miséria, por exemplo, de 20 bilhões de euros (a FSU [Federação Sindical Unitária, a primeira federação sindical na educação] reivindica um plano de emergência de 5 bilhões por ano durante 10 anos), e turmas com no máximo 25 alunos por sala. É absolutamente necessário opor-se a qualquer forma de seleção: é preciso acabar com o Parcoursup e o MonMaster e retornar ao princípio de que “todo estudante tem o direito de se matricular no curso de sua escolha na universidade de sua escolha” (lei Savary de 1984). Outras reivindicações surgirão no movimento, relativas aos recursos, à pedagogia, à Palestina, ao racismo e à ecologia, embora seja difícil conferir-lhes força concreta para que sejam bem-sucedidas. O desarmamento da polícia seria uma reivindicação concreta viável.

• A auto-organização, a massificação e a unidade. Todo movimento deve empenhar-se em maximizar a autoatividade das massas. Essa preocupação gera tensões permanentes entre a autoorganização e a unidade das organizações, entre a radicalização de uma minoria e a necessidade de envolver todos, entre os quadros de autoorganização e as organizações. É responsabilidade dos militantes trabalhar na construção de estruturas de autoorganização democráticas, ou seja, que não se limitem a reunir uma minoria, mas busquem constantemente envolver um número maior de pessoas de forma unificada, o que implica fazer concessões. Para fazer concessões e construir uma representação democrática que permita agir politicamente, é preciso tentar formar coordenações nacionais e um comitê central da greve.

• Fazer com que se tema a greve geral. Há mais de 40 anos, nenhum movimento – especialmente da juventude – venceu sem fazer com que o poder temesse a possibilidade de uma greve geral. O movimento deve, portanto, ter entre suas preocupações o fato de se dirigir aos assalariados. Sem abandonar o campo da juventude — não se retira os alunos do ensino médio de sua luta para ir apenas fazer mobilizações em frente às empresas —, mas com grande determinação, especialmente nas discussões sobre os ritmos do movimento e na interpelação das organizações sindicais — da base ao topo. O primeiro passo é organizar uma greve na educação, pois os bloqueios minoritários não serão suficientes e o governo encontrará soluções alternativas, como as aulas à distância.

Além da juventude, os militantes e as organizações têm a responsabilidade não apenas de divulgar as reivindicações essenciais do movimento juvenil, mas também de ampliá-las para incluir salários, aposentadorias, todas as rendas e os serviços públicos. Aumentos de 400 euros líquidos e um milhão de contratações nos serviços públicos são reivindicações que podem ampliar e solidificar o movimento.

Construir um confronto político

A mobilização já possui um forte conteúdo político: ela aborda a Palestina, o racismo, as divisões de classe, a legitimidade do governo e Macron. A politização é um trunfo para o movimento, desde que não o faça esquecer a necessidade de reivindicações concretas e de ações de base que o fortaleçam.

Nessa luta, alguns esquerdistas tentarão semear a divisão, denunciando as estruturas sindicais ou os políticos que pretendem ser eleitos em 2027, ou clamarão pela revolução social. Por outro lado, certas estruturas procurarão negociar, estabilizar a situação ou se recusarão a exigir a saída de Macron.

Mas a politização deve ser a concretização, em um determinado momento, do grau de amadurecimento do movimento – Marx dizia que a humanidade só se coloca os problemas que é capaz de resolver. Por enquanto, parece possível, tanto para ganhar nas reivindicações concretas quanto para expressar a ilegitimidade do poder — especialmente a partir da questão da repressão —, trabalhar gradualmente em reivindicações como “Fora Macron” ou “Fora o governo Lecornu”, de ampliar a discussão para a questão mais ampla do orçamento, da oposição entre necessidades sociais e a marcha para a guerra, de trabalhar pela greve geral (que, como todos sabem, não se decreta, mas se constrói), por uma assembleia constituinte, etc., de acordo com o grau de amadurecimento do movimento.

A preparação da votação do orçamento do Estado já está comprometida, e isso é algo muito positivo: o movimento pressionará todas as forças políticas. A partir de hoje, devemos interpelar toda a esquerda de ruptura, em particular a LFI, para que a unidade não seja apenas eleitoral, mas também social. A questão do orçamento não deve permanecer confinada à Assembleia, como aconteceu no ano passado. As organizações políticas que nela têm representação têm a responsabilidade de estabelecer uma articulação com o movimento social, nas ruas.

A mobilização atual coloca tudo em questão: trata-se de uma crise no sentido de que uma série de contradições vem à tona. Ela pode, portanto, mudar tudo, desde o papel do RN até as relações de força do movimento operário com as demais classes. E o desfecho da eleição presidencial. Ela deve, portanto, ser encarada com a maior seriedade, pois a vitória ou a derrota (que pode assumir diversas formas, entre negociações e uma fuga para a frente de esquerda) determinarão muitas coisas para os próximos meses e até mesmo para os próximos anos. Tanto mais que as mobilizações no Estado espanhol, que derrubaram o governo, e nas escolas de ensino médio da Bélgica, contribuem para abrir esse caminho.


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