Um violento desejo de felicidade – a luta dos estudantes secundaristas da França
A mobilização dos estudantes franceses representa um chamado a luta para a juventude de todo o mundo
Foto: Manifestação de estudantes franceses. (Martin Noda/Hans Lucas/Photothèque Rouge)
O ódio dos franceses ao Estado parece ser tão hereditário quanto incurável. Desde a Queda da Bastilha, há uma pequena revolta murmurando na França, especialmente nos subúrbios, que vem à tona nas ruas em cada injustiça social sofrida. Agora, em 2026, uma das maiores mobilizações da história da França é protagonizada pelo movimento estudantil secundarista. Não é segredo que as escolas públicas, principalmente periféricas, do Brasil são sucateadas e abandonadas e, ao redor do mundo, o cenário não é tão diferente.
A revolta que hoje incendeia o país iniciou em meados de setembro em Seine-Saint-Denis, região periférica ao norte de Paris, dado o completo descaso do governo com as escolas. Aulas vagas, salas de aula superlotadas, ratos nas escolas, infraestrutura comprometida e falta de recursos para a educação são apenas uma parte do problema. A queda no poder de compra, medidas de austeridade e uma nova política de ingresso ao ensino superior que, na prática, é ainda mais excludente, também fazem parte dos problemas relatados pelos estudantes, mas parte crucial no início das mobilizações é a denúncia do racismo por parte da polícia.
O movimento foi tomando mais força a cada dia e rapidamente tomou conta de Paris, somando centenas de escolas e universidades paralisadas, incluindo a L’École du Louvre, instituição de ensino superior ligada ao Ministério da Cultura da França e no coração do Palácio do Louvre, que foi bloqueada pela primeira vez em sua história na sexta-feira, dia 09 de outubro.
A resposta do Estado, que aqui toma os nomes de Macron e Lecornu, é a repressão policial como nunca vista antes. Cerca de 6.800 pessoas presas e 86% dessas pessoas (mais de 4.000) são estudantes menores de idade. Além dos detidos, centenas de estudantes foram feridos no confronto com a polícia. Nos casos mais graves, um estudante de 16 anos perdeu a visão de um dos olhos devido a uma bala de borracha e um estudante de 14 anos perdeu alguns dentes e sofreu uma grave fratura na mandíbula pelo impacto de uma granada e, no dia 05 de outubro, um estudante de 15 anos perdeu uma das mãos na explosão de uma granada usada pela polícia. O mais revoltante é que, na quarta-feira (07 de outubro), Lecornu fez declarações reiterando seu apoio à postura violenta dos policiais.
Contrariando o pensamento lógico de diminuir as manifestações conforme a repressão aumentava, a violência policial foi um combustível para os estudantes. Os atos de rua deixaram de ser somente sobre as escolas e passaram a ser atos contra a repressão e contra o crescimento da extrema-direita, nesse momento as reivindicações dos estudantes são, principalmente, antifascistas. Apesar de haver um apoio massivo da sociedade francesa, que acredita que as demandas e o movimento são legítimos, há um certo paradoxo — a maior parte da sociedade francesa acredita que a ação violenta dos policiais também é legítima.
De novo é outubro e de novo um espectro com bandeiras vermelhas toma conta da Europa, e agora também da América Latina. De novo é a França e de novo a Praça da Bastilha é tomada por dezenas de milhares de manifestantes, em sua maioria adolescentes, que fazem história no dia 08 de outubro ao buscarem seu direito de serem ouvidos. As ruas de diversos países são ocupadas por milhares de pessoas e, apesar de demandas diferentes, a luta é sempre a mesma: contra o sistema capitalista.
Em todo o mundo, na Europa, nas Américas ou na Ásia, nós nos organizaremos, iremos às ruas, e tornaremos o impossível inevitável.