A extrema direita perdeu. E agora?
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A extrema direita perdeu. E agora?

As derrotas eleitorais da extrema direita abrem uma oportunidade, mas não resolvem o problema estratégico da esquerda. É preciso enfrentar os interesses do capital, e não apenas administrar suas consequências

Luciana Genro 5 nov 2026, 17:48

Foto: Comício de Lula em Porto Alegre. (Ricardo Stuckert/Reprodução)

A reeleição de Lula e a avassaladora vitória dos Democratas nas eleições legislativas dos Estados Unidos representam derrotas eleitorais importantes para a extrema direita internacional. São resultados que merecem ser comemorados. Demonstram que a extrema direita não é invencível e que a mobilização democrática é capaz de impor limites a projetos autoritários.

Entretanto sabemos que a derrota eleitoral dos representantes da extrema dirieta não significa a derrota histórica do fenômeno político que sustenta esta vertente política.

Um fenômeno internacional, uma crise estrutural

A extrema direita sempre existiu. Foi derrotada na II Guerra Mundial mas o ovo da serpente seguiu vivo, aguardando a sua nova oportunidade. A força que esta ideologia adquiriu nas primeiras décadas do século XXI constitui um dos fenômenos políticos mais significativos da conjuntura internacional. Sua expansão não pode ser compreendida como uma sucessão de episódios nacionais isolados, mas como expressão das contradições do capitalismo contemporâneo e da crise de representação das democracias liberais.

O cientista político holandês Cas Mudde identifica quatro ondas da extrema direita no período posterior à Segunda Guerra Mundial. A quarta onda, que caracteriza o período atual, tem como uma de suas principais marcas a normalização de ideias e organizações que anteriormente ocupavam posições marginais. A extrema direita deixou de ser apenas uma força de contestação externa e passou a disputar diretamente o poder, integrar governos e influenciar a agenda dos partidos tradicionais.

Pela primeira vez desde a derrota do fascismo clássico, movimentos de extrema direita voltaram a apresentar possibilidades concretas de conquistar o poder em diferentes países e transformar profundamente as instituições da democracia burguesa.

Trump, Orbán, Modi, Milei, Bolsonaro, Le Pen, o Vox espanhol, o Chega português e a AfD alemã são expressões distintas de um mesmo fenômeno internacional. Embora tenham particularidades nacionais, compartilham elementos importantes: nacionalismo excludente, autoritarismo, violência política, anticomunismo, hostilidade aos movimentos sociais, ataques aos direitos das minorias e defesa de uma ordem social hierárquica.

Prometem um renascimento nacional, para o qual a violência aparece como instrumento de purificação política e social. O inimigo interno precisa ser identificado e derrotado: comunistas, imigrantes, feministas, movimentos LGBTQIA+, sindicatos, intelectuais e universidades.

Da crise de 2008 à ascensão da extrema direita

A crise financeira internacional de 2008 foi um marco decisivo para compreender a configuração política atual. Ela revelou os limites de um modelo econômico que prometia crescimento e prosperidade, mas produziu concentração de riqueza, precarização do trabalho e insegurança social.

A primeira resposta política a esta crise não veio da direita. Em diferentes países, surgiram grandes manifestações de contestação ao sistema econômico e às instituições políticas. Na Grécia, o Syriza expressou a possibilidade de uma alternativa à austeridade. Na Espanha, o movimento dos Indignados abriu caminho para o Podemos. Nos Estados Unidos, o Occupy Wall Street denunciou a concentração de riqueza e o poder do sistema financeiro. As revoltas árabes, especialmente a ocupação da Praça Tahrir, no Egito, expressaram a revolta contra regimes autoritários. No Brasil, as manifestações de junho de 2013 também revelaram uma profunda insatisfação com as instituições e a representação política.

Esses movimentos expressavam a contestação à ordem estabelecida e a percepção de que as instituições não respondiam às necessidades da população.

Entretanto, aquela energia de contestação não se converteu, de maneira geral, em transformações estruturais. Parte dessas experiências foi derrotada, institucionalizada ou perdeu capacidade de mobilização. A frustração abriu espaço para que setores sociais inicialmente insatisfeitos com o sistema fossem atraídos por alternativas à direita.

A extrema direita soube ocupar esse em uma operação política eficiente: apresentar-se como alternativa antissistema, mesmo defendendo projetos econômicos que preservam e aprofundam os interesses das classes dominantes.

A contradição do projeto da extrema direita

Existe uma contradição fundamental no discurso da extrema direita contemporânea. Ela promete defender os trabalhadores, recuperar o poder de compra das famílias e combater privilégios. Entretanto, quando chega ao governo, aplica políticas de desregulamentação econômica, redução de direitos sociais, enfraquecimento dos serviços públicos, privatizações e transferência de renda para os setores mais ricos.

Milei, na Argentina, é uma expressão evidente dessa contradição. Seu discurso de enfrentamento às elites políticas convive com um programa de austeridade brutal, cujos custos recaem principalmente sobre trabalhadores e setores vulneráveis.

A extrema direita contemporânea também apresenta uma mutação em relação ao fascismo clássico. Embora historicamente associada à exaltação do Estado e à mobilização nacional em torno de um projeto autoritário, parte significativa de suas expressões atuais incorpora um discurso antiestatal, especialmente no campo econômico.

Isso não significa que tenha abandonado a defesa de um Estado forte, mas sim que pretende redefinir suas funções: um Estado menos comprometido com a proteção social, mas mais forte na repressão, no controle dos conflitos e na defesa da propriedade e da ordem. Não se trata de um Estado fraco, mas de um Estado seletivamente forte.

A experiência chilena sob Pinochet oferece uma referência histórica dessa combinação entre neoliberalismo econômico e repressão política. A implantação de um programa radical de reorganização capitalista ocorreu sob uma ditadura que destruiu organizações populares, perseguiu sindicatos, eliminou liberdades democráticas, perseguiu e matou ativistas.

Mesmo a democracia burguesa pode constituir um obstáculo à aplicação de medidas de austeridade e à imposição de sacrifícios sociais. Portanto, quando os mecanismos de representação e negociação limitam a liberdade de ação das classes dominantes, cresce a tentação de recorrer a soluções autoritárias.

É nesse contexto que devemos compreender a relação entre extrema direita e interesses econômicos dominantes. Embora não exista identidade completa entre ambos, há convergência quando se trata de preservar a ordem capitalista e conter a capacidade de organização dos trabalhadores.

O fascismo e a normalização do autoritarismo

A história ensina que o fascismo não chegou ao poder apenas pela força de seus próprios movimentos. Também contou com a colaboração de setores das classes dominantes e com a disposição de parcelas das elites políticas de acomodar-se ao autoritarismo.

Na Itália do entreguerras, houve iniciativas para institucionalizar e normalizar o regime de Mussolini, procurando conferir estabilidade jurídica e política à nova ordem. O objetivo não era transformar o fascismo em democracia, mas torná-lo politicamente estável e duradouro.

Essa experiência é importante para compreender a relação entre a extrema direita e os setores liberais e conservadores contemporâneos. A tentativa de domesticar o autoritarismo, incorporando parte de sua agenda e acreditando ser possível controlá-lo, pode acabar fortalecendo aquilo que se pretendia conter.

A extrema direita não precisa abolir imediatamente todas as instituições da democracia burguesa para enfraquecer as liberdades democráticas. Pode fazê-lo gradualmente, atacando a imprensa, deslegitimando eleições, perseguindo opositores e transformando setores da sociedade em em inimigos a serem eliminados. É uma estratégia de erosão democrática que preserva as aparências institucionais enquanto esvazia seu conteúdo.

Antonio Gramsci, ao analisar a crise do liberalismo e a ascensão do fascismo, identificou a dimensão internacional desse fenômeno e sua relação com a crise aberta pela Primeira Guerra Mundial. O fascismo não era apenas uma particularidade italiana, mas uma resposta política às contradições de uma ordem social em transformação.

A atual extrema direita também precisa ser compreendida nessa dimensão internacional. Suas manifestações nacionais possuem particularidades, mas compartilham uma base estrutural: a incapacidade do capitalismo de produzir estabilidade social e a ausência de uma alternativa política capaz de organizar a insatisfação popular em torno de um projeto emancipatório.

O que mudou com as derrotas eleitorais?

As vitórias de Lula no Brasil e dos Democratas nos Estados Unidos demonstram que existe espaço para derrotar eleitoralmente a extrema direita, inclusive em contextos de intensa polarização.

No Brasil, a reeleição de Lula impediu que o bolsonarismo recuperasse diretamente o controle do governo federal. A vitória também reafirmou a importância da mobilização popular, especialmente da juventude que saiu às ruas no segundo turno.

Nos Estados Unidos, a conquista das duas casas legislativas pelos Democratas representa um revés expressivo para Trump. A nova correlação de forças limita sua capacidade de aprovar medidas legislativas, amplia a fiscalização do Executivo e abre espaço para enfrentamentos sociais e institucionais. O fortalecimento da ala socialista do Partido Democrata demonstra um espaço crescente às ideias de uma esquerda consequente.

Essas vitórias têm importância concreta. Podem interromper ataques a direitos, dificultar políticas autoritárias e abrir novas possibilidades para a reorganização das forças democráticas e populares.

Mas é necessário compreender seus limites, A extrema direita pode ser derrotada, mas continua profundamente enraizada em setores da sociedade. Seria um erro interpretar esses resultados como o encerramento de um ciclo histórico. São derrotas importantes dentro de uma disputa ainda em andamento.

A crise da democracia liberal e o impasse da esquerda

A ascensão da extrema direita não pode ser explicada somente por sua capacidade de mobilização ideológica. Ela também é resultado das frustrações produzidas pela democracia liberal e por governos progressistas que chegaram ao poder sem alterar os fundamentos da organização econômica e social.

Quando a população percebe que a alternância de governos não modifica substancialmente suas condições de vida, abre-se espaço para discursos que prometem soluções fáceis – e falsas – para problemas reais e complexos. A extrema direita explora esse sentimento, apresentando-se como força de transformação, embora seu programa econômico esteja comprometido com a manutenção das estruturas de poder.

Esse processo também precisa ser compreendido a partir das mudanças no mundo do trabalho. A precarização das relações trabalhistas, a informalidade, a fragmentação das categorias profissionais e o enfraquecimento das organizações sindicais dificultam a construção de identidades coletivas e a organização política da classe trabalhadora.

A classe trabalhadora continua sendo o sujeito social fundamental de qualquer projeto de transformação socialista. Entretanto, encontra-se submetida a novas formas de exploração e fragmentação que dificultam sua organização.

Existe, assim, um impasse estratégico: a dominação burguesa enfrenta dificuldades crescentes para produzir estabilidade e legitimidade, mas a classe trabalhadora ainda não conseguiu construir uma alternativa política capaz de superar esse sistema.

Em muitos momentos, a insatisfação popular manifesta-se de forma predominantemente negativa: contra determinado governo, partido ou instituição. Derrubar quem governa, entretanto, não é o mesmo que construir uma nova ordem social.

A crise de subjetividade crítica e revolucionária é parte central desse problema. Não basta que as contradições do capitalismo se aprofundem. É necessário construir uma força social e política capaz de transformar essas contradições em consciência, organização e ação coletiva.

E agora? O desafio de construir uma alternativa

As derrotas eleitorais da extrema direita abrem uma oportunidade política, mas não resolvem o problema estratégico da esquerda.

O primeiro desafio é impedir que essas vitórias sejam utilizadas apenas para restaurar a normalidade anterior. A democracia liberal foi incapaz de impedir a expansão da extrema direita e não oferece, por si só, respostas suficientes às contradições que alimentam esse fenômeno. Não basta defender as instituições existentes contra as tentativas de tolher liberdades democráticas. É necessário lutar por democracia real, ampliar os direitos sociais, enfrentar as desigualdades e construir mecanismos efetivos de participação e poder popular.

O segundo desafio é recolocar a questão social no centro da disputa política. A extrema direita cresce quando transforma o sofrimento social em ressentimento contra os mais vulneráveis. A esquerda precisa demonstrar que a precarização do trabalho, a falta de moradia, as dificuldades de acesso à saúde e à educação, a insegurança alimentar e a concentração de riqueza não são problemas individuais, mas expressões de uma estrutura econômica baseada na exploração.

Isso exige enfrentar os interesses do capital, e não apenas administrar suas consequências.

O terceiro desafio é reconstruir a organização coletiva da classe trabalhadora. Não haverá alternativa socialista consistente sem sindicatos fortes, movimentos populares organizados, presença nos territórios e capacidade de mobilização para além dos períodos eleitorais.

O quarto desafio é construir um projeto político que não se limite a derrotar eleitoralmente a extrema direita, mas ofereça uma perspectiva concreta de transformação social. Se a extrema direita consegue apresentar-se como antissistema, apesar de defender os interesses econômicos dominantes, é porque existe um vazio político que precisa ser ocupado por uma alternativa verdadeiramente anticapitalista.

No Brasil, essa discussão tem implicações diretas para o o PSOL. A reeleição de Lula representa uma vitória importante contra o bolsonarismo, mas não elimina as contradições de um governo sustentado por ampla coalizão política e submetido às pressões do capital e do Congresso Nacional.

O desafio para o PSOL é contribuir para derrotar a extrema direita sem abrir mão da independência política necessária para enfrentar os limites do próprio governo. A unidade no enfrentamento à extrema direita não exige renúncia à crítica nem à construção de um programa radical, no sentido de atacar pela raiz os problemas que afligem o povo e dão oxigênio à extrema direita.

A experiência internacional demonstra que a extrema direita pode ser derrotada quando existe mobilização social, unidade política e capacidade de disputa eleitoral. Mas essas vitórias podem ser temporárias quando não são acompanhadas de mudanças nas condições materiais que alimentam a insatisfação popular.

A crise do capitalismo continuará produzindo instabilidade, desigualdade e insegurança. Enquanto essas contradições permanecerem sem uma resposta política consequente, a extrema direita continuará encontrando terreno fértil para reorganizar-se.

A extrema direita perdeu. Mas o futuro continua em disputa

A reeleição de Lula e a vitória dos Democratas nos Estados Unidos são acontecimentos importantes. Representam a derrota de projetos políticos autoritários e demonstram que a resistência democrática pode produzir resultados concretos.

Mas a questão fundamental permanece: quem será capaz de oferecer uma saída para a crise que alimenta a extrema direita?

Se a esquerda se limitar a defender a ordem existente, sem apresentar um projeto de transformação, poderá contribuir involuntariamente para a reprodução das condições que fizeram a extrema direita crescer.

Não podemos esquecer que o fascismo histórico não nasceu simplesmente da força de seus líderes, mas também das derrotas das alternativas políticas que poderiam ter oferecido outra direção à sociedade.

A extrema direita é produto da crise do capitalismo, das frustrações com a democracia liberal e com os governos progressistas, além da ausência de uma alternativa socialista de massas, enraizada na organização social e na luta dos trabalhadores.

A derrota eleitoral de seus representantes abre uma oportunidade. A tarefa da esquerda é transformar a resistência em organização, a indignação em consciência política e as vitórias eleitorais em força social capaz de disputar os rumos da sociedade.

Derrotar a extrema direita é indispensável. Construir uma alternativa ao capitalismo é o desafio histórico que permanece.


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