A renúncia de Peña no Paraguai: uma crise que vem de cima e agita as massas populares
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A renúncia de Peña no Paraguai: uma crise que vem de cima e agita as massas populares

O presidente paraguaio foi obrigado a renunciar devido ao escândalo do Ueno Bank, que levou a mobilizações em Assunção e em outras grandes cidades do país

Nicolás Salas 7 nov 2026, 11:19

Foto: Protesto contra a megafraude do Ueno Bank. (PVI/Reprodução)

Via Punto de Vista Internacional

A intervenção do Ueno Bank por parte do Banco Central do Paraguai (BCP) desencadeou uma crise de grandes proporções no país sul-americano, que levou à queda do presidente Santiago Peña, ameaça os interesses do Partido Colorado e expõe um mecanismo de financiamento da extrema direita continental.

Na última terça-feira, o BCP determinou a suspensão das operações da referida instituição financeira, o fechamento de agências e o bloqueio de saques, transferências e depósitos, o que gerou uma espécie de “corralito”1, impossibilitando trabalhadores, aposentados e poupadores de utilizar seus recursos. A situação provocou os primeiros protestos nas ruas.

Em poucas horas, a indignação cresceu no mesmo ritmo em que se tornavam conhecidos os bastidores da intervenção no Ueno Bank. A falta de solvência da instituição teve dois agravantes de grande impacto social: a) a situação afeta três milhões de clientes, o que representa quase metade da população paraguaia; e b) o desfalque compromete 850 milhões de dólares em recursos públicos, dos quais 380 milhões pertencem ao Instituto de Previdência Social (IPS), responsável pelas aposentadorias e pela cobertura de saúde2.

Entretanto, as relações do BCP e do governo paraguaio com o Ueno envolvem diversas conexões obscuras, que não se limitam aos possíveis benefícios concedidos a empresas ligadas ao então presidente. O golpe financeiro se sustenta em uma rede fraudulenta que a instituição construiu com o Estado ao longo dos últimos anos. Conforme consta em movimentações registradas e veio à tona nos últimos dias, o banco concedeu empréstimos a empresas relacionadas aos acionistas do Ueno, algo proibido pelas normas do BCP. Para piorar, depois que o escândalo veio à tona, o Ueno realizou outras operações de crédito para fazer frente às dívidas utilizando recursos de trabalhadores e aposentados3.

Em entrevista ao Punto de Vista Internacional, o jornalista paraguaio e ex-ativista sindical Adolfo Giménez Franco resume o que está por trás da renúncia de Peña:

Há um enorme conglomerado de pessoas mafiosas, envolvidas em corrupção e ligadas ao governo e ao crime organizado. Toda essa fraude foi montada por esse grupo, que provocou o esvaziamento do banco e não devolveu o dinheiro. Levaram o dinheiro diretamente, e isso provocou um movimento de indignação na população. A crise não está resolvida e a luta nas ruas continua. Há muita incerteza e o comércio está paralisado. Quase não há transporte.

Giménez Franco não hesita em classificar como “espontâneas” as diferentes ações nas ruas, que acabam reunindo trabalhadores mobilizados por iniciativa própria, desde a esquerda até setores da direita. O jornalista afirma que

O Partido Colorado está tentando resolver o conflito. Tem muitas possibilidades de fazê-lo porque esse movimento espontâneo não é organizado. Diferentes setores participam, mas não há nada centralizado. Existe muita indignação, mas não há uma coordenação geral. É preciso observar, porque talvez mais adiante seja possível dar a esse movimento um conteúdo mais político.

Na noite de quinta-feira, o Partido Colorado manobrou dentro do Congresso para barrar o avanço do processo de impeachment contra Peña e rejeitar a renúncia apresentada4. Diante dessa manobra5, a mobilização popular começou a crescer e a se concentrar diante das portas do edifício legislativo, obrigando o governismo a recuar e autorizar o procedimento contra o chefe de Estado.

Embora ainda não se saiba qual será o destino do ex-chefe de Estado, o Partido Colorado já tem preparado seu substituto: Pedro Alliana, atual vice-presidente e integrante da mesma organização. Entretanto, para além da mudança política, não está claro se as pessoas afetadas recuperarão seu dinheiro, o que mantém o conflito em aberto.

O UENO Bank e o financiamento à extrema direita continental

Além de financiar empresas ligadas ao poder, o UENO Bank também financiava setores da extrema direita continental. Isso ocorreu por meio dos recursos transferidos para a realização, em fevereiro deste ano, da Hispanic Prosperity Gala, em Mar-a-Lago6, nos Estados Unidos.

O evento da extrema direita continental homenageou o presidente argentino Javier Milei e premiou Fernando Cerimedo, operador da extrema direita no continente e criador do “Derecha Diario”, que atualmente está detido na Bolívia, acusado de financiar pistoleiros para assassinar sua companheira. Além disso, a gala financiada pelo UENO contou com a presença do golpista e foragido da Justiça brasileira Eduardo Bolsonaro7.

Cerimedo em evento da extrema direita financiado pelo UENO Bank

O povo trabalhador diante de uma encruzilhada

Embora aposentados e aposentadas vítimas da fraude desempenhem um papel central nos protestos, a classe trabalhadora paraguaia enfrenta um grande desafio: romper com a desarticulação que lhe foi imposta pelo Partido Colorado e pelos empresários nacionais e estrangeiros.

A situação não é simples. O setor industrial representa 14% do PIB, enquanto a organização sindical não alcança 6% da classe trabalhadora. Fora desse universo, as condições dos trabalhadores informais são gravíssimas, já que eles representam entre 62% e 65% da força de trabalho, fazendo com que o Estado permaneça como o principal empregador8.

Ao fazer um retrato da organização sindical, Giménez explica:

Os trabalhadores sindicalizados mais fortes estão no setor estatal. As organizações sindicais fora do Estado são pequenas e não possuem uma articulação nacional de peso. As centrais sindicais são estruturas de fachada, com capacidade de mobilização praticamente nula, dominadas por uma burocracia ligada ao Estado, com dirigentes interessados em cargos ou na execução de projetos sociais e que, ao mesmo tempo, em muitos casos, atuam como operadores políticos, integrando o sistema tradicional de clientelismo do Partido Colorado.9

Para concluir, o jornalista compartilha uma última avaliação que, apesar das dificuldades da situação, não descarta a possibilidade de que a indignação se transforme em revolta e que essa revolta se converta em acúmulo de forças dos setores populares. Giménez, que atualmente integra as organizações de aposentados que estão nas ruas, conclui afirmando que

Estamos diante de um movimento espontâneo de indignação, formado por jovens trabalhadores, aposentados e aposentadas, poupadores, sobretudo da classe média urbana. As ações estão acontecendo em todas as grandes cidades. O movimento, de maneira geral, está muito desmobilizado e se encontra em uma situação bastante desfavorável. O custo de vida está aumentando muito e, ao mesmo tempo, isso faz crescer a migração. Há muita gente indo para a Espanha. As pessoas acabam partindo para outros países. Existem elementos promissores, mas ainda sem força suficiente. Talvez desta vez isso sirva para organizar esses movimentos que estão lutando.

Notas

  1. “Corralito” foi a denominação dada à medida econômica adotada pelo Estado argentino em 2001, por meio da qual foi proibida a livre retirada de dinheiro em espécie de depósitos a prazo fixo, cadernetas de poupança e contas correntes, estabelecendo-se um limite para os saques nos bancos. Foi um dos fatores que desencadearam a rebelião popular de 19 e 20 de dezembro de 2001, que pôs fim ao governo de De la Rúa e deu início a um novo ciclo político e econômico na Argentina. ↩︎
  2. “Outro roubo do dinheiro dos trabalhadores e aposentados”, do jornalista paraguaio Adolfo Giménez. ↩︎
  3. Ibidem. Segundo confirma Giménez, “os acionistas dessa instituição bancária, para ingressar no mercado bancário, procederam à compra do falido Banco Visión, que, naquele momento, tinha uma dívida superior a 300 milhões de dólares. Para adquirir o Banco Visión, os acionistas do UENO precisavam quitar previamente essa dívida, mas o Banco Central os autorizou a estabelecer um cronograma de pagamento de 20 ANOS!!!”. ↩︎
  4. A renúncia permite que Peña mantenha suas prerrogativas políticas e evite um processo de impeachment contra si. ↩︎
  5. Enquanto a sessão avançava, o Partido Colorado atuou para derrubar o quórum, o que impossibilitou, momentaneamente, a definição do processo de impeachment. ↩︎
  6. Mar-a-Lago é um Monumento Histórico Nacional localizado em Palm Beach, na Flórida, que foi comprado por Donald Trump em meados da década de 1990. Ele transformou a propriedade em um exclusivo clube privado. ↩︎
  7. “Ueno Bank: o banco que precipitou a renúncia de Santiago Peña foi patrocinador do evento que premiou Cerimedo nos EUA”, Chequeado.com. https://chequeado.com/el-explicador/ueno-bank-el-banco-que-precipito-la-renuncia-de-santiago-pena-fue-sponsor-del-evento-que-premio-a-cerimedo-en-ee-uu/ ↩︎
  8. “1º de Maio. Recuperar a memória e a organização”, de Adolfo Giménez. ↩︎
  9. Ibidem. ↩︎

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