A vitória da independência sindical nas eleições do Sindimetrô-RS
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A vitória da independência sindical nas eleições do Sindimetrô-RS

A eleição do Sindimetrô-RS reafirma um projeto classista e coloca na ordem do dia a organização da luta em defesa dos trabalhadores e dos serviços públicos

Ronas Filho 7 nov 2026, 11:44

Foto: Membros da Chapa 1 nas recentes eleições do Sindimetrô-RS. (Reprodução)

Entre os dias 26 e 30 de outubro, os trabalhadores da Trensurb participaram das eleições para a direção do Sindimetrô-RS. A Chapa 1, Independência para Resistir e Avançar, venceu a disputa com 420 votos, contra 263 da Chapa 2, além de 18 votos brancos e nulos. O resultado representa uma vitória importante para a categoria e para um projeto sindical construído na organização, na mobilização e na defesa dos interesses dos trabalhadores. A eleição também marcou a história da entidade. Ana Paula Almada, filiada ao PSOL e do MES foi eleita a primeira mulher a presidir o Sindimetrô-RS, ampliando a presença das mulheres nos espaços de direção e representação sindical.

A nova direção também representa um momento de renovação e continuidade na trajetória do sindicato. Chagas deixa a presidência depois de 15 anos à frente do Sindimetrô-RS, período em que cumpriu um papel histórico na construção e no fortalecimento da entidade. Sua saída da presidência não significa seu afastamento da luta: ele segue compondo a direção e contribuindo com esse projeto coletivo. A nova gestão reúne muitos militantes do PSOL e do Movimento Esquerda Socialista (MES), resultado de um trabalho de construção política e sindical que tem em Etevaldo Teixeira uma de suas principais referências. Essa trajetória também contribuiu para ampliar o espaço e o protagonismo da TLS, organização sindical do MES, no movimento sindical. A eleição de Ronas Filho para a vice-presidência do Sindimetrô-RS, integrante da coordenação nacional da TLS, fortalece esse processo e amplia as possibilidades de atuação da organização. Um dos desafios colocados para o próximo período é justamente avançar na construção e no fortalecimento da TLS, contribuindo para que ela tenha cada vez mais presença e influência no sindicalismo brasileiro.

A Importância da independência dos sindicatos e seu papel na sociedade

A disputa, no entanto, foi muito além da escolha de uma diretoria. Estava em debate qual papel o sindicato deve cumprir diante dos desafios da categoria e do conjunto da classe trabalhadora. De um lado, defendemos um sindicato independente de governos e patrões, com autonomia para organizar os trabalhadores e enfrentar qualquer política que ataque seus direitos. Do outro, enfrentamos uma chapa que representava um projeto alinhado aos interesses da empresa, com outra lógica sindical e sem disposição para fazer os enfrentamentos que a nossa conjuntura exige.

A independência sindical não é uma palavra de ordem abstrata e também não significa neutralidade diante dos conflitos políticos e sociais. Significa ter compromisso com os trabalhadores e liberdade para lutar, denunciar, reivindicar e mobilizar, sem subordinar as decisões do sindicato aos interesses de governos, empresas ou partidos. É essa autonomia que permite cobrar um governo eleito com apoio de setores da classe trabalhadora quando suas decisões não correspondem às necessidades da população. Também permite enfrentar governos e gestões quando impõem precarização, sobrecarga ou retirada de direitos. Um sindicato que abre mão dessa independência corre o risco de deixar de representar os trabalhadores e passar a administrar os limites e os interesses de quem deveria pressionar.

Essa forma de entender o papel do sindicato também aparece no trabalho que a atual direção vem desenvolvendo e que a Chapa 1 defende dar continuidade e ampliar. O projeto Sindimetrô na Linha, por exemplo, busca aproximar ainda mais o sindicato dos trabalhadores nos seus locais de trabalho, fortalecendo o diálogo, ouvindo as demandas e construindo a organização a partir da realidade de cada setor. Na comunicação, o jornal A Hora dos Trabalhadores busca estreitar o contato com os usuários da Trensurb, com a distribuição gratuita nas estações e a publicação de temas importantes para toda a classe trabalhadora. O jornal traz artigos em defesa do fim da escala 6×1, da Tarifa Zero e também explica questões que afetam diretamente a vida da população, como o funcionamento das taxas de juros. O programa de mesmo nome, no canal Farol Brasil, do Jones Manoel, também ajuda a levar informação e debate para além dos muros da Trensurb, abordando, nas redes sociais, diversos temas que vão além das pautas da categoria metroviária. Também faz parte dessa concepção o cursinho preparatório para concursos públicos, realizado em parceria com o Emancipa. São iniciativas que mostram que o sindicato não deve olhar apenas para as questões imediatas da sua categoria, por mais importantes que sejam. Deve também atuar como instrumento de transformação da sociedade, contribuindo para a formação, a organização e a luta de toda a classe trabalhadora.

Essa discussão tem importância especial no atual cenário do movimento sindical. Em diferentes setores, a aproximação excessiva de direções sindicais com governos e estruturas das centrais vem enfraquecendo a mobilização de base e criando uma lógica de contenção das reivindicações. Ou seja, a rua acaba sendo trocada pelo gabinete. Em vez de organizar a pressão dos trabalhadores, algumas direções passam a justificar as escolhas do governo, pedir paciência ou tratar reivindicações legítimas como obstáculos à governabilidade. Não se trata de negar a importância da unidade, do diálogo ou da disputa institucional. O que defendemos é que nenhum desses espaços pode substituir a organização independente nos locais de trabalho e nas ruas. A unidade necessária para conquistar direitos deve ser construída em torno das reivindicações da classe, e não da subordinação a qualquer governo.

A vitória da Chapa 1 também teve uma dimensão nacional. Recebemos o apoio das direções dos sindicatos de metroviários de São Paulo, Minas Gerais, Distrito Federal e Pernambuco, entidades importantes na organização dos trabalhadores do setor no país. Esse apoio demonstra o reconhecimento de uma experiência de luta construída no Rio Grande do Sul e reforça a necessidade de aproximar as categorias metroviárias, compartilhar iniciativas e construir campanhas comuns. Os problemas enfrentados pelos trabalhadores do transporte sobre trilhos não se limitam a uma empresa ou a um estado. Envolvem a defesa do serviço público, a valorização profissional, a contratação por concurso, a qualidade da operação e o enfrentamento às privatizações. A organização nacional dos metroviários é parte importante dessa luta. Também recebemos o apoio de entidades dirigidas por camaradas do nosso campo, como o Juntos, o Simpa e a Aserghc, além de companheiros do Emancipa e da União por Moradia. O Sintect e a Conlutas também estiveram conosco nesse processo.

Lutas e desafios da categoria metroviária no RS

Para nós, essa posição aparece em lutas muito concretas. A Trensurb continua incluída no Programa Nacional de Desestatização (PND), apesar do compromisso político do governo Lula de encerrar o ciclo de privatizações. Essa permanência é uma contradição que precisa ser enfrentada. Não basta dizer que defende o transporte público. É preciso transformar esse discurso em ações concretas e políticas que valorizem o serviço público. Por isso, é necessário retirar a Trensurb da lista de privatizações e assegurar seu caráter público, estatal e federal. Seguiremos cobrando o governo federal e mobilizando a categoria e a sociedade para que esse compromisso seja cumprido. A defesa da empresa pública não é uma pauta corporativa dos metroviários. Diz respeito ao direito da população a um transporte acessível, integrado, seguro e voltado ao interesse público, e não à lógica do lucro.

Um dos eixos de luta é a realização de concurso público. A Trensurb enfrenta hoje o menor efetivo de sua história. A falta de trabalhadores afeta as condições de trabalho, aumenta a sobrecarga, contribui para o adoecimento e compromete a qualidade do serviço oferecido à população. Não é possível exigir que os trabalhadores mantenham a operação em condições cada vez mais difíceis enquanto a empresa convive com um quadro insuficiente de pessoal. Com a atuação da deputada estadual Luciana Genro, encaminhamos um ofício ao Ministério Público Federal solicitando que o órgão se envolva na questão e pressione o governo federal pela realização de concurso público. O documento já foi protocolado, mas até o momento não recebemos resposta do órgão. Diante disso, iniciamos a campanha “Concurso Público Já ou o Trem Vai Parar”, que mobilizou a categoria para chamar uma paralisação para o dia 21 de setembro.

A mobilização colocou a gestão da empresa contra a parede e abriu espaço para uma proposta construída pelo sindicato, que melhorou a escala de trabalho e a remuneração dos trabalhadores mais afetados pela falta de efetivo, especialmente no setor de estações. A proposta não resolve o problema da falta de pessoal, mas representa um avanço importante nas condições de trabalho desses trabalhadores. A campanha pelo concurso público será retomada, com novas ações para cobrar a atuação do MPF e pressionar o governo federal por essa demanda fundamental da categoria.

Outra batalha para o próximo período é pressionar pelo avanço do PL1787/2026 de autoria da Deputada Federal Fernanda Melchionna, texto construído junto com o SindimetrôRS que busca garantir os empregos dos metroviários em caso de concessão da Trensurb, o Projeto de Lei já foi encaminhado para relatoria na Comissão de Administração e Serviços Públicos (CASP) da Câmara Federal, a luta é fazer com que o projeto avance pois é um anseio não só da categoria metroviária mas o projeto pode contemplar outras categorias do serviço público que vem sofrendo com os desmontes e processos de privatizações e concessões.

O combate a extrema-direita e a necessidade das mobilizações de rua

A eleição do Sindimetrô-RS ocorreu em meio a uma disputa política nacional decisiva. A mobilização popular foi fundamental para derrotar eleitoralmente a extrema direita e impedir que o projeto bolsonarista voltasse a comandar o país. Mas a vitória de Lula não encerra essa disputa. A votação expressiva de Flávio Bolsonaro e a margem apertada do resultado mostram que a extrema direita segue enraizada e que existe um descontentamento social que não pode ser ignorado. O custo de vida, o preço dos alimentos e das contas básicas, o alto nível de endividamento das famílias e a falta de respostas para os problemas do dia a dia pesam sobre a vida dos trabalhadores. Se essas necessidades não forem enfrentadas, a insatisfação continuará sendo terreno fértil para a direita e a extrema direita.

É necessário, portanto, manter a mobilização que contribuiu para derrotar Flávio Bolsonaro, mas com independência para cobrar o governo. O próximo governo Lula precisa avançar mais à esquerda do que o anterior, dialogar de verdade com a classe trabalhadora e responder às suas reivindicações. Não podemos aceitar que os compromissos com o Centrão, as elites econômicas e o agronegócio tenham prioridade sobre as necessidades de quem vive do próprio trabalho. É preciso pressionar por medidas concretas, como retirar empresas públicas da lista de privatizações, fortalecer os serviços públicos, garantir direitos e melhorar as condições de vida. A luta pelo fim da escala 6×1 mostrou a força que uma reivindicação sentida pela população pode ganhar quando se transforma em mobilização. A tarifa zero deve cumprir um papel semelhante no debate sobre o futuro das cidades e do transporte público.

Tarifa zero como direito social e como pauta central do próximo período

Defendemos que o projeto da Tarifa Zero precisa ocupar um lugar central no próximo período. O transporte público deve ser tratado como um direito social e uma condição para o acesso à cidade, ao trabalho, à educação, à saúde e à cultura. A cobrança de tarifas pesa diretamente no orçamento de quem trabalha e, ao mesmo tempo, restringe o direito de circulação de milhões de pessoas. Defendemos a tarifa zero como horizonte e como uma pauta capaz de mudar o debate sobre o financiamento e a finalidade do transporte coletivo. As experiências de cidades que implementaram a tarifa zero mostram que essa política pode trazer efeitos positivos para a economia local. Quando deixam de gastar com passagem, as famílias podem destinar esse dinheiro à alimentação, ao lazer e ao consumo de bens e serviços. Em vez de tratar o transporte como mercadoria, precisamos discutir seu financiamento público, sua integração e sua função social. Essa luta também está ligada à defesa da Trensurb pública e à necessidade de um projeto nacional de mobilidade que coloque a população e os trabalhadores no centro das decisões.

É nesse contexto que a vitória de um sindicato independente, classista e combativo ganha ainda mais significado. Temos a responsabilidade de organizar a categoria, fortalecer a unidade com outras categorias e movimentos sociais e transformar as reivindicações em mobilização. Isso exige disposição para ocupar as ruas e pressionar governos e patrões. Não podemos confundir a derrota eleitoral da extrema direita com apoio incondicional ao governo, nem permitir que a necessidade de enfrentar a direita seja usada para silenciar críticas ou adiar reivindicações. A melhor forma de enfrentar a extrema direita é responder aos problemas concretos da população, ampliar direitos e mostrar, na prática, que a organização coletiva pode melhorar a vida de quem trabalha.

A vitória da Chapa 1, Independência para Resistir e Avançar, renova nosso compromisso com a categoria metroviária e com o conjunto da classe trabalhadora. Seguiremos na defesa da Trensurb pública, estatal e federal, pela realização de concurso público, por melhores condições de trabalho, pela valorização dos metroviários e por um transporte público de qualidade e com tarifa zero. Mais do que uma posição diante da conjuntura, a independência sindical é o que nos permite manter esse compromisso e enfrentar governos e patrões sempre que os interesses dos trabalhadores estiverem em jogo e é com essa disposição que assumimos os próximos desafios.


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