Brutalidade, ‘cargos fantasmas’ e as conexões políticas do gabinete de Jair Renan
Agressão pratiada por assessor acaba por expor suspeitas de funcionários fantasmas, absenteísmo e vínculos políticos de integrantes dos gabinetes de Jair Renan Bolsonaro e da Assembleia Legislativa de Santa Catarina
Foto: Joedson Alves/Agência Brasil
A Polícia Civil de Santa Catarina investiga as circunstâncias de um violento ataque motivado por divergências políticas na noite de 25 de outubro de 2026, no bairro Vargem Grande, no Norte da Ilha de Florianópolis. O estudante Gustavo Schiphorst, até então assessor parlamentar remunerado do vereador de Balneário Camboriú Jair Renan Bolsonaro (PL), é acusado de espancar o próprio primo, Marcelo Ribeiro Delgado Junior, após a comemoração da vitória eleitoral de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), de acordo com reportagem do NSC Total.
A agressão, cometida com a ajuda dos pais de Gustavo (Camila Braun Schiphorst e Michel Schiphorst) e do amigo Lucas Ferreira Amorim, resultou em três fraturas no braço da vítima e estilhaços de vidro que quase atingiram crianças de um e cinco anos. O caso ganhou contornos judiciais graves com o deferimento de uma medida protetiva de urgência baseada na Lei Maria da Penha, obrigando os agressores a manterem distância da família atingida. Diante da imensa repercussão iniciada pelas denúncias dos parlamentares do PSOL, Gustavo Schiphorst pediu exoneração do cargo na Câmara Municipal no dia 30 de outubro.
Marcelo foi encaminhado para o Hospital Regional Governador Celso Ramos e precisará passar por cirurgia, pois foi constatada uma fratura em três pontos do braço. A Polícia Civil instaurou um inquérito para apurar crime de lesão corporal.
Quem é Gustavo Schiphorst – A rotina incompatível e o fantasma do absenteísmo
A apuração dos fatos joga luz sobre os bastidores do gabinete de Jair Renan Bolsonaro. De acordo com a Portaria N.º 5233/2026, Gustavo foi oficialmente nomeado para o cargo comissionado de Assessor Parlamentar (AP-05) em 16 de julho de 2026, com salário de R$ 4.441,96 e jornada obrigatória de segunda a sexta-feira, das 13h às 19h, na Câmara de Balneário Camboriú. De acordo com a legislação e o Regimento Interno do Legislativo, os servidores comissionados são formalmente obrigados a cumprir a carga horária contratual estabelecida e registrar assiduidade. Receber recursos públicos sem a devida contraprestação laboral presencial, além de configurar crime de estelionato contra a administração pública e ato de improbidade administrativa, escancara o “pacote” do falso moralismo que é bolsonarismo: pregam valores religiosos o tempo todo, mas falam a língua da truculência e da violência; afirmam o tempo todo categoricamente (e sempre sem provas) que o campo adversário rouba, mas é recorrente as notícias sobre mau uso (para dizer o mínimo) da máquina pública.
Sobre o assessor Gustavo, observamos que registros acadêmicos e perfis públicos expõem uma total incompatibilidade geográfica e horária que levanta fortes suspeitas de “cargo fantasma”:
- Ensino Presencial pela Manhã: Gustavo cursa Direito de forma estritamente presencial na Faculdade Cesusc (UNICESUSC), em Florianópolis, com aulas das 8h às 10h40. O investigado inclusive participa ativamente de atividades acadêmicas físicas na instituição, como o Projeto Autocompor e núcleos de mediação jurídica.
- Jornada de Trabalho à Tarde: O assessor deveria cumprir expediente fixo e presencial das 13h às 19h na Câmara de Balneário Camboriú – localizada a quase 90 km de distância de sua faculdade e de sua residência.
- Ensino Superior à Noite: Às 18h40, Gustavo já deveria estar em Florianópolis para o início das aulas do curso de Administração Pública na Esag/UDESC, cujo cronograma de matérias noturnas se estende até as 22h. Na UDESC, a rotina presencial também é evidenciada por seu papel institucional: ele consta em atas oficiais como Membro Titular Representante Discente no Conselho de Centro da ESAG, cargo que exige presença física em reuniões deliberativas em Florianópolis.
A distância rodoviária real inviabiliza que o ex-assessor saísse de Florianópolis após às 10h40, trafegasse pela rodovia BR-101 para bater ponto às 13h em Balneário Camboriú, trabalhasse até às 19h e retornasse à capital a tempo de frequentar as aulas e os compromissos do conselho estudantil a partir das 18h40.
Um gabinete marcado por faltas e cortes de salário
A suspeita de funcionários fantasmas ganha força quando cruzada com o histórico do próprio parlamentar. Jair Renan Bolsonaro tem acumulado registros severos de absenteísmo no Legislativo municipal. Em julho de 2026, ele foi ameaçado de perder sua vaga na Comissão de Segurança de Balneário Camboriú devido ao excesso de faltas sem justificativa, de acordo com reportagem do Jornal O Globo. Logo em seguida, em agosto de 2026, o vereador sofreu um desconto de mais de R$ 4.500,00 em seus vencimentos parlamentares por ausências reiteradas nas sessões da Câmara.
Esse padrão estende uma longa sombra histórica sobre o clã político familiar, marcado por seguidas denúncias de anomalias administrativas em gabinetes. O irmão mais velho do vereador, o ex-candidato Flávio Bolsonaro, foi alvo de revelações de que atuou como funcionário fantasma na Câmara dos Deputados em Brasília entre 2000 e 2002. Uma reportagem do portal Terra revela que ele recebia remuneração pelo cargo de 40 horas semanais na capital federal enquanto cursava Direito presencial e fazia estágio voluntário no Rio de Janeiro, a mais de 1.000 km de distância. Anos depois, seu antigo gabinete na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) virou o epicentro do escândalo das “rachadinhas”, onde o Ministério Público denunciou o uso sistemático de funcionários fantasmas estruturados sob a gerência do ex-assessor Fabrício Queiroz, como aponta reportagem de Veja.
Irregularidades não cessam em Balneário Camboriú
Em Brasília,o Ministério Público do Distrito Federal o denunciou por falsidade ideológica e uso de documento falso para fraudar empréstimos bancários através de sua antiga empresa de eventos, tornando-se réu em ação penal subsequente por lavagem de dinheiro. O histórico de nomeações do filho do ex-presidente é alvo de controvérsias antigas: o ex-assessor Diego Pupe veio a público expor que contratações de fachada e “permutas” eram utilizadas pelo político para encobrir relações de cunho estritamente pessoal, conforme reportagem do Portal Terra.
A rede de influência na ALESC e o silêncio das universidades
A rede de proteção e privilégios dos agressores estende-se até o parlamento estadual. Um dos participantes ativos do espancamento familiar, Lucas Ferreira Amorim, consta oficialmente como estagiário ativo da Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Alesc), lotado na Coordenadoria da Escola do Legislativo. A permanência de um investigado por lesão corporal grave dentro dos quadros do funcionalismo público tem gerado questionamentos internos sobre a lisura dos critérios morais de contratação da casa.
Enquanto isso, a indignação toma conta do ambiente universitário. Estudantes da Udesc organizam manifestações e cobram punições severas, exigindo que Gustavo Schiphorst seja impedido de representar os alunos no conselho de centro ou de usufruir de intercâmbios internacionais financiados por verba pública. Em resposta, a Udesc emitiu uma nota protocolar afirmando que “não antecipa conclusões” e que aguarda os ritos jurídicos formais, mantendo uma postura criticada pelo corpo discente. A faculdade UNICESUSC, por sua vez, optou pelo silêncio institucional e não se pronunciou sobre o comportamento de seu aluno de Direito.
É necessário seguir com as investigações, cobrar posicionamentos e acompanhar o estado de saúde de Marcelo. Não é aceitável que a barbárie tome conta diante dos nossos olhos e mais uma vez fique impune.