Eleições midterms nos EUA: a IA presa no meio
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Eleições midterms nos EUA: a IA presa no meio

A vitória dos Democratas no país acontece em meio a perspectivas de crise econômica derivada da bolha da Inteligência Artificial

Michael Roberts 6 nov 2026, 09:10

Foto: Local de votação das recentes eleições estadounidenses em Concord, New Hampshire. (Joseph Prezioso/GI)

Via The Next Recession

Os Democratas venceram por ampla margem as eleições legislativas de meio de mandato de 2026 nos Estados Unidos. Antes da votação, o presidente Donald Trump havia dito aos eleitores que pensassem nele e em seu governo na hora de votar — ao que tudo indica, foi exatamente o que fizeram.

Cerca de 124 milhões de pessoas votaram nas eleições, segundo dados preliminares do University of Florida Election Lab. Esse número representa um aumento em relação aos 112 milhões de 2022 e aos 118,6 milhões de 2018. Mas, embora o número total de votos tenha aumentado, a taxa de participação eleitoral em 2026 ainda ficou abaixo da registrada nas eleições de meio de mandato de 2022 e 2018. Isso significa que mais da metade dos americanos aptos a votar deixou de fazê-lo nessa derrota acachapante de Trump e dos Republicanos.

Entre os menos de 50% que compareceram às urnas, houve uma enorme guinada em direção aos Democratas. Na votação nacional, os Democratas abriram uma vantagem de aproximadamente 13 pontos percentuais, a maior registrada desde 1982. Foi a maior vitória esmagadora nas eleições para o Congresso em 50 anos, marcando a pior derrota republicana desde a era Watergate, em 1974. Os Democratas deverão conquistar até 255 cadeiras na Câmara dos Representantes, alcançando sua maior maioria em quase duas décadas (218 cadeiras é o número necessário para obter a maioria). Além disso, conquistarão 55 das 100 cadeiras do Senado e, assim, também controlarão a Câmara Alta.

Em todos os estados e em todos os segmentos demográficos, os Democratas ficaram à frente. Isso foi particularmente evidente entre os eleitores de 18 a 29 anos. Enquanto houve uma pequena maioria de homens brancos que votou nos Republicanos, o mesmo não ocorreu entre os menores de 30 anos: nesse grupo, os homens brancos votaram 57% a 40% nos Democratas. Em todas as outras categorias, a vantagem democrata foi ainda maior, chegando a 96% entre as mulheres negras com menos de 30 anos.

Além disso, um terço de TODOS os eleitores com menos de 30 anos se identificou como “socialista democrático”, segundo pesquisa de boca de urna da NBC — três vezes mais do que aqueles com menos de 30 anos que se consideravam apoiadores de Trump e do movimento MAGA.

E as questões que motivaram o voto estavam claras. De acordo com dados compilados pelo Pew Research Center em outubro de 2026, a economia era a principal prioridade para 84% de todos os eleitores, seguida pelo conflito com o Irã, iniciado por Trump, que foi apontado por 47% dos eleitores. A saúde também ocupava uma posição de destaque entre as preocupações. O voto nos Democratas foi um voto contra a guerra desnecessária de Trump contra o Irã; contra o aumento do custo de vida, especialmente dos alimentos e da energia; contra seus ataques brutais aos imigrantes nas ruas; e uma manifestação de repúdio à sua corrupção, suas mentiras e sua arrogância bombástica. Pesquisas de opinião mostravam que Trump tinha o índice de aprovação mais baixo já registrado para um presidente dos Estados Unidos.

Assim, um Congresso agora controlado pelos Democratas estará em condições de investigar e contestar as ações e políticas de Trump, além de propor alternativas. O economista liberal de esquerda Daren Acemoglu considerou a vitória Democrata “uma tábua de salvação para a democracia americana”. Mas apenas uma tábua de salvação, pois os eleitores que levaram Trump ao poder em 2024 e agora se voltaram contra ele podem facilmente mudar novamente de posição caso os Democratas não consigam apresentar respostas para questões como os “níveis obscenos de desigualdade neste país, a verdadeira crise de acessibilidade econômica e o difícil problema da criação de bons empregos para americanos de todos os níveis de qualificação”. Acemoglu considera que “nem a dependência dos Democratas progressistas em relação a impostos, transferências de renda e regulamentações tradicionais, nem o apego dos centristas ao status quo, nem o pensamento ilusório daqueles que apostam na ‘abundância’ impulsionada pela inteligência artificial são suficientemente radicais”. Isso porque as coisas vão piorar com o avanço de uma economia conduzida pela inteligência artificial.

Qual é a resposta, segundo o ganhador do Prêmio Nobel? Os americanos precisam de “empregos bem remunerados, que permitam construir carreiras para todos os trabalhadores, especialmente aqueles sem diploma universitário, que foram deixados para trás na economia pós-industrial do último meio século”. É necessário um “plano viável para redirecionar a inteligência artificial, de modo que essa tecnologia promissora não seja moldada pelos sonhos de um pequeno grupo empenhado em desenvolver uma superinteligência artificial e automatizar a maior parte das atividades humanas. Em vez disso, precisamos explicar por que é viável e desejável construir uma IA favorável aos trabalhadores e como isso pode criar empregos e rendimentos dignos para eles”.

Enquanto isso, a chamada “crise da acessibilidade econômica” é aguda, e não apenas nos Estados Unidos. Famílias em todo o mundo enfrentam dificuldades diante do aumento do custo de vida, provocado pelas guerras e pelas consequências da pandemia de Covid-19, enquanto os salários lutam para acompanhar as pressões persistentes sobre os preços. Os preços globais de muitas commodities permaneceram elevados por vários anos, inicialmente em razão das interrupções nas cadeias de abastecimento provocadas pela pandemia e, posteriormente, por causa das guerras na Ucrânia e no Irã.

A guerra no Oriente Médio, iniciada em fevereiro passado, elevou a taxa global anual de inflação para perto de 5%, muito acima da meta de 2% estabelecida por muitos bancos centrais ao redor do mundo. Os aumentos de preços de produtos essenciais, como alimentos e energia, foram particularmente acentuados. O índice global de preços dos alimentos subiu 42% desde a queda provocada pela pandemia em 2020. E, apenas no último ano, os preços do petróleo bruto aumentaram 57%, enquanto os do diesel subiram 50%. O risco é que a inflação se acelere ainda mais no próximo ano, caso os conflitos no Oriente Médio continuem até o final deste ano e além. A cadeia global de abastecimento já está novamente sob pressão, e o crescimento do comércio internacional está desacelerando.

Existem diversas áreas de gastos dos consumidores americanos, como saúde, educação e cuidados infantis, nas quais os custos vêm aumentando muito mais rapidamente do que os salários nos últimos 20 anos. Mas agora, desde a pandemia, a inflação dos preços dos alimentos, dos combustíveis e de outros produtos essenciais também está avançando mais rapidamente do que os aumentos salariais.

Há um ano, os preços ao consumidor nos Estados Unidos aumentavam 2,7% em relação ao mesmo período do ano anterior. O salário médio por hora dos trabalhadores americanos crescia 4%. Avançando para o presente: os preços agora sobem 3,5% ao ano, enquanto o crescimento dos salários desacelerou para apenas 3,2%. Os salários, descontada a inflação, já haviam passado a apresentar variação negativa em abril. No último ano anterior às eleições, os rendimentos médios reais por hora diminuíram 0,7%.

As taxas médias de juros dos financiamentos imobiliários dobraram desde o final da pandemia, ultrapassando 7% ao ano. Como resultado, tanto nos Estados Unidos quanto em toda a Europa, o mercado imobiliário sofreu uma forte queda. O índice de acessibilidade habitacional baseado em financiamentos imobiliários do FMI — que mede a relação entre a renda efetiva e a renda necessária para financiar uma moradia típica — apresenta quedas acentuadas. Nos Estados Unidos, o índice caiu de aproximadamente 150 para a faixa dos 80 pontos (valores acima de 100 indicam que a moradia é financeiramente acessível).

Em contrapartida, durante os governos Biden e Trump, o patrimônio líquido mediano dos 10% mais ricos das famílias aumentou de US$ 2,8 milhões para US$ 3,67 milhões entre 2022 e 2025, um crescimento de aproximadamente US$ 872 mil, ou 30%. Os 40% mais pobres das famílias, classificados por renda, perderam terreno. Em seguida, Trump sancionou sua chamada lei “grande e bela”, concedendo os maiores cortes de impostos justamente aos que estão no topo da pirâmide social.

Não é de surpreender que os americanos tenham votado para tirar os republicanos de Trump do poder. Mas e agora? Os dirigentes Democratas estão prestes a assumir o controle do Congresso, mas o que estão propondo fazer? Quais são as chances de que os Democratas tenham alguma ideia de como conter a aceleração da inflação e o aumento do custo de vida? E eles podem ou pretendem pôr fim às guerras no Oriente Médio e na Ucrânia, que contribuíram para a crise da acessibilidade econômica?

Os Democratas afirmam que irão reverter as tarifas de Trump, desfazer os cortes no Medicare, reduzir os custos da saúde e da habitação e ampliar a regulamentação dos setores tecnológicos, como o da inteligência artificial. Mas não haverá cortes no nível grotesco dos gastos com “defesa”. Na verdade, o apoio à Ucrânia na guerra contra a Rússia provavelmente será ampliado.

Em seu novo livro, Twilight of American Imperialism, Jack Rasmus calcula o crescimento impressionante dos gastos e custos do governo americano com “defesa”. Segundo suas estimativas, os gastos totais dos Estados Unidos com defesa mais do que dobraram desde 2019, passando de US$ 1,5 trilhão para a impressionante cifra de US$ 3 trilhões no próximo ano.

Parece que os Democratas não têm ideia de como controlar a aceleração da inflação, a não ser recorrer ao Federal Reserve para elevar as taxas de juros — uma política que apenas aumentará a probabilidade de uma recessão. Também não existem propostas para reverter o avanço da desigualdade.

A grande mídia e os economistas convencionais insistem em afirmar que a economia americana está avançando a todo vapor. É verdade que o crescimento do PIB real dos Estados Unidos é mais forte do que o da Europa ou do Japão, mas isso está longe de representar um parâmetro muito elevado. O PIB real americano cresceu a uma taxa anualizada de 3,4% no terceiro trimestre de 2026 — uma recuperação aparentemente expressiva em relação ao segundo trimestre. Mas esse número esconde a tendência. O crescimento do PIB real em comparação com o mesmo período do ano anterior está desacelerando. Com 2,1% no terceiro trimestre de 2026, ficou próximo de um dos níveis mais baixos desde a pandemia. A economia americana continua crescendo, mas a uma taxa não superior a 2% ao ano.

Além disso, o crescimento do PIB real americano, os investimentos e, consequentemente, os empregos dependem quase inteiramente do boom de investimentos em inteligência artificial. Como demonstrou Jason Furman, ex-assessor econômico da Casa Branca: “O único grande aumento real na construção nos Estados Unidos no último ano ocorreu nos centros de dados, com alta de 64%. As usinas de energia que os abastecem cresceram de forma mais modesta, 4%, enquanto todo o restante recuou — com uma queda particularmente acentuada na indústria manufatureira, de 24%, em relação ao pico muito elevado registrado em 2024.”

Esses megainvestimentos estão conseguindo elevar a produção por trabalhador. A produtividade do trabalho aumentou 3,6% no terceiro trimestre. Isso significa que a tendência de crescimento da produtividade agora se iguala à média de longo prazo do período pós-guerra e está bem acima do ritmo de 1,5% registrado no ciclo de 2007 a 2019.

Mas será que isso vai durar? Já existem sinais de que o boom — ou bolha — de investimentos em inteligência artificial está começando a apresentar fissuras, se é que ainda não começou a estourar, pelo menos na Ásia. E agora a vitória democrata provocou uma onda de vendas generalizada de ações de empresas de tecnologia e inteligência artificial, com o índice Nasdaq caindo 5,5% em uma única sessão, à medida que os investidores temem que um Congresso controlado pelos Democratas possa interromper ou desacelerar a construção de centros de dados.

A questão agora é saber se os temores dos investidores em relação ao excesso de investimentos e à redução das perspectivas de lucro com a inteligência artificial irão se disseminar. A menos que os enormes investimentos em centros de dados e em outros equipamentos, chips e softwares relacionados à inteligência artificial comecem a proporcionar uma rentabilidade maior, uma crise não deverá demorar a chegar.


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