Presidente paraguaio renuncia em meio a manifestações contra a corrupção
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Presidente paraguaio renuncia em meio a manifestações contra a corrupção

Em entrevista exclusiva, o militante paraguaio “Turco” Gimenez relata as causas da crise no país e fala sobre os protestos massivos que levaram à renúncia de Santiago Peña

Foto: Manifestantes protestam contra agência do Ueno Bank. (Ramiro Ochoa/RKC)

Esquerda em Movimento: “Turco”, muito obrigado pela sua atenção. Te saudamos desde o Brasil, em nome de nossa Comissão Internacional do MES-PSOL e da nossa página Esquerda em Movimento. Sabemos que você é veterano militante socialista e inclusive esteve conosco na última Conferência Internacional Antifascista de Porto Alegre. Poderia começar se apresentando?

“Turco” Gimenez: Meu nome é Adolfo Gimenez Franco, mas me chamam há muitos anos de “Turco” Gimenez. Sou um trabalhador aposentado, jornalista, ex-dirigente sindical e militante de esquerda.

Primeira pergunta: Santiago Peña acaba de renunciar. O que o levou a este ato?

A destituição de Santiago Peña aconteceu devido à corrupção que imperava no governo. Um desfalque descomunal que operou o banco Ueno, em colaboração com o governo, com autoridades deste governo, e contou com a cumplicidade de Peña, que era acionista do Ueno. Até agora não se conhece o montante de dinheiro desviado, mas seria algo para além de 2,8 bilhões de dólares roubados de pequenos poupadores, comerciantes, empresas, etc. Mas os principais afetados são os fundos de Previdência de trabalhadores de vários setores, sendo o principal o IPS (Instituto de Previsión Social), que perdeu nesse escândalo mais de 355 milhões de dólares.

Qual é a sensação nas ruas agora? Como os principais atores políticos e sociais estão reagindo à renúncia de Peña?

Ainda há incerteza sobre o que vai acontecer. Pela Constituição Nacional, quem substitui o presidente que renunciou é Pedro Alliana, do mesmo partido político de Peña, do partido Colorado. Mas a inquietude da mobilizações continua e a crise ainda não será resolvida. Me parece que ela ainda vai continuar por alguns dias porque há uma unanimidade na condenação do governo por parte dos partidos políticos, movimentos sociais, organizações sociais.

O governo ficou totalmente isolado e, a partir de agora, todos os passos que Alliana der vão ser muito delicados e não se pode prever o que vai acontecer.

Vivemos a vitória de Lula nas eleições presidenciais brasileiras e, mais recentemente, a derrota de Trump nas eleições midterms nos Estados Unidos, indicando ventos de mudança. Como as manifestações no Paraguai e a queda de Peña se vinculam com esse movimento internacional?

É uma rebote. É uma reação a partir do que aconteceu no Brasil e também, em certa medida, do resultado das últimas eleições nos Estados Unidos. O repúdio à corrupção deste governo de direita e ultradireita, que não pôde sustentar o mais mínimo de seu próprio plano de governo por causa da corrupção e do roubo.

Então, fundamentalmente, a resposta foi a mobilização, o rechaço e o isolamento total do governo. Por isso, eu vejo que esse processo é uma continuidade do que aconteceu no Brasil e nos Estados Unidos, de certa maneira, porque representa um rechaço total à extrema direita, ao neofascismo que avança pelo mundo, mas que agora recebeu uma resposta formidável. Vamos ver o que acontece

A partir da experiência da última Conferência Antifascista, como você vê as próximas tarefas da unidade antifascista internacional nesse novo momento?

O movimento de protesto que se desenvolveu no Paraguai nos últimos dias é um movimento espontâneo, um movimento de indignação que abarcou amplas camadas da sociedade, de todos os setores. Partidos políticos, organizações sociais, que teve uma força extraordinária e chegou ao ponto de forçar o partido do governo a retirar seu apoio à Santiago Peña, que ficou totalmente isolado e não teve outra saída além de renunciar.

Creio que esta é uma oportunidade para aproveitar esta mobilização contra o governo de direita neofascista e avançar rumo a novos processos políticos e sociais. O Paraguai deu um passo nesse momento, tomara que se repita em outros países.

E seria importante que todo esse movimento espontâneo de indignação continue, que se organize e desenvolva novas propostas para que esse país realmente mude e possa se lançar para um novo processo de transformação antifascista e anti-imperialista.

Muito obrigado companheiro. Seguimos em contato e acompanhando atentamente a situação paraguaia.


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