Datacenters e a mobilização contra duas ameaças existenciais
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Datacenters e a mobilização contra duas ameaças existenciais

Mirando nos data centers, estamos combatendo duas ameaças existenciais para o planeta e a humanidade: a IA e as mudanças climáticas

Walden Bello 6 nov 2026, 08:42

Foto: Datacenter. (LINKS/Reprodução)

Via LINKS

Compartilho estas reflexões alguns dias depois da expressiva vitória eleitoral de Lula da Silva no Brasil. A democracia estava ameaçada pelo fascismo, e o povo saiu em peso às ruas para salvá-la. Segundo muitos relatos, o que fez a diferença foi a combinação entre mobilização nas ruas e protestos coordenados nas redes sociais para levar as pessoas a votar.

A inspiração do Brasil

O que chama a atenção é quantas pessoas em todo o mundo se inspiraram na vitória de Lula. Nos dias que antecederam e sucederam as eleições, pessoas de todo o planeta sentiram-se envolvidas com o destino de Lula — estivessem na África, na Ásia, na Europa ou na América do Norte, sentiam que seu próprio futuro seria afetado.

Por isso, o grande suspiro de alívio e entusiasmo que se ouviu do Rio de Janeiro a Joanesburgo e Jacarta. Esse sentimento de solidariedade global revelou a muitas pessoas a perspectiva do que poderíamos realizar se transformássemos essa solidariedade em um movimento global coordenado para salvar a democracia, salvar o clima e salvar a humanidade da IA.

Desde que o mundo tomou consciência da crise climática, a pressão da sociedade civil tem se concentrado em fazer com que os governos cheguem a um acordo para impedir que a temperatura média global aumente mais de 1,5 °C. Essa estratégia obteve algum sucesso, notadamente com o Acordo de Paris, de 2015.

Mas os limites dessa estratégia tornaram-se evidentes uma década depois: os esforços voluntários de redução das emissões climáticas assumidos pelos países não serão suficientes para impedir que a temperatura média global aumente 2,7 °C até o final do século. Além disso, houve pouco sucesso no cumprimento da meta de destinar US$ 100 bilhões anuais ao financiamento climático dos países em desenvolvimento.

O que precisamos é de uma mobilização popular global capaz de pressionar os governos a tomar medidas mais decisivas para salvar o clima.

Lições da luta contra a globalização

Se você acha que isso é impossível, lembre-se de que foi a ação de massas em escala global que interrompeu o avanço da globalização e revelou que ela não estava levando à prosperidade, mas sim a uma enorme desigualdade, ao aumento da pobreza e a crises econômicas globais. Se ninguém mais fala dos supostos benefícios da globalização — o mantra que ouvimos repetidamente no final dos anos 1990 e ao longo da década de 2010 —, isso se deve à mobilização popular em escala mundial.

É claro que a crise financeira asiática de 1997, a crise financeira global de 2008 e a pandemia de COVID-19 tiveram seu papel, mas a resistência popular em escala global foi decisiva. Um estudo de referência, coordenado por Isabel Ortiz e seus colegas, constatou que, entre os 2.809 protestos ocorridos entre 2006 e 2020 que foram analisados, 1.484 estavam relacionados a reformas neoliberais ou a programas de ajuste estrutural; isto é, a questões

relacionadas a empregos, salários e/ou condições de trabalho; à reforma dos serviços públicos; à influência das corporações, à desregulamentação e à privatização; à desigualdade; à justiça tributária e fiscal; às baixas condições de vida; à reforma agrária e fundiária; aos altos preços dos combustíveis e da energia; à reforma da previdência; à habitação; e aos altos preços dos alimentos.

Além disso,

897 protestos foram em defesa da justiça ambiental e climática; contra o FMI [Fundo Monetário Internacional], o Banco Mundial e a União Europeia/Banco Central Europeu; contra o imperialismo (dos Estados Unidos e da China); contra o livre-comércio; em defesa dos bens comuns globais; e contra o G20.

Esses protestos incluíram mobilizações transfronteiriças contra instrumentos fundamentais da globalização: o Banco Mundial, o FMI e a Organização Mundial do Comércio (OMC). Os protestos contra essas instituições multilaterais estiveram entre os mais expressivos de aproximadamente 209 mobilizações transfronteiriças ocorridas no período de 2006 a 2020.

As mais decisivas foram as mobilizações de massa que levaram ao fracasso da Terceira Conferência Ministerial da OMC, em Seattle, no final de novembro de 1999, e da Quarta Conferência Ministerial, em Cancún, em 2003. A OMC deveria ser o principal instrumento de liberalização do comércio e dos investimentos globais. Com o fracasso da conferência ministerial da OMC em Cancún, os Estados Unidos e a União Europeia perderam o interesse na organização como principal instrumento da globalização. Isso também levou ao amplo descrédito do projeto globalista.

O ponto central é que os protestos de massa fizeram a diferença para deter o projeto de globalização impulsionado pelas grandes corporações.

Os centros de dados são alvos estratégicos

Podemos fazer o mesmo na luta contra as mudanças climáticas. Realizar manifestações durante as cúpulas climáticas da COP é importante, mas é ainda melhor identificar alvos concretos contra os quais grandes contingentes de pessoas possam se unir e se mobilizar em nível local.

Os centros de dados de inteligência artificial são alvos estratégicos. Eles consomem enormes quantidades de água e energia que, de outra forma, poderiam ser destinadas às necessidades das comunidades. Também contribuem com quantidades gigantescas de emissões de carbono, agravando a crise climática.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, aposta todas as suas fichas na IA, em parte porque ela necessita de enormes quantidades de energia, que só podem ser fornecidas pela indústria de combustíveis fósseis, uma de suas principais apoiadoras. Ao mirar os centros de dados, estaríamos atingindo duas ameaças existenciais ao planeta e à humanidade: as mudanças climáticas e a inteligência artificial.

Existem entre 12.250 e 12.660 centros de dados em todo o mundo, dos quais entre 1.136 e 1.189 são instalações de hiperescala — verdadeiras estruturas do tamanho de cidades — que atendem às enormes demandas de computação em nuvem e inteligência artificial do Google, da Microsoft, da Amazon e de outras gigantes do Vale do Silício. E muitos outros estão a caminho.

Eles estão sendo construídos tanto no Norte quanto no Sul Global. Nos Estados Unidos, os povos indígenas Yakama e outras nações originárias estão resistindo à construção de 240 centros de dados na região do rio Columbia. Mas, embora grande parte da cobertura da imprensa se concentre na resistência das comunidades do Norte Global, a oposição aos centros de dados também está ocorrendo em Andhra Pradesh e Maharashtra, na Índia; em Querétaro, no México, onde gigantes do Vale do Silício construíram 32 centros de dados que consomem grandes quantidades de água em uma região árida; e em Batam, na Indonésia, onde a comunidade protestou contra o consumo de seu abastecimento de água pelos centros de dados.

Já houve casos de resistência vitoriosa. Em Oton, na província de Iloilo, nas Filipinas, os moradores submeteram o representante de uma empresa norueguesa, que pretendia construir um centro de dados, a questionamentos tão hostis durante uma reunião comunitária que o projeto acabou sendo cancelado.

Pax Silica: uma cadeia de valor cujos elos são alvos estratégicos

As possibilidades de mobilização serão ampliadas com a implementação da Pax Silica. Essa iniciativa dos Estados Unidos, que envolve 26 países, pretende criar uma cadeia de valor que vai desde a mineração de minerais como o lítio até a operação de centros de dados. Todos os setores dessa cadeia de valor consomem grandes quantidades de carbono e água. Portanto, todos os principais elos dessa cadeia podem se tornar potenciais focos de protesto.

Na região da Ásia-Pacífico, Japão, Índia, Coreia do Sul, Filipinas e Singapura já aderiram à Pax Silica. Nas Filipinas, o governo de Marcos Jr. está destinando mais de 1.600 hectares — a área equivalente à de uma pequena cidade — para abrigar um complexo de inteligência artificial, embora as empresas estrangeiras ainda não tenham assumido compromissos de investimento. Mesmo antes de a Pax Silica começar a funcionar, ela já conseguiu unir tantas forças de oposição de uma maneira que nenhuma outra questão havia conseguido nas últimas décadas.

Os elos da cadeia de valor da IA, da mineração aos centros de dados, oferecem a possibilidade de unir pessoas para além das diferenças políticas existentes em outros países. Os centros de dados são tão impopulares que se tornaram um dos temas mais quentes das eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, levando políticos favoráveis ao setor tecnológico a recuar apressadamente de suas posições anteriores.

A luta contra os centros de dados não precisa ser a única estratégia para construir um movimento de massas contra as mudanças climáticas, capaz de obrigar empresas e governos a tomar medidas decisivas. Diferentes estratégias complementares podem ser adotadas, partindo de uma convicção comum: a menos que as pessoas saiam em peso às ruas, como fizeram no Brasil, não será possível deter as forças que impulsionam duas ameaças existenciais à humanidade: as mudanças climáticas e a inteligência artificial.


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