Partido Democrata: vitorioso e em crise
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Partido Democrata: vitorioso e em crise

A derrota de Trump deve ser comemorada, mas é preciso dizer que a mesma ira social pode se voltar contra os Democratas caso estes sigam comprometidos com uma política neoliberal

Pedro S. 5 nov 2026, 16:28

Foto: Transmissão televisionada da apuração das últimas eleições legislativas nos Estados Unidos. (RTE/Reprodução)

O mundo todo (exceto os fascistas) está comemorando a derrota de Donald Trump nas eleições de meio de mandato nos Estados Unidos. O recado das urnas foi contundente: o republicano perdeu a maioria na Câmara de Representantes, no Senado e em número de governadores. Mais que uma onda, foi um tsunami — ou uma erupção vulcânica azul. Os Democratas venceram até em estados onde, em 2024, Trump obteve mais de 10% de vantagem. No voto popular, trata-se da maior vitória de um partido nos Estados Unidos desde 1976.

Existe uma contradição no ar. De 2024 (ano da eleição de Trump) até aqui, nunca se viu uma crise tão profunda no partido que, agora, é vencedor. Os Democratas saíram desmoralizados do governo Biden, que não apenas deixou de atender aos anseios da classe trabalhadora estadunidense, como vergonhosamente patrocinou um genocídio em Gaza. Este genocídio seguiu sendo patrocinado por Trump que, descumprindo promessas eleitorais, também enfiou os EUA numa guerra contra o Irã.

A crise no Partido Democrata, além de rebuliço na mídia burguesa, gerou um efeito bem mais concreto: o fortalecimento de uma ala que atua prioritariamente por fora do partido, à esquerda, crítica ao seu establishment. Não é exagero dizer que existe hoje, nos Estados Unidos, uma nova onda socialista, cuja maior representação é o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, e cujas origens remontam ao papel desempenhado por Bernie Sanders em prévias presidenciais dez anos atrás.

Afirmar a existência de uma onda socialista não significa dizer que haja uma consciência revolucionária crescente no país. Mas há, sim, o aprofundamento de uma consciência popular em torno de temas-chave que tocam o âmago de interesses burgueses e imperialistas: taxação dos super-ricos, solidariedade à Palestina, rechaço à guerra no Irã, sistema de saúde a todos, abolição do ICE, solidariedade com os imigrantes, proteção social para os trabalhadores, revolução política para alcançar democracia real.

Pelas constrições do sistema eleitoral bipartidário, essa onda não pode, por enquanto, se organizar em um partido formal. Mas o Democratic Socialists of America (DSA), que não para de crescer, é o polo que organiza esse sentimento. E o DSA tem como estratégia hegemônica construir-se como um “proto-partido”, separado dos Democratas, preparando o terreno para um futuro partido socialista ou dos trabalhadores nos Estados Unidos. Nessas midterms, o DSA basicamente triplicou o seu peso parlamentar.

O tsunami azul de 2026 não foi um mérito do Partido Democrata e nem equaciona sua crise. O partido acabou sendo, simplesmente, o veículo possível para a manifestação de uma ampla insatisfação popular. A derrota de Trump decorreu de um acúmulo de mobilizações, de uma amplíssima resistência democrática protagonizada por trabalhadores e imigrantes.

A derrota parcial do líder neofascista deve ser comemorada. Mas também é preciso dizer que a mesma ira social que atropelou Trump pode se voltar contra os Democratas no futuro, caso estes, o que é provável, sigam comprometidos com uma política econômica neoliberal. Pois o mal-estar que paira sobre os Estados Unidos hoje em dia decorre dos dois males: a extrema-direita e o neoliberalismo.

O caráter estratégico do DSA e da nova onda socialista no país se acentua. A organização adquire mais centralidade e responsabilidade para seguir atuando na unidade antifascista (inclusive em 2028), sem abrir mão da sua independência e seu programa.

Por fim, a visão de que mesmo uma vitória estrondosa não suprime uma crise pode ensinar um pouco ao Brasil. É evidente que os paralelos políticos e eleitorais entre nós e os Estados Unidos não são perfeitos. Mas também aqui acabamos de ter um processo eleitoral difícil e vitorioso, no qual o maior partido da esquerda, o PT, e seu líder, Lula, foram os veículos para chegar à vitória. Sob a emoção desse triunfo, alguns setores acabam pensando que o PT — partido há muito tempo burocratizado no Brasil — vai adquirir um novo caráter. Mas a tendência é que a crise histórica, que levou o partido a deixar de ser uma ferramenta para a estratégia socialista, não passe.

Felizmente, no Brasil, temos o PSOL. E acima de qualquer figura pública ou corrente política, são a juventude e a nova classe trabalhadora — que conquistaram o fim da escala 6×1 e tomaram as ruas no segundo turno — que estão olhando o PSOL cada vez com mais simpatia e atração. E filiando-se, aos milhares.


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