Redes em disputa
Luciana Genro, Fernanda Melchionna e Manuela D’Ávila debatem comunicação, democracia e enfrentamento à extrema direita nas redes em ano eleitoral
Foto: Débora Fogliato/Ascom Luciana Genro
O auditório da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Fabico/UFRGS) ficou lotado na última quarta-feira (11) para a atividade “Redes em Disputa: Comunicação e a Luta Contra a Extrema Direita”. O encontro reuniu a deputada estadual Luciana Genro, a deputada federal Fernanda Melchionna e a jornalista e ex-deputada Manuela D’Ávila, que debateram o papel das redes sociais na disputa política contemporânea e os desafios colocados para a democracia.
Em um contexto marcado pela ascensão global da extrema direita e pela proximidade de novos processos eleitorais, as três destacaram a centralidade da comunicação digital na luta política. Ao longo da atividade, que reuniu estudantes e pesquisadores da área de comunicação, foram discutidos desde a origem geopolítica da internet até os impactos concretos dos algoritmos na circulação de discursos de ódio e desinformação.
Internet, poder e disputa geopolítica
Em sua fala, Manuela D’Ávila abordou a história da construção da internet e argumentou que o modelo atual de redes digitais está profundamente ligado às disputas geopolíticas que marcaram o período da Guerra Fria.
“A intensiva da minha tese de doutorado é justamente uma revisão bibliográfica de textos, artigos, de livros que não chegam, que não são traduzidos da língua portuguesa, que mostram a história da construção da internet que nós usamos hoje. A internet que nós usamos hoje é um modelo já vitorioso do desfecho da Guerra Fria”, afirmou.
Ela lembrou que outras experiências de organização tecnológica chegaram a existir antes do modelo atual e citou iniciativas desenvolvidas no governo de Salvador Allende, no Chile.
“O Chile de Salvador Allende, por exemplo, tinha uma sala de comando para organizar a economia por meio do processamento de dados. Qual foi o primeiro ato do governo de Augusto Pinochet? A destruição física dessa sala”, contou.

Segundo Manuela, o discurso de que as redes digitais seriam instrumentos naturais de liberdade foi difundido globalmente pelos Estados Unidos, enquanto a infraestrutura tecnológica permaneceu concentrada em grandes corporações privadas. Ainda assim, ela destacou que a internet também abriga experiências de organização popular e democrática.
“A nossa luta deve ser para a rede ser um ambiente de construção de liberdade, porque tecnologicamente ela pode garantir isso. Nós mulheres sabemos o que construímos das margens da rede, nas sobras das redes quando nos organizamos”, argumentou.
A jornalista também defendeu que o debate sobre regulação das plataformas precisa ser compreendido como uma questão de soberania e proteção social:
“O tema da regulação não é relacionado à liberdade de expressão. O tema da regulação está relacionado à possibilidade de nós protegermos o nosso país, protegermos o nosso povo.”
Narrativas, algoritmos e discurso de ódio
A deputada estadual Luciana Genro enfatizou que a disputa nas redes é também uma disputa de poder político e simbólico. Para ela, a extrema direita tem explorado de forma sistemática os mecanismos de viralização baseados em emoções negativas.
“Disputar essas narrativas dentro das redes é também uma disputa de poder, de poder sobre o que se consegue transmitir para a sociedade e como que se consegue ganhar apoio para determinadas lutas”, afirmou.
Segundo a parlamentar, a lógica das plataformas favorece conteúdos que estimulam indignação ou hostilidade.
“Vocês conhecem qual é a lógica das redes. A lógica da simplificação, a lógica do choque emocional, de lidar com as emoções das pessoas de forma brutal, de construir inimigos que consigam galvanizar o ódio”, disse Luciana.
Ela destacou ainda que, enquanto conteúdos baseados em ódio se espalham rapidamente, propostas de políticas públicas ou conquistas sociais costumam ter menor alcance nas plataformas.
Ao mesmo tempo, Genro defendeu que a esquerda precisa combinar a disputa digital com a presença direta nos territórios e nas comunidades:
“Para a gente furar essa bolha das redes, a gente precisa também sair dessa rede e ir para dentro das comunidades, para dentro das universidades, para dentro dos locais de trabalho.”
Regulação das plataformas e democracia
A deputada federal Fernanda Melchionna situou o debate brasileiro sobre regulação das plataformas no contexto de uma disputa internacional envolvendo grandes empresas de tecnologia e forças políticas conservadoras.
Ela lembrou que iniciativas legislativas para regulamentar o funcionamento das redes enfrentaram forte resistência das big techs e da extrema direita.
“Eles fizeram uma unidade de ação tão grande entre a extrema-direita e as grandes plataformas que o projeto acabou não sendo aprovado”, afirmou, referindo-se ao projeto de regulação das redes sociais discutido no Congresso.
Para a parlamentar, o poder acumulado pelas plataformas digitais não é apenas tecnológico, mas também econômico e político.
“Esse deslocamento do Vale do Silício para uma lógica de não ter regulação está vinculado diretamente a interesses econômicos”, afirmou.
Melchionna também ressaltou que a disputa nas redes será central no cenário político dos próximos anos, especialmente diante da reorganização internacional da extrema direita.
“A extrema direita está longe de estar morta politicamente e vai fazer frente no processo eleitoral”, alertou.
Comunicação e organização social
Apesar das dificuldades, as participantes defenderam que a disputa pelas redes sociais deve caminhar junto com processos de organização popular e construção coletiva.
Ao final de sua fala, Fernanda Melchionna destacou que transformações políticas relevantes na história recente do Brasil foram resultado direto da mobilização social:
“Não foi só uma candidatura que derrotou o autoritarismo. Teve estudante, teve mobilização, teve campanha, teve resistência. Nós precisamos contar essa história para acreditar nas nossas próprias forças.”
A atividade reforçou a importância do debate sobre comunicação política em um momento em que redes sociais, algoritmos e plataformas digitais se tornaram espaços centrais da disputa democrática. Em ano eleitoral, a batalha pelas narrativas – tanto nas telas quanto nas ruas – tende a ocupar um lugar decisivo na luta contra a extrema direita.