Greve de trabalhadores da USP: uma vitória histórica
WhatsApp-Image-2026-04-28-at-17.03.54

Greve de trabalhadores da USP: uma vitória histórica

A greve dos trabalhadores e trabalhadoras da USP conquistou vitórias e sinaliza um novo momento para a categoria

Mover USP 28 abr 2026, 18:01

A greve que acabamos de encerrar já se inscreve como uma das mais importantes da história recente da nossa categoria. Não apenas pelo volume de conquistas, mas pelo seu caráter, pela forma como se desenvolveu e pelo que revela sobre o momento que vivemos. Depois de anos marcados por dificuldades de mobilização e poucos avanços concretos, com exceção do papel destacado do Sintusp e da vanguarda durante a greve sanitária na pandemia, é possível afirmar com segurança que se trata da primeira greve com grandes conquistas desde 2014 e uma das mais bem-sucedidas de toda a nossa trajetória.

O movimento nasceu de forma quase espontânea, impulsionado pela revolta legítima diante da proposta da reitoria de instituir uma gratificação de R$ 4.500 restrita à categoria docente. A resposta foi imediata, forte e capilarizada, envolvendo diversas unidades desde o início. Esse arranque atipicamente potente criou uma correlação de forças que obrigou a reitoria a negociar rapidamente, apresentando em poucos dias uma proposta muito próxima das reivindicações.

A greve assumiu características distintas das que estamos mais acostumados, sendo rápida, ampla e com relativamente alto nível de adesão desde o início. Ao mesmo tempo, esse formato gerou tensões reais. A velocidade das negociações, a desconfiança em relação à reitoria e o receio de enfraquecer a luta estudantil fizeram com que bases e lideranças hesitassem em encerrar o movimento mesmo com a nossa pauta praticamente atendida. Ainda assim, um Comando de Greve longo e com muito debate conseguiu construir uma posição praticamente unânime pela saída, condicionada a garantias fundamentais como o não corte de ponto, a ausência de perseguições e o compromisso de diálogo com os estudantes. A proposta de aceitar o acordo e encerrar a greve com os condicionantes foi aprovada por em torno de 80% dos trabalhadores em uma assembleia híbrida que reuniu por volta de 500 pessoas presencialmente e 600 remotamente.

O resultado final é expressivo e concreto. Trata-se de um acordo de cerca de R$ 480 milhões a serem distribuídos de forma igualitária entre todos os trabalhadores ao longo de 24 meses, o que representa aproximadamente entre R$ 1.500 e R$ 1.600 mensais por trabalhador. Soma-se a isso a isenção da compensação de horas de recesso e pontes, com redução de mais de 100 horas anuais de trabalho, a ampliação do transporte interno para terceirizados e as garantias políticas de não punição e não corte de salários. Trata-se, sem exagero, de uma vitória histórica.

O papel do Mover e a construção de uma estratégia vitoriosa

O Movimento Esquerda Socialista atua na categoria há quase 15 anos e, mais recentemente, se fortaleceu com a entrada de novos quadros oriundos da juventude após os últimos concursos. Foi nesse contexto que impulsionamos o movimento Mover em diálogo com ativistas independentes e outros setores da categoria.

Aproveitando o peso político que temos para além da Universidade de São Paulo, trouxemos para apoiar nossa luta um diretor do Sindicato dos Metroviários, além de trabalhadores da CETESB e da educação municipal. Entre os parlamentares, contamos com a presença constante da vereadora de Campinas e membra da flotilha Sumud, Mariana Conti, em atividades em São Paulo e São Carlos, da vereadora de São Paulo Luana Alves, da deputada estadual Monica Seixas e da trabalhadora licenciada da USP e deputada federal Sâmia Bomfim. Além disso articulamos uma saudação do companheiro Cyn Huang trabalhador da Universidade da Califórnia Berkeley e do Bread and Roses, corrente do Democratic Socialists of America

Nossa avaliação é que cumprimos um papel relevante em momentos decisivos da greve, particularmente na massificação inicial, na formulação da pauta, na comissão de negociação, na defesa de uma estratégia que combinasse pressão e negociação rápida e na consolidação da vitória com a aceitação do acordo. Apostamos desde o início em um tipo de greve distinto, mais curto, mais amplo e mais inteligente, pois entendíamos que a categoria vinha de um período de fragilidade, com certo distanciamento entre sindicato, vanguarda e base. Nesse cenário, insistir em uma greve longa e mais restrita (mesmo que mais radicalizada) poderia significar a perda da força inicial que havia surgido de forma tão expressiva.

O Mover atuou de forma aberta, dialogando com toda a categoria por meio de panfletos, redes sociais, grupos de WhatsApp, setoriais e assembleias. Ao mesmo tempo, buscamos manter um diálogo político consistente com os diferentes agrupamentos e lideranças que atuam no movimento. Nesse sentido, foi especialmente relevante a relação construída com o grupo Enfrentamento (OSL, TS, PSTU e independentes), com quem compartilhamos análises, propostas e, em muitos momentos, atuação conjunta.

Enfrentamos críticas de um setor minoritário do sindicato (MRT-Nossa Classe), que tentou atribuir ao Enfrentamento e, principalmente, ao Mover a responsabilidade pelo encerramento da greve, acusando-nos de dividir a categoria. Essa leitura ignora o aspecto central de que nossas posições sempre partiram de uma análise da totalidade da categoria e convergiram com a posição amplamente majoritária do Comando de Greve e da assembleia. Não há qualquer constrangimento em ter defendido, em cada momento, aquilo que considerávamos correto. Ao contrário, entendemos que a coerência política é um valor fundamental. O que seria problemático seria adotar uma postura ambígua como a da Nossa Classe, defendendo uma posição no discurso e outra na prática.

Para além das polêmicas, o saldo político é bastante positivo. Além das conquistas materiais, houve uma reaproximação entre base e sindicato, um aumento da capacidade organizativa da vanguarda e o surgimento de novas lideranças que deverão desempenhar papel relevante nos próximos anos.

Perspectivas e desafios para o próximo período

Encerramos uma greve vitoriosa, mas não um ciclo de lutas. Ao contrário, abre-se um novo momento, que combina maior força com maiores responsabilidades. A primeira tarefa é acompanhar o cumprimento do acordo, ficando a postos para nos rebelar diante de qualquer quebra de compromisso.

Há uma série de pautas imediatas que permanecem colocadas. Destacam-se a necessidade de soluções para setores específicos, como a necessidade de professores de educação especial e oferecimento de alimentação escolar gratuita na Escola de Aplicação, a construção de um projeto consistente para o futuro do Hospital Universitário, o avanço na discussão sobre trabalho híbrido e a elaboração de um plano de carreira mais justo e estruturado. Todas essas agendas exigirão organização e continuidade.

É fundamental manter o apoio ativo às lutas estudantis, em especial aquelas relacionadas à autonomia dos espaços, ao reajuste das bolsas, à melhoria do bandejão e às condições de permanência. A articulação entre trabalhadores e estudantes foi um elemento relevante neste processo e deve ser aprofundada, pois esta é uma aliança estratégica e não apenas tática.

É fundamental avançar na luta contra a terceirização e pela ampliação dos direitos dos trabalhadores terceirizados. Além de assegurar o cumprimento do acordo de transporte interno, é necessário garantir a esses trabalhadores o acesso ao CEPE, às bibliotecas e a todos os serviços da universidade. O combate à escala 6×1 e ao assédio moral contra os terceirizados deve ser tratado como prioridade pelas lideranças nas unidades.

Há ainda um desafio estratégico de maior envergadura no horizonte. A perspectiva de mudanças no financiamento das universidades, especialmente com o possível fim do atual modelo vinculado ao ICMS nos próximos anos, pode colocar em risco a própria autonomia das universidades estaduais paulistas. Quando esse debate se tornar concreto, estaremos diante de uma disputa mais complexa e dura do que a que acabamos de enfrentar. A tarefa central, portanto, consiste em fortalecer as categorias das Universidades Estaduais Paulistas, suas entidades e sua capacidade de mobilização.

Vencemos uma batalha importante. Por isso mesmo, estamos em melhores condições para as lutas que virão.


TV Movimento

Lançamento do Manifesto por uma Revolução Ecossocialista na Conferência Antifascista

Atividade de Lançamento do Manifesto por uma Revolução Ecossocialista, organizada pela IV Internacional durante a 1ª Conferência Internacional Antifascista, ocorrida em Porto Alegre entre os dias 26 e 29 de março de 2026

Pré-Conferência Antifascista em SP reforça unidade de luta contra o fascismo

Atividade preparatória em São Paulo para a I Conferência Internacional Antifascista pela Soberania dos Povos, que acontecerá entre os dias 26 e 29 de março de 2026, em Porto Alegre

Encontro Nacional do MES-PSOL

Ato de Abertura do Encontro Nacional do MES-PSOL, realizado no último dia 19/09 em São Paulo
Editorial
Israel Dutra | 24 abr 2026

Lula e Trump: um debate inevitável

Não há nenhuma possibilidade de vitória real contra a extrema direita sem levantar a bandeira da soberania e parar a mão de Trump
Lula e Trump: um debate inevitável
Publicações
Capa da última edição da Revista Movimento
A ascensão da extrema direita e o freio de emergência
Conheça o novo livro de Roberto Robaina!
Ler mais

Podcast Em Movimento

Colunistas

Ver todos

Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Ver todos

Podcast Em Movimento

Capa da última edição da Revista Movimento
Conheça o novo livro de Roberto Robaina!

Autores