O desafio da eleição 2026
HGQ6T1haMAIUZEG

O desafio da eleição 2026

Total unidade contra o fascismo e, ao mesmo tempo, independência total em defesa dos interesses concretos da classe trabalhadora. Somente assim derrotaremos de uma vez por todas a besta fascista que nos ameaça

Bruno Magalhães 23 abr 2026, 18:16

Foto: Lula discursando na reunião do Global Progressive Mobilization, em Barcelona. (GPM/Reprodução)

Há poucos dias atrás, o discurso do presidente Lula durante a Global Progressive Mobilisation, que aconteceu em Barcelona, deu uma importante sinalização política. Ao afirmar que os chamados governos progressistas não conseguiram superar o pensamento econômico dominante e que este campo havia sucumbido à ortodoxia neoliberal, Lula fez uma autocrítica onde se reconheceu como “gerente das mazelas do neoliberalismo”, sinalizando mudanças na forma como o governo tem tratado a luta contra a extrema direita e seu enfrentamento nas próximas eleições.

Na Câmara, vimos a proposta de fim da escala 6×1 avançar na Comissão de Constituição e Justiça, respondendo ao amplo movimento que tem se desenvolvido por esta pauta que, se aprovada, representará a principal vitória econômica da classe trabalhadora brasileira após décadas de retrocessos trabalhistas e retiradas de direitos. E não podemos esquecer que muitos desses retrocessos foram operados pelos próprios governos do PT, o que demonstra certa demagogia, mas principalmente ilustra uma mudança de postura fruto do aprofundamento da crise capitalista e da polarizada dinâmica internacional.

A extrema direita avança

Tal mudança na abordagem de Lula, que pode se confirmar em temas como a redução da jornada de trabalho e a taxação das grandes fortunas, vem em boa hora porque o cenário político nacional é muito difícil. Após um momento de defensiva da extrema direita em 2025 – marcado pela condenação dos golpistas e pela guerra tarifária de Trump – a popularidade de Lula vem caindo bastante e as últimas pesquisas já indicam um empate entre Lula e Flávio Bolsonaro no 2º turno.

E o cenário se complica ainda mais porque a direita corre também com outros candidatos até o momento. Segundo a última pesquisa Quaest, a confirmação de Ronaldo Caiado (PSD) como candidato da velha direita tradicional o coloca com 6% dos votos no 1º turno. Já a candidatura de Romeu Zema (Novo) conta com 3% e a do líder do MBL Renan Santos (Missão) pontua 2%.

Dada a prática política do Centrão, há dúvidas sobre a permanência da candidatura de Caiado, assim como a de Zema, que sinaliza uma aproximação cada vez maior com Flávio. E o cenário de uma direita unificada já no primeiro turno poderia inclusive tirar a vantagem numérica que Lula apresenta na primeira volta. Enquanto isso, o número de abstenções e indecisos varia entre 10% e 20% nas mesmas pesquisas, representando um setor decisivo do eleitorado em disputa.

Isso se combina com uma disputa ideológica que os fascistas também estão desenvolvendo. Não é por acaso que se ampliaram os conteúdos masculinistas dos chamados redpills, que propagam um retrocesso civilizatório bastante instrumental para pavimentar o programa econômico da extrema direita. Da mesma forma ocorre com o discurso da segurança pública, no qual os fascistas buscam normalizar a guerra às drogas e o genocídio da juventude negra periférica como método para um estado de exceção permanente que busca cinicamente impor uma “paz social” almejada por tantos.

Em ambos os exemplos, o objetivo da extrema direita é reduzir ou neutralizar o papel político das camadas mais oprimidas do povo, num cenário que torna ainda mais necessárias as lutas feministas e antirracistas como partes estruturantes da nossa resistência.

A política econômica da derrota

Mesmo com Lula aceitando seu papel como gestor dos problemas sociais gerados pelo neoliberalismo, o fato é que a política econômica do governo é a principal causa da insatisfação popular. É verdade que a definição de Flávio Bolsonaro como candidato coesionou o campo bolsonarista, utilizando para isso um nome mais palatável após certa desmoralização do setor mais ideológico da extrema direita, que tem seu irmão Eduardo como um dos grandes referentes.

Mas a armação “do lado de lá” não explica sozinha a queda da popularidade de Lula. E ainda que os efeitos da guerra imperialista contra o Irã também tenham seu papel nessa queda, também não a explicam por si só. O recente escândalo do Banco Master, que teve participação evidente da mesma extrema direita que tenta focar os crimes exclusivamente em governistas, também não. Mas é fato que um governo petista nunca teve índices tão baixos de popularidade há apenas seis meses das eleições.

Há um descontentamento social crescente que surge das condições concretas de vida da maioria da população. O desemprego oficialmente está baixo, mas a precarização do trabalho atinge patamares cada vez maiores. A inflação, especialmente dos alimentos, tem aumentado o custo de vida já desde antes da guerra, atingindo especialmente os mais pobres. E cortes em programas sociais como o Bolsa Família e o BPC atingiram diretamente as famílias mais vulneráveis. Diferente do que declaram os economistas oficialistas, os trabalhadores não percebem uma melhoria em suas condições cotidianas. Ao contrário, percebem com frustração tais medidas oriundas daqueles que supostamente estão do seu lado.

E tudo piora quando o governo joga contra outros setores essenciais na luta eleitoral antifascista. O PLP dos trabalhadores de aplicativos proposto pelo governo gerou indignação na categoria, assim como a principal luta indígena dos últimos tempos polarizou contra uma proposta do próprio governo, que literalmente propunha a privatização de rios na Amazônia, entre outros exemplos. Mesmo em temas de cunho estratégico, como o do acesso às terras raras presentes no solo brasileiro, a submissão aos interesses econômicos do grande capital é gritante. 

Isso não significa que Lula não esteja se movendo. Medidas como a isenção do Imposto de Renda, os programas de renegociação de dívidas, os financiamentos estudantis ou a distribuição de gás para famílias mais pobres são ações importantes, mas muito insuficientes para o tamanho da batalha que enfrentaremos neste ano. Atacar os problemas estruturais vividos pelo conjunto do povo é o melhor caminho para apresentarmos a candidatura de Lula como uma ferramenta de massas para derrotar a extrema direita.

Nossa unidade contra os fascistas

Por isso a sinalização do discurso de Lula na Espanha é tão importante, mas também por isso é tão necessário construir um polo programático independente dentro do campo de apoio eleitoral à Lula. Trata-se da tarefa de derrotar a extrema direita definitivamente, e isso só será possível através de uma política anticapitalista radical.

Não temos nenhuma ilusão de que um governo de conciliação social-liberal estará à altura desta tarefa. Ao contrário, os exemplos históricos só demonstram como a conciliação com a burguesia em momentos de crise levaram a grandes derrotas históricas. Do governo Ebert na Alemanha dos anos 1920 às esperanças com Perón na Argentina dos anos 1970, entre tantas outras, temos muitos exemplos evidentes sobre as consequências da conciliação com a burguesia em momentos de profunda crise do capital.

Por outro lado, é preciso ter clareza que a tarefa fundamental do ano é derrotar os fascistas eleitoralmente. E esta tarefa será complexa não somente por fatores internos, mas também porque a pressão externa do imperialismo atuará como nunca antes não só nas eleições brasileiras, como também nas próximas eleições colombianas. Todo o poder das big techs e dos demais setores econômicos vinculados à Trump (indústria dos combustíveis fósseis, do agroextrativismo predatório, entre outros) terão como centro a derrota dos governos atuais do Brasil e da Colômbia, o que significaria um completo giro regional pró-imperialista após as derrotas da Frente Ampla no Chile, do kirchnerismo na Argentina e do MAS na Bolívia.  

Mesmo sem mudanças efetivas na política econômica, o apoio à Lula se justifica pela urgente e necessária unidade de ação eleitoral antifascista, e tal reflexo se aplica à praticamente todas as partes do mundo. Uma ruptura de fato com o neoliberalismo tornaria esta tarefa muito mais eficaz, mas o risco que se apresenta é muito grande para vacilarmos na unidade, e a necessária tarefa de construção de uma verdadeira frente única classista passa diretamente por enfrentar a combinação destes desafios.

Só a mobilização popular nas ruas pode responder esta contradição, tensionando não só o governo – mas toda a opinião pública – em direção a uma alternativa que responda aos anseios populares por uma vida mais digna. As lutas anti-imperialistas, por nossa soberania nacional perante as ameaças de Trump, assim como as lutas econômicas nacionais, como pela redução da jornada de trabalho, indicam os passos desse caminho. 

Total unidade contra o fascismo e, ao mesmo tempo, independência total em defesa dos interesses concretos da classe trabalhadora. Somente assim derrotaremos de uma vez por todas a besta fascista que nos ameaça. A postura dos reformistas pode variar muito – não controlamos o que farão – mas as tarefas imediatas da esquerda radical são evidentes.       


TV Movimento

Lançamento do Manifesto por uma Revolução Ecossocialista na Conferência Antifascista

Atividade de Lançamento do Manifesto por uma Revolução Ecossocialista, organizada pela IV Internacional durante a 1ª Conferência Internacional Antifascista, ocorrida em Porto Alegre entre os dias 26 e 29 de março de 2026

Pré-Conferência Antifascista em SP reforça unidade de luta contra o fascismo

Atividade preparatória em São Paulo para a I Conferência Internacional Antifascista pela Soberania dos Povos, que acontecerá entre os dias 26 e 29 de março de 2026, em Porto Alegre

Encontro Nacional do MES-PSOL

Ato de Abertura do Encontro Nacional do MES-PSOL, realizado no último dia 19/09 em São Paulo
Editorial
Israel Dutra | 17 abr 2026

A luta da 6×1 é uma luta de toda a classe trabalhadora brasileira

Precisamos estimular todo tipo de medidas, comitês e articulações para impulsionar a luta. Só a mobilização vai garantir o fim da 6x1
A luta da 6×1 é uma luta de toda a classe trabalhadora brasileira
Publicações
Capa da última edição da Revista Movimento
A ascensão da extrema direita e o freio de emergência
Conheça o novo livro de Roberto Robaina!
Ler mais

Podcast Em Movimento

Colunistas

Ver todos

Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Ver todos

Podcast Em Movimento

Capa da última edição da Revista Movimento
Conheça o novo livro de Roberto Robaina!

Autores