Boulos, o novo Freixo? Parte II
Uma análise crítica ao giro à direita e o papel deletério de Guilherme Boulos no PSOL
Em janeiro de 2023, publiquei na Revista Movimento, um artigo intitulado: “Boulos, o novo Freixo?”. Esse texto não deixou de ser um exercício de caracterização dos primeiros passos de Guilherme Boulos como deputado federal da base do governo Lula, conectando-o com o fim da metamorfose de Marcelo Freixo, que de candidato à líder da esquerda se transformou em um desmoralizado político adaptado à ordem, que “pulou do alambrando” e negou seu passado, no anseio de ser uma espécie de “novo” Lula, idealizando uma frente ampla ao seu redor com frações da burguesia para governar o Rio de Janeiro e combater à direita “descivilizada”. O resultado desse giro pode ser traduzido na melancólica presença de Marcelo Freixo na Embratur, um cargo de segundo escalão do governo federal, subordinado ao Ministério do Turismo loteado pelo União Brasil.
Os movimentos à direita de Marcelo Freixo foram alertados e combatidos pelo MES e demais correntes à esquerda do PSOL. Porém, com votos da ala moderada do partido (o campo PSOL de Todas as Lutas e parte dos chamados “independentes”), o Congresso Estadual de 2022, por uma margem de cinco crachás, decidiu colocar o PSOL como verniz de esquerda na tática eleitoral de Freixo, que se lançou como candidato ao governo do RJ pelo PSB em aliança com o PSDB e com César Maia de vice. Ao fim e ao cabo, Cláudio Castro (agora condenado e inelegível) foi eleito no primeiro turno com quase 60% dos votos, já Freixo, “o Lula que não deu certo”, obteve 27,38% e o PSOL/RJ, mesmo mantendo sua expressão na bancada federal e estadual, desacumulou enquanto projeto independente, não à toa na eleição seguinte, o PSOL baixou de 7 para 4 cadeiras na Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro.
Boulos, por sua vez, entrou no PSOL em 2018, trazia consigo um histórico da luta por moradia no MTST e um acumulado de artigos publicados na Folha de S. Paulo, fazendo críticas à esquerda dos governos petistas. Quer dizer, o Boulos pretérito cabia num partido anticapitalista de tendências, que aglutina reformistas e revolucionários, como o PSOL. Mas, tal como Freixo, optou por uma via caudilha e de adaptação, numa busca acelerada de ser o “caçula prodígio” de Lula. Todavia, a participação de Guilherme Boulos como candidato à presidência da República (com Sônia Guajajara de vice), foi abaixo da crítica na forma e no conteúdo. Não foi por obra do acaso que a marca de sua presença nessa eleição tenha sido o desnecessário “boa noite, presidente Lula” no debate da TV Globo e o recuo em pontos programáticos do partido, como o debate da dívida pública.
Enquanto Freixo se liquidava como figura pública de esquerda em 2022, Boulos se elegeu deputado federal por São Paulo com mais de 1 milhão de votos sob o caldo da eleição anterior. Ou seja, se por um lado pode-se analisar que o movimento de Boulos, em direção ao lulopetismo acrítico, foi quase que numa linha reta. Por outro, é preciso reconhecer que a campanha eleitoral de 2020 para prefeitura de São Paulo se demonstrou como uma inflexão passageira (não sem contradições), num contexto de autoafirmação diante da candidatura petista de Jilmar Tatto e da necessidade de polarização com o bolsonarismo em plena pandemia. Portanto, o PSOL e a essência de seu programa prevaleceram na fotografia do processo. Não à toa, a vice de Boulos nessa eleição foi Luiza Erundina e não Marta Suplicy. De tal forma, mesmo perdendo para Bruno Covas, que obteve 59,38% dos votos, Boulos e o PSOL acumularam muito mais do que os 40,62% do segundo turno, isto é, para uma fatia relevante da vanguarda, a campanha de 2020 em São Paulo foi uma vitória política.
Todavia, não demorou tanto para que Boulos desce um giro definitivo em sua estratégia oportunista, a começar pela negociação que resultou na retirada de sua candidatura ao governo do Estado de São Paulo, na condição do PSOL apoiar Haddad ainda no primeiro turno de 2022, em troca do PT apoiá-lo para as eleições de 2024. No entanto, o preço para o PSOL foi mais alto, uma vez que ficou cristalino que o campo majoritário do partido, liderado justamente por Boulos, adotou uma posição de submissão e adesão quase que completa à direção de Lula.
Por isso, a decisão do PSOL de não participação no governo Lula 3 ganhou holofotes de amplas vanguardas militantes e de parte relevante da imprensa nacional. O que, por razões obvias, ficou mais feio para Boulos e parte do campo majoritário do partido, que foram derrotados e, conforme escrevi, a natureza do PSOL, naquele momento, tinha sido preservada.
Contudo, Boulos seguiu um rumo cada vez mais à direita e adesista ao pragmatismo lulopetista. Talvez, do ponto de vista público, o episódio mais marcante desse giro, tenha sido o seu papel na eleição de 2024, onde claramente ocorreu uma derrota eleitoral e política, já que Boulos de modo consciente esterilizou seu passado adotando um tom pitoresco de memes, reuniu com grandes empresários e, consequentemente, rebaixou o programa do PSOL ao ponto de desmotivar à militância. Não à toa, terminou a campanha de segundo turno numa live com o repugnante Pablo Marçal para debater o “empreendedorismo” como eixo. O resultado da nova tática eleitoral foi a seguinte: 59,35% para Ricardo Nunes e 40,65% para Boulos. Quer dizer, a moderação do discurso e do programa, somado o fundo eleitoral milionário do PT e o apoio político do mesmo, além da presença palatável aos olhos da burguesia de Marta Suplicy na condição de vice, não deram votos para Boulos. Basta fazermos um espelho das eleições de 2022 e 2024 para concluirmos essa obviedade. Isto é, além de equivocado, o giro à direita foi tolo.
Após a derrota nas urnas, Boulos mirou sua artilharia para dentro do PSOL, como um tipo de “capataz” do governo Lula encarregado da domesticação de nosso partido. Assim sendo, Boulos que em 2023 havia perdido o debate interno na bancada federal psolista, no qual era favorável ao voto no Arcabouço Fiscal, adotou um método autoritário e antidemocrático por onde suas mãos alcançavam. O fim da proporcionalidade na bancada federal e a perseguição ao economista David Deccache, foram consequências diretas de uma orientação consciente para asfixiar uma ala independente do partido representada em âmbito nacional nas figuras de Sâmia Bomfim, Fernanda Melchionna e Glauber Braga.
Entretanto, Boulos precisava de mais em seu projeto individual. Por isso, mesmo com uma atuação parlamentar de pouco brilho, se lançou num lobby para ser ministro do governo Lula, o que significava, como significou, uma quebra da resolução de 17/12/2022 do Diretório Nacional que dizia expressamente que “o PSOL não terá cargos na gestão que se inicia”. Por essa razão a Executiva Nacional do MES soltou a seguinte declaração: “Boulos deve se licenciar do PSOL”.
Contudo, as contradições insolúveis de um governo de colaboração de classes deixam claro que tanto Boulos, quanto Guajajara não possuem força digna de nota para alterar os pontos cardeais da bússola do Palácio do Planalto. Pelo contrário, tal como ficou demostrado na suspensão do Decreto 12.600, que foi decidida pela força da mobilização e não por uma suposta negociação de cima para baixo do governo, que, ademais, foi o proponente do Decreto que iria beneficiar o agronegócio e prejudicar os povos indígenas, ribeirinhas e quilombolas da Amazônia. Portanto, o papel dos ministros Boulos e Guajajara, foi apenas de carimbar a decisão de um recuo e assumir o desgaste do governo com o movimento social. Por isso, a posição de independência diante do governo Lula e do PT é tão estratégica para uma esquerda que se propõe como projeto alternativo de poder, programaticamente anticapitalista e que esteja na linha de frente do combate ao fascismo no tempo presente.
Todavia, a estratégia de Boulos é outra, está balizada na ilusão de ser o herdeiro de Lula nas eleições presidenciais de 2030. De tal forma, Boulos se jogou na proposta de federação com o PT. Mas Boulos e o que sobrou da Revolução Solidária, já entraram derrotados na discussão. Não havia relação de forças favorável no Diretório Nacional e na base do partido para aprovar a federação liderada pelo PT. Contudo, esse episódio expôs uma divisão no campo majoritário do PSOL. Mas não só, também ficou nítido que a Revolução Solidária deu um giro para um tipo de “fração pública” à direita, agitando uma posição liquidacionista do PSOL. O que ainda não está respondido é o destino no curto prazo de Boulos e do seu grupo.
De tal maneira, em entrevista ao canal da UOL feita por Daniela Lima e Fábio Zanini, Boulos, ao responder à jornalista se ele vai para o PT, tergiversa, critica o PSOL, insinua que “o partido prega para convertidos e não põe o pé no barro”. Isto é, sem demonstração de causa, agita no vazio retóricas despolitizadas que se assemelham aos ataques que sofremos quando decidimos fundar o partido após a traição da reforma da previdência de Lula em 2003. Diz que reconhece a importância do PSOL, para falar o contrário. E deixa no ar a hipótese de permanecer no partido, pois, se sair com seu grupo, o PSOL não cumpre a cláusula de barreira.
Boulos jamais vai admitir, mas a hipótese de permanência dele no PSOL só está colocada porque ele foi derrotado. Seu movimento, desde o início, foi liquidacionista de anexação do PSOL ao PT. Por erro de cálculo ou por outra razão, Boulos achou que tinha força para fazê-lo, não conseguiu, se enfraqueceu e precisa agora emplacar uma narrativa, como “político caridoso”. Portanto, deixa no ar que “pode ficar pelo bem do PSOL”, depois de não ter conseguido entregar os votos da bancada no arcabouço fiscal, também não conseguiu domesticar o partido.
Com o enfraquecimento de Boulos na tentativa de ser uma espécie de caudilho do PSOL e falhar ao entregar o partido ao PT e a Lula, sobra o cálculo e a utilidade dele ao próprio PT. Boulos já havia anunciado que não seria candidato, um movimento defensivo de quem sabia que sairia menor nas eleições de 2026; abrigou-se no ministério porque ali conseguiu uma justificativa para não ser provado nas próximas eleições, uma opção confortável. Mas para o PT, de que serve um Boulos enfraquecido e sem um deslocamento robusto de figuras do próprio PSOL? Não serve para muita coisa, então a hipótese de ficar está colocada. Mas que as coisas fiquem claras: se ficar, fica porque foi derrotado, não porque venceu. E o PSOL ganhou fôlego com isso, porque apostou numa nova possibilidade de independência em relação ao PT, o que é estratégico.
Finalmente, não seria possível concluir este artigo, “Boulos, o novo Freixo? Parte II”, sem registrar algumas semelhanças ideológicas de Boulos e Freixo: ambos não são marxistas e defendem “melhorismo” social liberal dentro da ordem burguesa; estão à direita de figuras do próprio PT, como Breno Altman e Valter Pomar; não à toa Freixo saiu do PSOL e logo migrou para a ala à direita do PT, que, aliás, é o lugar natural de Boulos. No entanto, há uma diferença substancial entre eles, Freixo não colocou o projeto do PSOL em risco com seu giro à direita, mas o movimento de Boulos é de outra natureza. Quer dizer, em última análise, Freixo decidiu se liquidar sozinho como candidato à líder da esquerda e Boulos, por sua vez, atua como uma corrente organizada para sacrificar o projeto político do PSOL em nome de um projeto próprio com traços oportunistas e caudilhescos. Contudo, o PSOL não precisou de Freixo para continuar se desenvolvendo como alternativa política da esquerda brasileira e tampouco precisará de Boulos.