As Festas de Ogum e Anitta: porque a ancestralidade negra incomoda o sistema?
Para além do rito, as festas de Ogum representam a disputa por uma existência digna que desafia a lógica da morte e da exaustão impostas pelo capital
Foto: Apresentação na aula inaugural da Rede Emancipa de Educação Popular em 2025. (Rede Emancipa/Reprodução)
O Brasil é um projeto de nação que se equilibra em uma encruzilhada perversa: ao mesmo tempo que se nutre vitalmente das tecnologias de encantamento das matrizes africanas, opera um sistema de destruição desses corpos e saberes. A cultura negra é parte da essência brasileira, uma força popularizada que reorganizou e possibilitou aos povos negros a construção de uma civilização própria dentro do trauma colonial.
Essa tensão se manifesta com nitidez no dia 23 de abril, data que ilustra a contradição de um país culturalmente e civilizatoriamente amefricano que convive com uma brutal exploração e racismo cotidiano. A festa de Ogum, o orixá que forja o ferro e abre os caminhos, fundiu-se a São Jorge como uma tecnologia de sobrevivência frente ao projeto colonial de apagamento. Nos terreiros, o culto à Ogum é tradicionalmente acompanhado da oferta de feijoada, tradição fundada em Salvador pelo Babalorixá Procópio de Ogunjá, que na década de 1930 tornou-se referência na luta contra a perseguição policial do Estado Novo aos candomblés.
No Ìtàn (mitologia) sobre esse rito, Procópio não ofereceu comida a um filho de santo que esteve de passagem pela sua casa, e em resposta, Ogum teria exigido que todos os anos a feijoada fosse ofertada aos filhos de santo e a todos visitantes da casa de Axé. O sentido seria dar exemplo de generosidade e justiça, uma oferta de união em contraponto à fome. Sob a pressão do colonialismo e do capitalismo, essas festas e ensinamentos não são meras expressões religiosas, mas ferramentas de desalienação e resistência, onde sujeitos explorados recuperam suas identidades históricas e coletivas, através da prática da solidariedade e da constituição de comunidades.
Para além do rito, as festas de Ogum representam a disputa por uma existência digna que desafia a lógica da morte e da exaustão impostas pelo capital. Ogum impõe uma transição ética: da vida voltada para o mercado para uma vida voltada para a comunidade. Como símbolo de luta, o orixá das batalhas é uma demonstração política que confronta o racismo estrutural ao implodir a imagem do negro como força de trabalho dócil. Ao mesmo tempo, a generosidade como principal motor de seu culto aponta que a ancestralidade é capaz de gestar espaços onde a dignidade humana prevalece sobre a sanha exploratória do sistema.
Entretanto, essa mesma resistência encontra novos campos de batalha na contemporaneidade. No último dia 16, o lançamento do álbum “EQUILIBRIVM”, no qual Anitta retrata abertamente sua relação com o Candomblé, resultou em ataques sistemáticos nas redes sociais. Esse fenômeno evidencia que o racismo religioso enfrentado pela artista não é um incidente isolado, mas uma engrenagem funcional da ideologia dominante. O capital utiliza o fundamentalismo evangélico e o pânico moral como ferramentas de um projeto neofascista que busca fragmentar a classe trabalhadora e silenciar espiritualidades que historicamente fundamentaram a resistência negra.
Ao expor sua identidade religiosa, Anitta rompe a lógica da alienação e utiliza seu alcance global para reivindicar a autonomia de sua fé, desafiando a norma cristã-burguesa. Mesmo que um álbum pop não carregue sozinho a força coletiva necessária para romper com a exploração sobre a classe trabalhadora, esse movimento na cultura de massas escancara a perversidade de um sistema que aceita consumir uma estética popular e periférica como mercadoria palatável, mas reage com violência quando essa mesma estética busca o resgate de sua ancestralidade de maneira autônoma. O ataque religioso, portanto, transparece uma tentativa de aniquilação simbólica, punindo qualquer manifestação que ouse colocar a identidade e a raiz acima da rentabilidade alienada do mercado.
A exploração capitalista e o fundamentalismo religioso judaico-cristão revelam uma estratégia de dominação que busca despossuir o sujeito negro não apenas de sua força de trabalho, mas de sua alma coletiva. Ao demonizar o Candomblé ou a Umbanda, o sistema não ataca apenas uma crença; ele ataca uma forma de organização que não se curva à atomização do indivíduo. O fundamentalismo atua, portanto, como o “braço ideológico” do capital nas periferias, tentando substituir a solidariedade orgânica do terreiro e da comunidade pelo isolamento do consumo e pela moralidade da submissão, fragmentando a resistência de classe ao racializar o “inimigo espiritual”. Vemos a mesma lógica sustentar o discurso de uma guerra santa protagonizada por Israel e os EUA contra os povos árabes do Oriente Médio, usado ideologicamente como a principal justificativa para o genocídio na Palestina, no Líbano e no Irã.
Nesse cenário, a afirmação da identidade negra e o resgate da ancestralidade deixam de ser atos puramente subjetivos para se tornarem políticas anti-imperialistas de alta intensidade. Quando a comunidade negra reivindica o valor de uso de seus ritos e territórios contra o valor de troca imposto pelo mercado, ela interrompe o fluxo da lógica capitalista da mercadoria. O terreiro e as festas de santo funcionam como zonas autônomas onde o tempo não é regido pelo relógio das empresas, mas pelo ciclo da natureza e do sagrado, devolvendo ao trabalhador a sua humanidade sequestrada pela rotina da exaustão.
A política gestada nas matrizes africanas, propõe uma alternativa radical ao modelo de acumulação infinita. Enquanto o capitalismo exige a competição e a escassez, as comunidades tradicionais, fundamentadas no princípio da reciprocidade, institui a abundância do compartilhamento. É uma disputa civilizatória onde a identidade não é um acessório estético para ser vendido nas prateleiras do multiculturalismo neoliberal, mas um alicerce de luta que aponta para a socialização da vida e dos afetos, colocando a reprodução da existência digna acima da sanha pelo lucro.
Assim, a unidade entre povos de axé e a luta política representam o maior temor da ordem neofascista e neoliberal: trabalhadores que se reconhecem como classe e sujeitos históricos através de sua própria cultura e território. Ao integrar o espiritual ao material, a resistência negra desmascara a farsa do progresso capitalista que se sustenta sobre o genocídio simbólico e concreto. A comunidade negra, ao se organizar em torno de sua ancestralidade, não busca apenas sobreviver ao sistema, mas fundar um novo projeto de mundo onde o trabalho não seja alienado, e a natureza seja a origem de toda a vida, não uma fonte de recursos para serem extraídos e comercializados. Onde a espiritualidade seja o cimento entre os corpos e mentes em busca de uma liberdade coletiva, inegociável e verdadeiramente humana.