Para além do antifascismo: a disputa por um futuro
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Para além do antifascismo: a disputa por um futuro

O projeto da extrema direita, as lutas sociais e a necessidade de disputa de perspectiva de esquerda anticapitalista

Theo Louzada Lobato 6 maio 2026, 17:43

Foto: Assembleia de estudantes da USP. (J!/Reprodução)

As recentes derrotas de Lula no Senado – a não indicação de Messias para o STF e na derrubada do veto do PL da dosimetria – se deram em um cenário político de fragilidade do governo. As pesquisas que colocam Flávio Bolsonaro como primeiro colocado, na frente de Lula, mesmo ainda representando um empate técnico, demonstram uma tendência de fortalecimento nos últimos meses da candidatura da extrema direita. Esse crescimento se dá mesmo após a prisão de Jair Bolsonaro e a desarticulação neste campo político desde então.

Esse quadro, portanto, demonstra a necessidade de ampliação do debate sobre quais perspectivas de curto e médio prazo para a esquerda brasileira. É preciso compreender o que tem permitido a fragilidade recente do governo federal, quais limites que intrínsecos a ele e qual debate deve ser feito pelos setores da esquerda brasileira que se dispõe a ir além do teto que representa a marca do “campo progressista”.

Governo Lula, seu projeto e os horizontes em disputa

A baixa popularidade do governo Lula pode se explicar por diversos fatores já debatidos extensamente entre autores da Revista Movimento, como Israel Dutra e Bruno Magalhães, por isso esse texto não pretende se ater a uma análise das últimas medidas do governo em si. Vale ressaltar, porém, que entre esses fatores estão a falta de disposição do Governo Lula em ampliar as investigações do Banco Master, a continuidade do endividamento da população brasileira, a precarização do trabalho e a falta de medidas populares que já tenham impactos diretos no ano de 2026.

Esse cenário se reflete, porém, também de outra forma: a incapacidade do governo em apresentar uma perspectiva de futuro. Em meio a uma crise global do capitalismo e de disputas mundiais promovidas pela extrema direita, a estratégia do petismo segue marcada pelo que há décadas define estruturalmente seu projeto: a aposta na política institucional e na disputa de uma correlação de forças na superestrutura estatal dada, mesmo que hoje esta siga uma lógica fundamentalmente diferente da década passada.

O Manifesto “Construindo o Futuro” do 8º Congresso Nacional do PT expressa bem essa lógica. Nele coloca que faz-se necessário um novo pacto pelo desenvolvimento social baseado no “setor produtivo e o empresariado comprometidos com a nação, a classe trabalhadora, o sindicalismo e os movimentos populares” e que essa coalização deve fazer uma disputa pela hegemonia social “no terreno econômico, institucional, cultural e simbólico”.

Mesmo reconhecendo no Manifesto que existe uma frustração social que se aprofunda e corrói a confiança nas instituições e colocar que essa aliança deve, de forma genérica, “transceder a defesa institucional da democracia”, a estratégia petista está bem marcada. É a de apostar na defesa da democracia burguesa, altamente desgastada, se apoiando em setores da burguesia bastante vacilantes, como mostrou recentemente a votação do Senado. Nessa equação, como perceptível nos próprios terrenos citados pelo manifesto, a luta das ruas está ausente.

Isso se expressou bem no Primeiro de Maio, onde, mesmo com a oportunidade que o debate sobre o fim da escala 6×1 abriu na luta contra a extrema direita, as mobilizações foram frágeis e pouco articuladas por todo país. A ausência da tentativa da maior parte dos setores de esquerda do país de construir uma data a altura tanto do que a pauta representa quanto a conjuntura geral necessita, reforçou que aposta institucional segue predominante.

Essa perspectiva, porém, não pode ser analisada de forma separada. A falta de aposta na mobilização não é só um elemento no vácuo, mas parte de uma estratégia maior. Não basta somente exigir “mais mobilizações”, a falta de luta social remete a uma estratégia de futuro que não parece estar em disputa pela esquerda oficialista. Esse é um debate que precisamos aprofundar.

As mobilizações sociais no mundo e a perspectiva de futuro

Seria insuficiente fazer uma análise do cenário brasileiro sem uma análise de como tem se dado as lutas da classe trabalhadora em terreno global. Os últimos dois anos tem representado uma grande instabilidade marcado pela disputa imperialista da extrema direita que ao mesmo tempo que tenta uma ofensiva, demonstra, nessa jornada, suas próprias debilidades. A guerra dos Estados Unidos com o Irã demonstram isso, visto que além de não ter conseguido cumprir seus objetivos, o governo de Trump sofre com a ampliação de sua impopularidade e dos protestos sociais, como as grandes manifestações do No Kings, nos Estados Unidos.

Esse terreno de incertezas e disputa permantente tem se expressado também nas mobilizações em diversos países pelo mundo. O ano de 2025 foi marcado tanto pela resistência global da causa Palestina, colocando milhões nas ruas, especialmente na Europa e Oriente Médio, quanto as revoltas da Geração Z que demonstraram novos fenômenos políticos surgidos da juventude em dezenas de países. Em 2026, além do enfrentamento ao Trump, a mobilização social na Argentina demonstra que as ruas não estão mortas. Na verdade, estão mostrando muita vitalidade.

Essas mobilizações, porém, tem variado suas bandeiras entre uma resposta mais direta às ofensivas da extrema direita e uma movimentação popular mais radicalizada, mas sem projeto definido. Isso é importante ser denotado, porque demonstra que existe um desafio fundamental à esquerda mundial: analisar esses novos processos e disputar um sentido a eles.

A extrema direita manteve sua relevância mesmo depois de importantes derrotas eleitorais, porque soube apresentar seu próprio projeto de futuro. Além de se ocuparem um perfil antissitêmico e não se limitarem aos marcos das desgastadas instucionalidades, atualmente existe um esforço consciente de apontar um caminho por parte desse setor. Um dos exemplos dessa construção de projeto tem sido feito abertamente pelos setores mais ideológicos dos bilionários do Vale do Silício.

A empresa de vigilância e informática Palantir, já conhecida por ter entre seus fundadores e lideranças ideólogos de uma teoria ultrarreacionária, como Peter Thiel e Alex Karp, publicou no Twitter um Manifesto que resume suas posições. Nele defende o uso da Inteligência Artificial para a ampliação de ofensivas imperialistas diretas, o fim ou diminuição do serviço público, a retomada da extrema direita global em países como a Alemanha e Japão, a ultravigilância, a supremacia cultural ocidental e branca e o fim do “pluralismo político”.

Ou seja, aponta um mundo que oficializa a supremacia-branca imperialista em um sistema de dominicação baseado em novas tecnologias. Isso é feito abertamente e não por acaso. A ainda fragilidade da construção de um outro pólo radicalmente oposto, que vá além da defesa da impopular institucionalidade que esses setores da burguesia vêem como falida, ajuda com que esse projeto consiga se apresentar enquanto alternativa ou novidade.

Mesmo que hajam novas expressões positivas à esquerda, como visto na eleição de Mandami em Nova Iorque, esse desafio estratégico da retomada da disputa de um projeto antissistêmico de futuro precisa ser ampliado de forma qualitativa, em especial na esquerda anticapitalista. O limite na defesa da institucionalidade e a necessidade de retomar a ideia de ruptura de um programa próprio, se já eram essenciais na última década, precisam dar um salto na disputa que vivemos atualmente, inclusive no Brasil.

Brasil, mobilizações e nossa afirmação de um projeto

Parte da esquerda brasileira, pelo menos não-governista, pode ter acordo com essa necessidade no cenário global, mas apontar que o atual período do Brasil não permite a apresentação de novos projetos, porque a conjuntura está marcada pela falta de mobilizações sociais. Isso, porém, não é uma realidade.

Hoje, de fato, há uma ausência de sentido comum entre mobilizações nacionais. Parte inclusive, como debatido anteriormente sobre a escala 6×1 e a falta de estratégia de mobilização do governo, por conta dos limites do projeto hegemônico da esquerda e sua institucionalização. Mas 2026 demonstrou força em lutas importantes, mesmo que descentralizadas.

A vitoriosa luta indígena no Tapajós, as greves dos servidores de universidades federais, de estudantes e técnicos da USP e de professores em diversos municípios do Brasil, as mobilizações dos entregadores de aplicativo e os atos em diversas escolas sobre o assédio demonstram que a conjuntura não está parada. Existe indiginação social sendo mobilizada, mesmo que falte um caminho em comum para elas.

Essa reflexão é especialmente fundamental para a esquerda anticapitalista e precisa estar conectada com o desafio de disputar o principal setor que pensa política a partir de sua perspectiva de futuro: a juventude. A desaprovação eleitoral de 72% do governo Lula entre 16 e 24 anos não pode ser vista como somente um problema eleitoral e ou momentâneo, significa que um próximo período histórico também está em disputa e que a estratégia governista é incapaz de fazer esse enfrentamento.

Ainda esse ano foi fundado um “Fórum das Juventudes Progressistas”, um espaço para coordenar politicamente a campanha do Lula entre as juventudes organizadas que vão construir sua campanha. Uma iniciativa que, em si, é necessária, mas que por ser hegemonizado pela estratégia do governo, demonstra os mesmos limites. Sua carta de fundação aponta a priordade a “unidade das juventudes partidárias”, o “compromisso coletivo com a democracia”, mas não citar em nenhum momento a palavra “futuro”.

Obviamente que uma análise de palavras conclui pouco, mas reforça um problema em comum: há uma necessidade de mudar a forma que a esquerda disputa o futuro. Mas para isso, há de se definir o que se quer ser. A disputa de uma perspectiva de futuro só pode ser feita se apresentar também um projeto que proponha uma ruptura sistemática, mas junto a isso aponte um caminho radicalmente diferente da extrema direita.

Afinal, o regime como está, escancarado pelo Banco Master e o troca-troca de emendas parlamentares não pode ser a perspectiva de futuro defendida por nenhum projeto alternativa anticapitalista. Definições como “campo progressista”, pouco nos ajudam a diferenciar entre nós quais nossas necessidades objetivas dentro da unidade antifascista e o quais são as necessidades que temos na afirmação de um projeto nosso.

E por mais que o elemento da unidade seja um pólo necessário – com a disputa entre Lula e Flavio Bolsonaro beirando aos 50%, pouco faria sentido, por exemplo, a apresentação de uma candidatura presidencial alternativa à esquerda – esse não pode ser nosso horizonte final. O antifascismo se for visualizado somente de forma defensiva, dificilmente terá vitórias a longo prazo. Se a esquerda anticapitalista assumir os limites da frente única como seus limites, terá batalhas ainda mais árduas em um período próximo.

Parte do nosso objetivo central precisa ser o de dar sentido comum às indignações que podem ser disputadas à esquerda e atuar sobre esse setor da sociedade que está desiludido. Isso requer ação e programa. Apostar nas ruas e dar sentido comum às mobilizações, das greves à luta dos povos originários, é fundamental. Mas isso só pode ser feito com um programa que se coloque abertament e seja uma alternativa para disputar essa perspectiva de futuro.

O processo eleitoral, portanto, não pode se resumir ao marco de unidade e necessita ser, para nós, também parte de um processo social mais amplo. Ou seja, precisa acumular desde já com esses setores que estão em mobilização e dialogar com as pautas que apontam uma disputa de futuro. A mesma juventude que rejeita em 72% o governo Lula tem 65% de apoio à taxação de super-ricos, 82% de aprovação ao fim da escala 6×1 sem dimuinição de salários. Também é o setor que mais demonstra preocupação com o desmatamento (94%). Isso significa que é necessário reforçar uma disputa além dos horizontes institucionais e da correlação dessas eleições, que afirme um programa que aponte para um novo futuro baseado em uma ruptura com o sistema político atual que está fragilizado e não com sua manutenção.

Esse é um desafio em especial da esquerda anticapitalista. Fortalecer o exemplo da luta indígena, construir o dia 19 de maio como dia nacional de mobilização contra o assédio, nacionalizar o exemplo da greve estudantil da USP e participar ativamente da luta pelo fim da escala 6×1 e das greves de trabalhadores pelo país são desafios fundamentais e ajudam a apontar um espaço social de indignação a ser organizado.

Mas afirmar nosso projeto também é. Falar de taxação das grandes fortunas e do sistema financeiro, auditoria da dívida, fim da exploração de petróleo, enfrentamento às Big Techs, defender a reforma agrária e urbana e denunciar a relação da extrema direita, do centrão (e de quem quer que for) com o crime organizado e os esquemas de corrupção do capital financeiro e do Congresso, tem que estar no centro da nossa disputa. Apresentar que existe um projeto de futuro que não é nem a defesa das coisas como estão nem é aceitar a dominação sem freios dos bilionários, é uma tarefa histórica.

Essa, portanto, também é uma tarefa no terreno eleitoral, tanto nas campanhas proporcionais, mas onde possível, nas disputas majoritárias: um projeto que aponte um caminho e uma saída e que ajude a dar sentido às indignações que, de alguma forma, já tem se apresentado socialmente nas ruas e na opinião pública. É verdade que as eleições de 2026 terão limites e o marco da unidade não pode, agora, ser esquecido ou secundarizado. Mas isso não significa que ela pode ser nosso horizonte final. Temos o dever, inclusive nesse momento, de apontar que o antifascismo só pode ser vitorioso se for um antifascismo de ofensiva, que existe no Brasil um projeto de afirmação de um novo mundo e não só, mais uma vez, de uma falsa manutenção do que não existe mais.


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