Venezuela: quatro meses após 3 de janeiro
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Venezuela: quatro meses após 3 de janeiro

Um panorama sobre a situação política e as tarefas dos socialista no país após o sequestro de Nicolás Maduro e Cilia Flores

Oscar Feo Istúriz 6 maio 2026, 08:00

Foto: Presidente Nicolás Maduro sendo sequestrado por militares estadounidenses. (WJ/Reprodução)

Via Aporrea

Quatro meses após a vil e repudiável intervenção dos EUA na Venezuela, muitas coisas aconteceram e há inúmeras incertezas. Nesta reflexão, apresento uma lista de fatos que estão à vista de todos, além de comentários sobre alguns aspectos que não conhecemos bem e sobre os quais existem muitas hipóteses e fabulações.

No dia 3 de janeiro sofremos uma derrota humilhante. Os americanos vieram e, em poucas horas, bombardearam, mataram, levaram Maduro e Cilia, e, surpreendentemente, se retiraram. A maior incerteza é por que não houve resposta militar das Forças Armadas venezuelanas.

Eles deixaram um governo chefiado pela vice-presidente, desconsideraram a oposição intervencionista que havia clamado pela intervenção, descartando a possibilidade de eleições no curto prazo. Em suas declarações, Trump diz que é ele quem manda, zomba de nós, e levam o petróleo e o ouro, reservando para si a decisão sobre o que fazer com a receita da venda desses recursos. São aprovadas leis antinacionais que, vergonhosamente, entregam nossos recursos ao império.

A embaixada foi reaberta; vieram o diretor da CIA, o chefe do Comando Sul, o ministro de Energia e outros altos funcionários dos EUA. As relações com o FMI e o Banco Mundial foram retomadas.

O que mais importa para muita gente é que seguimos sobrevivendo em um país destruído e disfuncional, com salários e aposentadorias insuficientes, onde nada funciona bem: a economia, a justiça, a saúde, a educação, os serviços públicos. Tudo está em crise. Cortam a eletricidade quatro horas por dia sem aviso prévio. Muitas pessoas dependem do que os filhos enviam do exterior; outras fazem vaquinhas para cobrir gastos urgentes de saúde. Para os milhões que vivem de pensões ou aposentadorias, a situação é extremamente crítica.

O governo liderado pelos Rodríguez, claramente tutelado e sob ameaça, tem alguma autonomia relativa na gestão doméstica, mas depende dos EUA em aspectos fundamentais da economia, do petróleo, do comércio, das relações internacionais e da operação militar. A intensa atividade das diversas missões dos EUA que controlam a vida do país é facilmente perceptível em Fuerte Tiuna, na PDVSA, nos hotéis de Caracas onde se hospedam militares e funcionários, e na atividade febril da embaixada norte-americana.

Somos um país ocupado. Em 3 de janeiro perdemos a independência e passamos a ser um neoprotectorado. As forças militares dos EUA seguem desdobradas e, para piorar, Trump afirmou que é a Venezuela quem paga esse exército de ocupação que permanece no Caribe e controla nosso espaço aéreo e marítimo.

O setor da ultradireita nacional e internacional, agrupado sob a liderança personalista e entreguista de María Corina Machado, centra suas propostas em confrontar o governo, que definem como uma continuação do madurismo, e sua proposta fundamental é a realização de eleições — não a reconstrução do país nem a recuperação da independência. Consideram que o tempo joga contra eles e veem em risco sua influência na política nacional e na opinião pública. O que querem é governar.

Não somos apenas um país ocupado militar e politicamente, mas também ideologicamente. A guerra cognitiva impulsionada desde o Norte tem se valido dos enormes erros do governo Maduro e da destruição do país para capturar a mente de muitos compatriotas que hoje são funcionais à intervenção ianque. Defendem-na, aplaudem-na, anseiam pela dolarização e se alegram com a possibilidade de se tornar um estado associado ou mais um estado dos Estados Unidos. Seduz-lhes a ideia de ter um passaporte com a imagem de Trump e o dólar como moeda oficial. Como diria Briceño Iragorri, temos uma crise de povo e uma letargia coletiva, na qual abundam os vendepátrias e os “piti-yankees”.

Nesse processo político, o povo trabalhador é o grande ausente. Não é levado em conta nas grandes decisões; está frustrado, sobrevivendo, desmobilizado, envenenado, irritado com o “socialismo”, ao qual os meios dominantes atribuem o desastre nacional. Vivemos desinformados e manipulados, em uma guerra de informações falsas, onde cada setor constrói suas “verdades” e narrativas que pouco têm a ver com a realidade.

Para os que somos politicamente de esquerda e lutamos pelos interesses históricos do povo trabalhador, isso é uma tragédia ainda maior, já que o governo de Maduro destruiu o país em nome do socialismo e com um discurso anti-imperialista falso, mas estridente e fanfarrão, o que faz com que parte do povo veja essa alternativa política com temor. O desafio de resistir, não nos entregarmos à direita e nos reconstruirmos como força de esquerda é enorme.

Nesse contexto, um comentário geopolítico é imprescindível. O mundo unipolar está chegando ao fim. Surgiram novas potências que puseram fim ao domínio unilateral dos EUA, cuja crise os afeta e deslegitima moral, política e economicamente; agora, resta-lhes sobretudo seu imenso poder militar e a guerra para se impor e manter a dominação mundial. É impossível compreender o que ocorre na Venezuela sem olhar para a crise do império e para as guerras que trava para manter sua hegemonia. Também é impossível entender a realidade venezuelana sem considerar a importância estratégica de controlar o petróleo e as riquezas minerais do país. Está claro que a Trump e ao governo dos EUA não importa quem governa, nem a democracia, nem as condições de vida dos venezuelanos. Interessa-lhes manter o país sob controle e com estabilidade suficiente para extrair seus recursos.

Nesse mundo de incertezas, de informação insuficiente e manipulada, surgem inúmeras interpretações, hipóteses e elucubrações fantasiosas.

Não conhecemos em profundidade os planos reais dos EUA. Sabemos que sua cobiça não tem limites, que seu objetivo é se apropriar de nossos recursos, que não lhes interessa a democracia, que se mostram encantados com Delcy e críticos de MCM. Mas sabemos que não podemos acreditar neles nem um pouquinho… da mesma forma, poderiam prescindir de Delcy, impor uma junta cívico-militar de transição ou recorrer a MCM — é impossível saber. Seu objetivo é claro: manter-nos sob sua tutela, como peça importante no jogo geopolítico. Qualquer coisa pode acontecer; de fato, a história não está escrita, está sendo escrita.

Também não conhecemos em profundidade as perspectivas do governo dos Rodríguez. Conhecemos sua trajetória, seu cinismo e sua soberba, mas também sua paciência, inteligência e capacidade política. Não basta dizer que seu único interesse é manter-se no poder e ganhar tempo… tempo para quê? Têm algum projeto estratégico desconhecido por nós? Não sabemos. Tampouco conhecemos suficientemente as fissuras e contradições do governo, no seio do PSUV, das forças armadas e do setor econômico que enriqueceu à sombra do regime (boliburguesia). Podemos supor que há muitas e variadas, que mantêm um equilíbrio instável. Mas sem nenhuma certeza.

Diante dessa situação, colocam-se dois grandes desafios:

  • A necessidade de resgatar a República, sua independência e soberania
  • A reconstrução do país

É indispensável impulsionar um GRANDE ACORDO NACIONAL PARA A RECONSTRUÇÃO DO PAÍS E O RESGATE DA REPÚBLICA E DE SUA INDEPENDÊNCIA, construído com base em uma ampla participação nacional, que reúna os setores democráticos, patrióticos e populares sem sectarismos, manobras ou ressentimentos, e com o objetivo de recuperar e respeitar de forma irrestrita a Constituição Nacional. Algumas ideias mínimas para esse acordo:

1. No campo econômico e social:

  • Recuperação progressiva, mas firme e pactuada, dos salários e das pensões, com participação de entidades e sindicatos — não apenas os alinhados ao governo.
  • Ações imediatas para melhorar as condições de vida e de trabalho e o funcionamento dos serviços públicos.
  • Plano Nacional para recuperar, de forma participativa, a saúde e a educação. Criação de um Conselho Nacional amplo para cada um desses setores.

2. No campo político:

  • Acordo sobre datas e características de eleições que permitam ao povo soberano decidir seu destino em um processo eleitoral confiável, o que implica reestruturação do CNE e garantias reais de participação.
  • Reestruturação pactuada do TSJ e do sistema judicial.
  • Respeito absoluto aos direitos humanos. Fim do bloqueio e dos ataques aos meios de comunicação.
  • Desjudicialização da política, permitindo a abertura de processos para que cada partido possa designar suas autoridades de forma livre e democrática.
  • Recuperação e respeito à autonomia das universidades.
  • Libertação dos presos políticos.
  • Combate implacável à corrupção e aos privilégios.

Em relação à recuperação da independência e soberania, estamos conscientes de que é um tema fundamental, mas extremamente delicado e complexo, devido à ameaça permanente dos EUA e à magnitude e ao desequilíbrio de forças existentes. Diante disso, é urgente repensar o significado das lutas por libertação nacional e compreender o momento político para enfrentar com êxito a nova arquitetura de poder imposta pelos EUA, impulsionando uma transição para um país que inicie sua reconstrução e recupere sua independência, sob o mandato da Constituição Nacional.

Algumas tarefas imediatas:

  • Promover uma Frente Anti-imperialista Continental, articulada com os países que não foram convocados para a iniciativa “Escudo das Américas”, mantendo relação estreita com os governos de México, Cuba, Nicarágua, Colômbia, Uruguai e Brasil, e com as nações caribenhas dispostas a confrontar as políticas do império. Plena solidariedade a Cuba diante da iminente intervenção militar.
  • Criar Conselhos Nacionais amplos nas áreas mais críticas: Economia, Petróleo, Mineração, Defesa, Relações Internacionais e Direitos Humanos, que avaliem o impacto das medidas e leis adotadas e tracem uma estratégia para recuperar nossa soberania e independência.
  • Construir organização e consciência acompanhando o povo trabalhador em suas lutas por reivindicações fundamentais.

Para finalizar, assinalo que há muitos obstáculos para o desenvolvimento de políticas de reconstrução nacional e recuperação da independência, mas destaco dois: primeiro, os setores políticos da ultradireita nacional e internacional que clamaram pela intervenção dos EUA e estão desesperados por não terem sido incluídos na condução do país. Esse setor, agrupado sob a liderança personalista e entreguista de MCM, centra suas propostas na realização imediata de eleições, e não na reconstrução do país e na recuperação da independência. Seu objetivo principal é governar. Essa pressa decorre da percepção de que o tempo joga contra eles e de que sua influência na política nacional e na opinião pública está em risco. E não tenhamos dúvida: seria um governo de ultradireita, alinhado ao império e ao que há de pior na política mundial — supremacista, sectário e movido pelo ódio, pela vingança e por um anticomunismo feroz. Segundo, o setor do governo que expressa o madurismo radical, que resiste a perder o controle dos poderes públicos e sonha em retornar ao passado recente de autoritarismo e controle total das instituições por meio de fraudes, manobras e controle social. Ambos os setores obstaculizam a transição democrática: um tentando chegar ao poder para impor seu projeto neoliberal; o outro para recuperar poder e privilégios perdidos.

A tarefa de reconstruir o país e recuperar a independência exige um Acordo Nacional. Os setores patrióticos, democráticos e populares devem se unir, evitar a armadilha da polarização e impulsionar políticas para resgatar o país e fazer cumprir a Constituição Nacional, enfrentando as políticas oportunistas e antipovo dos setores que querem a continuidade autoritária ou um protetorado de fato. Cabe a nós seguir lutando…


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