Ebola, hantavírus e o fantasma da próxima pandemia
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Ebola, hantavírus e o fantasma da próxima pandemia

Emergência internacional na África e casos de hantavírus expõem como desigualdade, devastação ambiental e fragilidade dos sistemas públicos ampliam riscos sanitários globais

Tatiana Py Dutra 21 maio 2026, 15:41

Foto: Reprodução

A declaração de emergência internacional feita pela Organização Mundial da Saúde (OMS) diante do avanço do Ebola na República Democrática do Congo e em Uganda recolocou no centro do debate um temor que parecia distante após os anos mais agudos da Covid-19: o mundo está preparado para enfrentar uma nova crise sanitária global?

Embora especialistas afirmem que o cenário atual ainda não configura uma pandemia, a velocidade de propagação do novo surto, a circulação internacional de pessoas e o sucateamento de sistemas públicos de saúde em várias partes do planeta acenderam sinais de alerta. Ao mesmo tempo, casos de hantavírus ligados a um cruzeiro internacional e confirmados no Brasil ampliaram a preocupação com doenças zoonóticas – aquelas transmitidas de animais para humanos.

Para cientistas e organismos internacionais, o problema não se resume a um vírus específico. O avanço do desmatamento, das mudanças climáticas, da mineração predatória, da urbanização desordenada e da destruição de sistemas públicos de vigilância sanitária cria um ambiente ideal para o surgimento de novas epidemias.

Ebola: emergência internacional

A OMS declarou Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional (PHEIC) para o atual surto de Ebola causado pela cepa Bundibugyo, uma variante rara e particularmente preocupante porque ainda não possui vacina ou tratamento específico aprovado.

Até esta semana, autoridades da RDC registravam centenas de casos suspeitos e mais de uma centena de mortes. A doença já ultrapassou fronteiras e alcançou Uganda, com risco de disseminação regional.

O epicentro está na província de Ituri, no leste congolês, uma região devastada por conflitos armados, deslocamentos populacionais e extrema precariedade sanitária. Hospitais destruídos, circulação intensa de refugiados e a presença de grupos armados dificultam o rastreamento dos infectados e o isolamento dos casos.

Segundo a OMS, o vírus provavelmente circulou por semanas antes de ser identificado oficialmente. Modelagens epidemiológicas indicam que o número real de infectados pode ser muito maior do que o registrado. O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, afirmou estar “profundamente preocupado com a escala e a velocidade da epidemia”.

O que é o Ebola?

O Ebola é uma febre hemorrágica viral descoberta em 1976. O vírus é transmitido por contato direto com sangue, vômitos, secreções e outros fluidos corporais de pessoas ou animais infectados. Os sintomas iniciais incluem febre alta, dores musculares, fadiga intensa, vômitos, diarreia, hemorragias internas e externas, em casos graves.

A cepa Bundibugyo, responsável pelo atual surto, tem taxa de letalidade estimada entre 30% e 50%. Em outras variantes do Ebola, a mortalidade já chegou a 90%. Apesar da gravidade, especialistas ressaltam que o Ebola não possui a mesma facilidade de transmissão aérea da Covid-19. O contágio depende de contato próximo com fluidos contaminados, o que reduz seu potencial pandêmico global.

Ainda assim, o histórico recente preocupa. Entre 2014 e 2016, o maior surto de Ebola da história matou mais de 11 mil pessoas e chegou a países como Estados Unidos, Reino Unido e Itália. Hoje, o temor das autoridades sanitárias é que o colapso da cooperação internacional em saúde – agravado por cortes em programas públicos e organismos multilaterais – reduza a capacidade global de resposta.

Hantavírus: por que o surto no cruzeiro assustou o mundo?

Enquanto o Ebola mobiliza a África Central, outro vírus ganhou destaque após um surto registrado no navio de cruzeiro MV Hondius, que viajava entre a Argentina, a Antártida e ilhas do Atlântico Sul. A OMS confirmou 11 casos e três mortes ligados ao hantavírus, incluindo infecções pela cepa Andes – a única conhecida capaz de transmissão entre humanos.

O episódio gerou apreensão porque dezenas de passageiros desembarcaram antes da identificação oficial do vírus. No Brasil, dois casos confirmados e outros em investigação aumentaram o estado de alerta das autoridades sanitárias.

O que é o hantavírus?

Os hantavírus pertencem à família Hantaviridae e normalmente circulam entre roedores silvestres. A infecção humana ocorre principalmente pela inalação de partículas presentes em urina, saliva e fezes secas de ratos contaminados. Os sintomas iniciais incluem febre,

dores musculares, mal-estar e dificuldade respiratória. Nos casos graves, a doença pode evoluir rapidamente para síndrome cardiopulmonar, com insuficiência respiratória aguda e choque circulatório. A taxa de mortalidade pode ultrapassar 30% em alguns surtos.

Apesar disso, infectologistas e a própria OMS afirmam que o potencial pandêmico do hantavírus continua baixo. Isso ocorre porque a transmissão entre humanos é rara. Além disso, o vírus sofre relativamente poucas mutações e os pacientes graves costumam ficar incapacitados rapidamente, o que dificulta cadeias amplas de transmissão do vírus.

Ainda assim, especialistas recomendam precaução. À CNN, a infectologista Sabrina Soares alertou que “todo vírus com potencial de mutação e transmissão entre humanos merece vigilância epidemiológica constante”.

Outras ameaças monitoradas pela ciência

O receio de novas pandemias não se limita ao Ebola ou ao hantavírus. A comunidade científica acompanha diversos agentes infecciosos considerados potencialmente perigosos:

Gripe aviária H5N1 – O vírus já infectou mamíferos e causou casos humanos esporádicos em vários países. Cientistas monitoram o risco de mutações que facilitem transmissão sustentada entre pessoas.

Vírus Nipah – Identificado principalmente na Ásia, apresenta alta letalidade e pode provocar encefalite grave. Morcegos frugívoros são reservatórios naturais.

Febre de Lass – Endêmica em regiões da África Ocidental, também é transmitida por roedores e possui potencial de surtos urbanos.

Coronavírus emergentes – Mesmo após a Covid-19, pesquisadores continuam identificando novos coronavírus circulando em animais silvestres, especialmente morcegos.

“Doença X” – A própria OMS utiliza o termo para designar um futuro patógeno ainda desconhecido que possa provocar uma grande pandemia.

Desigualdade, devastação ambiental e o risco permanente

Especialistas em saúde pública afirmam que novas pandemias não são eventos imprevisíveis, mas consequência direta de um modelo econômico baseado na exploração intensiva da natureza e no desmonte de serviços públicos.

A expansão do agronegócio sobre áreas florestais, o garimpo ilegal, o avanço das mudanças climáticas e o enfraquecimento de sistemas universais de saúde aumentam o contato humano com vírus antes restritos a ambientes silvestres.

Ao mesmo tempo, organismos multilaterais alertam para o impacto dos cortes em pesquisa científica e cooperação internacional. O atual surto de Ebola, por exemplo, ocorre justamente em um momento em que programas globais de vigilância epidemiológica sofrem redução de recursos.

Ainda que por ora se descarte uma capacidade de disseminação global de Ebola e Hantavírus, o consenso científico é claro: novas epidemias continuarão surgindo – e o mundo segue longe de resolver as causas estruturais que as tornam cada vez mais frequentes.


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