São Paulo: uma marcha vitoriosa
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São Paulo: uma marcha vitoriosa

A mobilização do último dia 20 deu um sentido comum para a mobilização contra Tarcisio como expressão da direita dura, rompendo a passividade e o imobilismo

Israel Dutra 22 maio 2026, 11:26

Foto: Coluna do Movimento Esquerda Socialista (MES-PSOL) na manifestação do último dia 20/05 em São Paulo. (EM)

A marcha que levou dezenas de milhares às ruas na última quarta-feira (20/05), na sua ampla maioria estudantes das universidades estaduais paulistas, chegou às portas do Palácio dos Bandeirantes. A ação truculenta de Tarcísio articulou o maior operativo policial visto em muitos anos para proteger as grades do centro do poder. Uma comissão de estudantes foi recebida, reconhecendo a legitimidade do movimento, sem entretanto nenhuma sinalização concreta.

A marcha foi um grande êxito. Vale dedicar algumas linhas sobre o seu conteúdo e seu sentido político. Organizado através da aliança dos DCE´s e do movimento estudantil das três universidades estaduais paulistas – USP, Unicamp e Unesp – o ato percorreu as ruas do centro financeiro, em plena região da Faria Lima e desmoralizando a repressão, numa impressionante passeata que se conta na casa dos dezenas de milhares.

Nutridas colunas das universidades, com faixas unitárias, com a presença massiva de estudantes, mas também de trabalhadores e docentes das universidades, além de estudantes de outras universidades e escolas, grevistas de outras categorias (como os professores do municipio de SP), sindicatos como o dos metroviários, representantes da Apeoesp, entre outros.

O peso da esquerda se fez sentir: as maiores colunas eram da UP (que foi pioneira na construção do ato), do PCBR, da militância do MES e do Juntos (na altiva coluna com centenas de ativistas), do PSTU, além de expressiva presença da UNE e de correntes do PSOL, como o Semear/Afronte.

As três grandes vitórias

Podemos listar duas grandes vitórias, além da marcha em si: a) forneceu fôlego a greve estudantil que ocorre e luta nas três universidades, unificando diferentes lutas dispersas, inclusive de categorias que não realizaram greves como os metroviários ou que já obtiveram vitórias como os trabalhadores da USP; b) derrotou a repressão, desmoralizando Tarcisio e governo. Foi montado um operativo de guerra: ônibus bloqueados na estrada, pânico nas redes sociais, ameaças às lideranças. O ato irrompeu na via mais importante da cidade, saindo do Largo da Batata e tomando a Faria Lima.

As reportagens da imprensa oscilaram entre falar da massividade e do enorme engarrafamento que chegou a 900 km do perímetro urbano. O mais importante: deu um sentido comum para a mobilização contra Tarcisio como expressão da direita dura, rompendo a passividade e o imobilismo. Ou seja, com toda amplitude, o caminho para enfrentar a direita é a organização das lutas, com greves e atos de rua.

Esses aspectos não são menores, na conjuntura pré-eleitoral brasileira e no enfrentamento ao projeto de Tarcisio – ora mais Milei, ora mais Thatcher em direção a romper a resistência e impor um regime de guerra total contra o povo e as categorias organizadas. Tarcisio sofreu outro revés, na mesma data. Os estudantes da UNESP em Bauru organizaram um protesto contra sua ida na cidade, impedindo o de realizar seu ato político, alegando evitar “desgastes”.

Uma conjuntura transitória

A marcha marca uma importante inflexão, fortalecendo o polo das lutas, numa conjuntura que está em aberto. Tarcísio está estagnado nas pesquisas, em que pese a falta de uma oposição consistente e articulada. Quatro elementos marcam o cenário:

I – a extrema direita sofreu um revés com as revelações do The Intercept, colocando a campanha de Flávio Bolsonaro contra as cordas. O primeiro “refúgio” depois do escândalo foi um ato em Campinas, de pré-lançamento da campanha de Derrite ao Senado, ladeado de Flávio, Tarcisio e Sergio Moro. Com os prazos já vencidos, Tarcisio já não pode ser a peça alternativa a Flávio, tendo que ser parte de um condomínio que, nas melhor das hipóteses, está diante de uma crise profunda;

II – A explosão gerada pela Sabesp na zona oeste da capital – que chegou a vítimas fatais e destruiu casas – foi um retrato do próprio sucateamento do serviço público. Tarcisio leva adiante uma guerra de “relatos” para defender a hegemonia do seu programa ultraliberal, tendo como carro-chefe as privatizações e a venda do patrimonio público. O desastre da Sabesp somada às recorrente crises do serviço da Enel privatizada retomada o debate em amplos setores de massa contra as privatizações. Tarcisio se debilitou, ficou na defensiva e perdeu parte do discurso;

III – Existe uma conjuntura de lutas duras, chamamos de “moleculares”. Onde os ataques dos governos são intensos e as dificuldades da classe em responder são reais. Lutas e greves heróicas como a dos servidores do município de SP, quando Nunes quer impor uma derrota importante. Ou como a campanha do metrô, em que o sindicato foi atacado pelo governo numa live, numa nítida prática antisindical;

IV – A falta de uma oposição capaz de articular um plano de lutas e conectar com batalhas mais gerais como a 6×1. E o espaço aberto para a esquerda mais combativa poder afirmar uma nova direção – embrionária – a partir da unidade e da disputa política.

A marcha resultou vitoriosa porque foi uma primeira experiência que desmontou o discurso que intimida o ‘júpiter’ todo poderoso Tarcísio, que se aproveita do aparato repressivo e da própria distância da sede do poder paulista para ficar imune a bronca e as reivindicações

A dinâmica que se abre

Tarcisio já não é um ‘intocável’. Vai ter que administrar o desgaste e mesmo que sua reeleição seja provável, o movimento e a oposição podem lhe colocar uma cunha que terá valor para o futuro. E é disso que se trata. Como bloquear os ataques, construir sentido comum e oferecer uma saída para essa geração que entra na luta política “a quente”.

A questão central será o desfecho da USP, com os estudantes na vanguarda. A luta na maior univesidade brasileira, está diretamente ligada ao problema do ICMS, do financiamento e da defesa geral do caráter público. A vitoriosa greve dos trabalhadores dobrou a Reitoria; os estudantes massificaram suas assembleias no maior movimento em uma década; a ocupação da reitoria foi desalojada com violência, gerando comoção e retomando a força de um movimento que já vinha com certo desgaste. A entrada da Unicamp e o verdadeiro levante da Unesp trouxeram fôlego para concretizar o dia 20 e fortalecer a luta unificada.

A capacidade de conversão dessa dinâmica em espaço político unitário, para desafiar a extrema direita, será um desafio para todos os envolvidos. Um paradoxo é que grande parte das forças que estão na linha de frente do processo terão táticas distintas no processo eleitoral; isso vai gerar um certo distanciamento entre os setores, inevitável, mas devemos evitar que quebre de conjunto o espírito, buscando ressalvar as diferenças e defendendo o fortalecimento das entidades. Seria um erro de ‘aparato’ colocar os interesses particulares por cima dessa vitoriosa unidade, que é sobretudo social, mas tem um caráter político.

São momentos decisivos. Porque na luta dos estudantes, ecooa também os setores da nova classe trabalhadora, como entregadores, professores jovens precarizados, agentes de saúde, condutores. Muitos acompanham, sem poder entrar em greve ou participar de passeatas, com uma espécie de simpatia passiva às lutas em curso. Um sentimento diferente de outros momentos, quando os estudantes universitários eram vistos como elitistas e privilegiados (sentimento que ainda paira nas camadas mais atrasadas, mas hoje é bem menor).

Plantamos uma bandeira

Estamos convictos de que sem uma unidade ao redor das entidades, das categorias, como entre estudantes, trabalhadores, terceirizados, docentes, não vamos lograr vitórias. Convictos que essa tarefa requer unidade política entre os setores que querem lutar – essa foi mais uma das conquistas da marcha do dia 20, com conduções estudantis democráticas e recuperando os sindicatos para uma concepção classista e combativa.

Sabemos que somos uma parte desse processo, que deve ter uma vanguarda compartilhada por todos os setores que querem ter como método as ruas para derrotar a direita e o seus planos. Mas também estamos orgulhosos da experiência que estamos levando adiante. De nossas agrupações sindicais entre metroviários, professores municipais, trabalhadores da unicamp, professores estaduais, trabalhadores da USP. De nossas figuras que colocam o corpo na primeira fileira, como faz a deputada Sâmia Bomfim, servidora da USP, nos principais momentos da greve. Ou de ter Monica Seixas, Mariana Conti e Bruna Biondi como parlamentares na faixa que abriu a marcha do 20, sem se intimidar com a PM.

Temos os seguintes desafios: como organizar a enorme simpatia à luta em força militante, como conectar essa energia com as outras lutas em curso como a pelo fim da escala 6×1 e a batalha eleitoral para derrotar a extrema direita e construir um polo crítico e independente e lutar pela vitória. Nesse caso, será fundamental para toda essa vanguarda combater pelo que podemos chamar de “importância estratégica da vitória”, que seria um passo fundamental para que a fagulha da luta da USP siga incandescente para o futuro imediato dos que fizeram da marcha do dia 20 um ponto de apoio geral das lutas.


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